Alone Together: Nota da autora e Introdução

por Sherry Turkle

NOTA DA AUTORA – TURNING POINTS

Sherry Turkle discorre brevemente sobre a inocência que o mundo conservava em relação a cultura digital no inicio de seus estudos sobre a área. No período as crianças estavam encantadas com seus brinquedos eletrônicos, nos videogames a sensação eram jogos em que mísseis invadiam asteróides e havia um deslumbre sobre programas inteligentes disputando partidas de xadrez. No jovem campo da inteligência artificial o debate circulava em torno de duas indagações: Se no futuro as máquinas seriam completamente programadas, ou se a inteligência artificial poderia emergir autonomamente a partir de simples instruções escritas nos hardwares dos dispositivos.

Ao relatar sua entrada no campo da tecnologia Turkle discorre sobre sua experiência ao entrar em uma terra estranha. Após passar vários anos em Paris estudando como a psicanálise havia se espalhado pela vida cotidiana, a autora ingressa como pesquisadora no MIT para estudar como a computação e sua linguagem estava afetando a vida cotidiana.

Sobre a questão a autora relata que metáforas computacionais, como “depuração” e “programação”, estavam começando a ser usadas para pensar sobre política, educação, vida social e sobre o eu. Enquanto seus colegas de ciência da computação foram imersos pela capacidade dos computadores em fazer coisas geniais, Turkle tinha outra preocupação: Como os computadores foram nos mudando enquanto pessoas?”

Muitas vezes indo de encontro aos colegas, sobretudo advindos da ciência da computação, que insistiam em enxergar os computadores “apenas como ferramentas”,  Turkle tinha certeza que o que emergia dessa nova cultura estava nos mudando e nos moldando enquanto seres. Como psicóloga psicanaliticamente treinada, a autora procurou explorar o que chamou de “história interna de dispositivos” e para isso adotou o estilo de pesquisa etnográfica. Nas palavras da autora:

“eu espreitava em torno do departamento de ciência da computação,  de clubes amadores e laboratórios de informática de escolas secundárias. Fiz perguntas a cientistas, donos de computadores domésticos, e as crianças que tinham contato com tais dispositivos, mas o mais importante é que eu ouvia como eles conversaram e vi como eles se comportavam entre os suas novas máquinas “pensantes”(p.19).

Turkle relata como ouviu computadores provocarem conversas eruditas. As pessoas se perguntavam se a mente humana era mais uma máquina programada e se o livre arbítrio era apenas uma ilusão. O mais impressionante para a autora é que essas conversas não aconteciam apenas em seminários, mas sim  em  torno de mesas de jantar e salas de jogos.  As crianças se transformaram em  filósofas preocupadas se os computadores tinham vida, se eles pensavam e com o que era ser uma pessoa nesse contexto. No fim dos anos 1970 e inicio dos anos 1980, Turkle afirma ter testemunhado um confronto com as maquinas que obrigou o ser humano se repensar.

Em 1984 Turkle lança seu primeiro livro sobre a relação de pessoas com os computadores: The second self. Nesse trabalho, a autora se concentra em como os computadores evocam e promovem uma nova reflexão sobre o eu. Na década seguinte a publicação de The Second Self,  a relação das pessoas com os computadores já não era a mesma.  Se em 1980 a relação entre as pessoas e os computadores era quase sempre um-a-um –um usuário sozinho com uma máquina, na década de 1990 os computadores tornaram-se uma espécie de portal que permitia que as pessoas ingressassem em mundos virtuais. Nesse período, as pessoas se juntaram em redes, descobriram um novo sentido de lugar e expandiram suas conexões e contatos. Turkle desloca seu foco de pesquisa da relação de “uma pessoa com um computador” para “as relações de pessoas formadas umas com as outras, utilizando o computador como intermediário”.

Em seu segundo livro, Life on the Screan,  lançado em 1995, Turkle discute como a relação das pessoas com os computadores conectados à internet nos levam a reavaliar nossas identidades. Para a autora utilizamos a “vida na tela” para  modificar nossas formas de pensar sobre a evolução, relacionamentos, política, sexo e self. Em meados da década de 1990 dois caminhos tornaram-se evidentes na relação das pessoas com a conexão a internet. O primeiro foi o desenvolvimento de uma vida em rede, a partir da popularização dos navegadores e motores de busca, e sobretudo, com a conexão disponível em dispositivos móveis. Em segundo lugar, houve uma evolução na área da robótica e dos robôs sociáveis.

A partir da pesquisa de Turkle em torno desses dois caminhos nasce o terceiro livro da autora, Alone Together. Na obra, Turkle analisa o comportamento de jovens de 20 e poucos anos, os considerados “nativos digitais”.  Com um tom mais pessimista que o apresentado nos primeiros livros, Alone Together reflete uma insegurança da autora com o caminho que os relacionamentos contemporâneos vem tomando. A autora observa o fenômeno de maneira dúbia, se por um lado  a tecnologia expande as oportunidades de nos relacionarmos com os outros, por outro, ela acaba também por nos blindar e nos proteger de relacionamentos.

Para Turkle esse seria o terceiro “ponto de virada” na nossa expectativa com a tecnologia e com nós mesmos.  Atualmente, tememos os riscos e as decepções de relacionamentos com nossos companheiros seres humanos e depositamos nossas esperanças na tecnologia.  “Esperamos mais da tecnologia e menos de nós mesmos”. No livro a autora se concentra em observações realizadas durastes os últimos quinze anos, mas também resgata e remonta a  história e a evolução das tecnologias de comunicação mediada por computador. Como pioneira da área, Turkle traça um rico panorama das mudanças das nossa relação com as tecnologias digitais, apresentando inúmeros exemplos ao leitor.

 

INTRODUÇÃO

A tecnologia tem se colocado como uma espécie de arquiteta de nossas intimidades, sugerindo substituições que, na visão de Turkle colocam o real em fuga. Nesse ponto, a autora discorre sobre o mundo virtual proposto pelo Second Life baseado no slogan “Finalmente um lugar para amar seu corpo, amar seus amigos e amar sua vida”. Paralelo a isso, o desenvolvimento dos robôs sociáveis, principalmente os vendidos na forma de animal de estimação, são apresentados como o “melhores” do que qualquer animar de estimação real poderia ser.

Turkle aponta um paradoxo relacionado a tecnologia, ao tempo em que ela é sedutora ao tentar atender os nossos desejos e vulnerabilidades humanas, ela nos oferece a ilusão de companhia e intimidade sem as demandas da amizade.  Nossa vida em rede nos permite nos escondermos uns dos outros, temos preferido escrever do que falar, ou seja, nos escondemos atrás dos nossos dispositivos. Alone Together completa uma trilogia sobre a relação entre computadores e pessoas e traz dois questionamentos centrais: Como chegamos até aqui e se estamos contentes com o lugar que alcançamos?

The robotic moment

Os robôs sociáveis atendem ao nosso olhar, falam com a gente e aprendem a nos reconhecer. Eles nos pedem para que cuidamos deles e em troca imaginamos que eles possam também cuidar de nós.  Na introdução, Turkle antecipa diversas questões que serão aprofundadas em seu livro, o momento em que a robótica vive é uma delas. Os robôs sociáveis tem sido amplamente discutidos em diferentes veículos de comunicação, geralmente sendo apresentados sob uma ótica bastante entusiasta.  Robôs que fazem companhia, que substituem namorados, namoradas, amigos e filhas. Robôs que dariam conta de suprimir a demanda emocional dos humanos com os quais se relacionam. Mas Turkle vê como problemática essa idéia de substituirmos relacionamentos humanos por relacionamentos entre homens e máquinas, sobretudo, a partir do que considera uma simulação.

A autora relata um episódio em que leva a sua filha para visitar a exposição de Darwin, no Museu Americano de História Natural. A garota ao se deparar com duas tartarugas gigantes das ilhas Galápagos expressa espanto por terem usado uma tartaruga real na exposição e não uma tartaruga robô. Após Turkle mostrar surpresa, sua filha argumenta: que achava uma vergonha terem trazido uma tartaruga de tão longe tirando-a de sua casa na ilha no Pacífico, quando ela estava ali no museu sem fazer nada, imóvel. Para Turkle, sua filha ao mesmo tempo que se mostrou preocupada com a tartaruga, se mostrou insensível a idéia de autenticidade. Nesse ponto a autora afirma acreditar que em nossa cultura de simulação, a noção de autenticidade é para nós o que o sexo era para o vitorianos: ameaça e obsessão, tabu e fascínio.

Após discorrer sobre uma série de casos em que a relação dos humanos com robôs sociáveis se tornam problemáticas. A autora reforça sua visão de psicóloga psicanaliticamente treinada para ver os possíveis danos que o excesso de otimismo em torno do tema não nos deixa ver. “Sob a promessa de nos oferecer companhia, amizade e amor, os robôs sociáveis acabam por desresponsabilizar nós humanos em nossas relações afetivas. Se um humano não é bom filho, bom namorado, boa esposa, um robô pode ser” (p.46). Para a autora essas experiências com robôs sociáveis vem falseando a vivacidade das relações humanas e enfraquecendo nossos laços. A idéia de robôs sociáveis ??sugere que podemos nos relacionar contornando a intimidade. As pessoas parecem estar confortados pela crença de que se nos afastarmos uns dos outros, os robôs estarão lá, programados para nos fornecer uma simulação do amor.

Connectivity and its Discontents

Turkle inicia esse tópico discutindo como as conexões online foram inicialmente concebidas como  “substitutas” do contato face-a-face, principalmente por questões práticas: Não tenho tempo para visitar meus amigos? Posso telefonar. Não tenho tempo para telefonar? Então envio uma mensagem de texto. Até ai tudo bem, mas as mensagens de texto se tornaram a primeira opção muito rapidamente. Descobrimos que o mundo conectado em rede pode ser especialmente adequado para a vida sobrecarregada e ocupada que temos.

A autora observa que hoje em dia vivemos uma confusão em torno do que é estar próximo ou distante de alguém. Muitas vezes estamos conectados e conversando com outra pessoa, mas não dedicamos a essa pessoa a atenção merecida, pois estamos sempre envolvidos em outras atividades online. Em uma viagem não nos despedimos de fato do local do qual partimos, não focamos na experiência do novo lugar, mas sim mantemos a atenção voltada para os mesmos assuntos e pessoas que ficaram no nosso local de origem. Em palestras, não dedicamos nossa atenção ao que esta sendo dito, mas continuamos envolvidos com nossos dispositivos lendo noticias, respondendo emails e jogando.  As pessoas em grande parte do tempo saem de casa e ocupam espaços públicos, mas permanecem a sós com suas redes de pessoas já estabelecidas.

Continuando com sua linha de raciocínio, Turkle passa a discutir como adolescentes não tem mais interesse em falar pelo telefone, e sim, preferem se comunicar através de mensagens de texto e redes sociais. Ao entrevistar adolescentes, a autora relata depoimentos em que as mensagens são consideradas boas pois permitem um controle de acesso e intimidade entre as pessoas.  Para essa faixa etária as mensagens de texto “não colocam as pessoas nem muito perto, nem muito longe, mas apenas na distancia certa” (p.48). Nesse sentido o mundo parece estar cheio de gente que considera como positivo o conforto de se relacionar com diversas pessoas ao mesmo tempo, mas sem estar em contato mais próximo com nenhuma delas.

Outro ponto que merece destaque no tópico é sobre a dificuldade em que os jovens estão tendo em se desconectarem. As pessoas não conseguem se separar dos seus telefones e dispositivos conectados a internet. Apresentam uma enorme ansiedade em manter e checar conversas online. Alguns adolescentes relatam que ficar sem celular ou perder os seus aparelhos seja como sentir “uma morte” de alguém próximo. Mais uma vez Turkle pontua: A tecologia remodela a paisagem de nossa vida emocional, mas ela tem nos oferecido a vida com a qual queremos lidar? Quais são as nossas responsabilidades a partir daqui?

 

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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