Anonimato: quem ainda quer?

Ao lado da apropriação restritiva da internet pelos governos e pelas empresas, podemos perguntar: os usuários ainda querem e valorizam o anonimato? Com tanta motivação para exposição da vida privada, o culto às celebridades inspira milhões de internautas a abrirem mão do anonimato para buscar a fama, nem que seja apenas entre seus pares.

Os Estados autoritários e muitas empresas valorizam o fim do anonimato como avanço no controle e na capitalização dos dados personalizados, respectivamente. Porém, nos estados supostamente democráticos, os usuários podem e devem exercer o controle social sobre as regulamentações. A sociedade civil pode participar diretamente e ponderar qual o custo que a paranoia da hiper vigilância em nome da segurança (e da celebrização) pode trazer às liberdades.

  • Será que vale a pena abrir mão do anonimato para ter mais segurança, “fama” ou apenas para ter serviços mais personalizados?
  • Em que medida temos usado o anonimato na internet para amadurecer as democracias com participação ativa na vida pública que envolve o prédio, o bairro, as praias e os próprios ambientes digitais?
  • Qual nossa preocupação com o ensino do uso ético e cidadão do anonimato para os milhões de novos internautas?

Pensar nestas questões não cabe apenas aos Estados e empresas, por mais chato que possa ser, é vital que este debate também tenham audiência na rede.

A internet potencializa liberdades e o anonimato, mas sempre foi uma rede de controle preciso dos fluxos de informações. Manter o anonimato na superfície da web exige engajamento direto para além do clique e controle social das políticas públicas. Caso contrário, veremos sim a morte do anonimato na internet e com ela a morte de boa parte da liberdade na web que tente a virar uma grande “TV à cabo interativa”. E contando que nossa vida é cada vez mais on-line, restariam poucos espaços para o anonimato em geral. O incrível da tecnologia é que sempre há linhas de fuga, como a deepweb neste momento, para dar fôlego à liberdade. Depende de nós que tipo de uso faremos desta liberdade e quanto queremos lutar por ela.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutor em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Pós-doutorando PNPD-CAPES no PPGPSI-UFBA. Psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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