Alone Together: Conclusão e Epílogo

CONCLUSÃO

Necessary conversations

Em 1978, Michael Dertouzos, diretor do Laboratório de Ciência da Computação, realizou um retiro de dois dias no MIT Endicott House sobre o futuro dos computadores pessoais, no momento amplamente chamados de “computadores domésticos”. Estava claro para ele que um dia todas as pessoas teriam seus próprios computadores. Mas o que as pessoas poderiam fazer com eles? Havia um potencial tecnológico que precisava ser trabalhado. Falava-se em ensinar crianças, fazer impostos, jogar, mas com excessão dos acadêmicos ninguem trouxe a ideia de escrever no computador.

Agora que sabemos que os computadores nos mantém ligados uns aos outros, em rede, não precisamos mais mantê-los ocupados, eles é que nos mantém ocupados. “Nós não fazemos nosso email, é nosso email que nos faz”.

Online, encontramos facilmente a empresa, mas estamos esgotados pelas pressões por performance. Nós gostamos da conexão contínua, mas raramente temos a atenção total um do outro. Nós gostamos do que a Web sabe sobre nós, mas isso só é possível porque comprometemos a nossa privacidade. “Deixamos migalhas de pão eletrônicos que podem ser facilmente explorados, tanto política quanto economicamente”. Temos muitos novos encontros, porém provisórios, para ser colocados “em espera” se outros melhores aparecerem. Além disso, novos encontros não precisam ser melhores para chamar nossa atenção. Estamos ligados em responder positivamente simplesmente pelo fato de ser um encontro novo.

Podemos trabalhar em casa, mas o nosso trabalho invade nossas vidas privadas e não podemos mais discernir os limites entre eles. Nós gostamos de encontrar as pessoas instantaneamente, mas temos que esconder os nossos telefones para termos um momento de tranquilidade .

Oprimido pelo ritmo possibilitado pela tecnologia, o fato de podermos nos conectar com pessoas que estão distantes poderia nos trazer segurança. Porém, quando questionamos em quem podemos confiar ou chamar em uma emergência, cada vez mais dizemos que nosso único recurso é a família.

Os laços que se formam através da Internet não são, no final, os laços que unem e sim os laços que preocupam. Nós nos conectamos uns aos outros em jantares de família, enquanto corremos, enquanto dirigimos etc. e não queremos nos intrometer na vida do outro, mas em vez disso estamos constantemente nos intrometendo via dispositivo.

Dessa forma, quando se encontram, os membros de uma família, cada um sozinho em seu dispositivo, ficam ocupados – cada vez mais com a tecnologia e menos uns com os outros.

As premissas de Bohr são igualmente verdadeiras na área da robótica sociável, onde as questões não são menos confusas. Os pesquisadores da área da robótica insistem que as emoções dos robôs são compostas das mesmas partículas dos humanos (porque a mente é feita de matéria), mas as reivindicações dos robôs derivam de programas destinados a obter um aumento emocional fora de nós.

O primeiro princípio da robótica é de que a população envelhece e não há pessoas suficientes para cuidar das necessidades humanas dos idosos e assim, um companheiro robô é melhor que nada. Mas não há pessoas para fazer isso. Estamos em uma encruzilhada e é hora de dsicutir essas questões.

Enquanto trabalhava neste livro, a autora coloca que discutiu esses temas com um ex-colega, Richard, que por um acidente automobilístico, ficou em uma cadeira de rodas e precisa de cuidados de enfermagem em tempo integral. Richard está interessado em robôs sendo desenvolvidos para fornecer ajuda prática e companheirismo para as pessoas que se encontram na mesma situação que ele, mas sua reação à idéia é complexa. Ele afirma que enquanto algumas pessoas estão em busca de um robô, muitas outras estão em busca de uma pessoa. Mas por outro lado ele traz a questão dos maus tratos que os deficientes sofrem com enfermeiros e cuidadores. E complementa ainda que mesmo sofrendo maus tratos, ele sabe que aquela pessoa tem uma história. Para ele, então, estar com uma pessoa, mesmo que essa seja sádica ou desagradável o sentir-se vivo. Isto é, significa que a sua maneira de estar no mundo tem uma certa dignidade, mesmo que com suas atividades radicalmente reduzidas. Para ele, a dignidade requer um sentimento de autenticidade, uma sensação de estar conectado à narrativa humana.

A perspectiva de Richard é uma advertência para aqueles que falam de forma simples e técnica sobre a as interações entre humanos e máquinas. Nós sabemos o que o robô não pode sentir – não podesentir empatia humana ou o fluxo de conexão humana. Será que não nos importamos porque queremos conversar com máquinas que não podem compreender e cuidam de nós ou porque queremos escapar um dos outros?

Symptoms and dreams

A idéia de um robô companheiro traz uma sensação de controle e de uma bem-vinda substituição. Somos vulneráveis ??a um desejo de controlar as nossas ligações. Como vivemos o florescimento da cultura da conectividade, sonhamos com os robôs. Se a vida é difícil e somos constantemente julgados, o robô estará sempre ao nosso lado. A idéia de um robô companheiro serve como sintoma e sonho. Como todos os sintomas psicológicos, ele obscurece um problema a ser resolvido sem abordá-lo. O robô irá proporcionar companheirismo e mascarar os nossos medos de intimidades demasiado arriscados. Como sonho, os robôs revelar o nosso desejo de relações que podemos controlar.

Um sintoma disfarça o conhecimento para que ele não tenha que ser enfrentado no dia a dia. Por exemplo, é mais fácil de se sentir constantemente com fome do que reconhecer que sua mãe não cuida de você. É mais fácil ficar enfurecido em uma longa fila do que lidar com o sentimento de que o seu cônjuge não está lhe dando a atenção que você deseja. Quando a tecnologia é um sintoma, ela nos desconecta de nossas lutas reais.

No tratamento, os sintomas desaparecem porque eles tornam-se irrelevantes. Os pacientes estão mais interessado em olhar para o que os sintomas. Assim, quando olhamos para a tecnologia como sintoma e sonho, mudamos a nossa atenção para longe de nós mesmos.

A tradição psicanalítica ensina que toda a criatividade tem um custo, um cuidado que se aplica a psicanálise em si. Para o psicanalista Robert Caper e coloca que a transgressão não está em tentar fazer as coisas melhores e sim em não nos permitirmos ver os seus custos e limitações. Para demonstrar seu ponto de vista, Carper traz a história de Édipo – que é punido por buscar um conhecimento em particular, o conhecimento de sua ascendência. Caper sugere que ele é punido por algo mais: sua recusa em reconhecer as limitações do conhecimento. O paralelo com a tecnologia é claro: não transgredimos porque tentamos construir o novo, mas sim porque não nos permitimos considerar o que nos perturba ou nos diminui. Nosso problema não é por causa da invenção, mas porque achamos que ela vai resolver tudo. Uma abordagem semelhante à tecnologia nos liberta de narrativas inflexíveis de otimismo tecnológico ou desespero. A autoria traz uma citação de Kevin Kelly, que coloca: “Se você pode honestamente amar um gato, um ser em que você não pode dar instruções em uma casa estranha, porque você não pode amar a web?”. Kelly tem uma visão de conectividade como algo que pode amenizar o nosso mais profundo receio – de solidão, perda e morte.

Édipo é também uma história sobre a diferença entre conseguir o que você quer e conseguir o que você acha que quer. A tecnologia nos dá mais e mais do que pensamos que queremos. Pode-se supor que o que queremos é estar sempre em contato e nunca sozinhos, não importa quem ou o que está em contato conosco. Mas, se prestarmos atenção para as consequências reais do que pensamos que queremos, podemos descobrir o que realmente queremos. Podemos decidir que é bom para jogar xadrez com um robô, mas que os robôs são impróprios para qualquer conversa sobre a família ou amigos. Podemos decidir que, para essas conversas, temos de ter uma pessoa que conhece, em primeira mão, o que significa nascer, ter pais e uma família, de desejar o amor de adultos e crianças, e deantecipar a morte.

Estamos emocionalmente dependentes de amigos on-line e intrigados com robôs que, segundo seus criadores, estão quase pronto para amar. O que estamos faltando em nossas vidas com os outros, que nos leva a preferir a vida a sós?

O que faz a simulação quer? A simulação exige imersão. Mas imerso na simulação , pode ser difícil lembrar de tudo o que está para além dela ou até mesmo de reconhecer que nem tudo é capturado por ela. A simulação não só exige imersão, mas também cria um eu que prefere a simulação. Simulação oferece relações mais simples do que a vida real pode nos proporcionar.

Estar preparado não significa que precisamos dar o próximo passo. As coisas começam de forma inocente e podem acabar de forma reducionista, com alegações de que um robô sabe como formar conexões porque tem os algoritmos. Estamos indiferentes se somos amados por robôs ou por nossa própria espécie?

No clássico conto de ficção científica de Philip K. Dick “Do Androids Dream of Electric Sheep” (que foi adapatado para o cinema no filme Blade Runner), amar e ser amado por um robô parece uma coisa boa. O herói do filme, Deckard, é um caçador profissional de robôs em um mundo onde seres humanos e robôs parecem iguais. Ele se apaixona por Rachel, um andróide programado com memórias humanas e o conhecimento de que ela vai morrer (o argumentado da autora é que o conhecimento da mortalidade e uma experiência do ciclo de vida são o que nos faz unicamente humanos). Para Turkey, a mensagem de Blade Runner traz é nós não vamos nos importar se as nossas máquinas são inteligentes, mas se elas nos amam.

De fato, os especialistas em robótica enfatizam o ponto de que máquinas afetivas vão cuidar de nós. Esse argumento já se tornou convencional, o que é perigosamente inadequado.

Emotion enough

Os criadores de robôs argumentam que robôs podem desenvolver emoções afirmando que a base de todo sentimento é material; o nível de tristeza é basicamente um número, uma série de valores de várias substâncias neuroquímicas que circulam no cérebro. Por que os números de um robô seriam então menos autênticos do que o de um ser humano?

Sherry Turkle contra-argumenta com o fato de que os robôs não tem um corpo e uma vida humana – nossas emoções estão ligadas a um desenvolvimento contínuo, de dependência na infância a maior independência, experimentamos os traços de nossas dependências anteriores em fantasias posteriores, desejos e medos.

Outra linha argumentativa afirma que as emoções robóticas são válidas se a considerarmos como uma nova categoria. Os gatos têm emoções de gato, os cães têm emoções de cão. E agora, os robôs terão emoções de robô, também em sua própria categoria e da mesma forma real e autêntica. Uma vez que as emoções robóticas têm sua própria categoria, não há necessidade de comparar. Sherry Turkle  contra-argumenta novamente colocando que os robôs não tem emoções que devemos respeitar. Nós construimos robôs para fazer as coisas que nos fazem sentir como se eles tivessem emoções. Nossas respostas são seu modelo de design.

A simulação é muitas vezes justificada como prática de habilidades para a vida real – para se tornar um melhor piloto, marinheiro, ou piloto de corridas. Mas quando se trata de relações humanas, a simulação nos traz problemas. Online, em espaços virtuais, a simulação nos transforma em suas criaturas.

Nada na vida real com pessoas reais lembra vagamente o ambiente que se encontra na rede. Se na vida real a mudança é gradual, na vida online o ritmo das relações é acelerado. Às vezes, as pessoas tentam fazer na vida como na simulação, tentam aumentar o drama da vida real ou controlar aqueles que os rodeiam, o que não costuma acabar bem. Então, em fracasso, muitos são tentados a voltar para o que eles fazem bem: viver suas vidas na tela. Se existe uma dependência aqui, não é da tecnologia, e sim para os hábitos da mente que a tecnologia permite praticar. E assim podemos nos tornar intolerantes com nós mesmos: “Nunca viajo sem meu BlackBerry”, diz uma consultora de gestão de cinquenta anos de idade. Ela não pode aquietar sua mente sem ter as coisas em sua mente.

Em sua história de solidão, Anthony Storr escreve sobre a importância de sermos capazes de nos sentir em paz em nossa própria companhia. A quietude hoje nos torna ansiosos, por isso observamos um interesse renovado em ioga, religiões orientais , meditação e lentidão.

E agora vem o desafio de uma nova “espécie” – robôs sociáveis ??- cujas “emoções” são projetadas para tornar-nos confortáveis ??com eles. O que vamos dizer?

A reação romântica da década de 1980 fez da computação um modelo da mente; hoje lutamos com o que nós nos tornamos na presença de computadores. Assim, temos que pensar em remodelar ativamente a nossa vida na tela. Encontrar um novo equilíbrio será mais do que uma questão de desacelerar.

Quandaries

Ao defender “máquinas de carinho”, os especialistas enquadram as questões em dilemas: “Você quer que seus pais e avós sejam cuidados por robôs ou prefere que não sejam atendidos?” “Você quer idosos solitários e entediados ou você os quer envolvidos com um companheiro robótico?” Tais dilemas trazem a idéia de que só existe uma escolha: cuidadores robóticos ou solidão.

Há uma rica literatura sobre a forma de romper com esse pensamento cartesiano. Para mostrar na prática, um grupo de crianças em sala de aula da quinta série fez uma reflexão sobre ser “a favor ou contra” a discussão sobre cuidadores robô; eles se afastaram do dilema e questionaram se não tínhamos pessoas para estes trabalhos, abrindo uma conversa diferente.

Turkle experimentou um momento de reformulação durante um seminário no MIT que discutia o papel de robôs na medicina. Enquanto alguns alunos insistiam que era inevitável para os robôs assumirem papéis de enfermagem, outros colocaram que os idosos merecem o toque humano e que qualquer outra coisa é humilhante. Os argumentos eram sempre em termos absolutos: o inevitável versus o insuportável.

Dentro deste debate uma mulher, cuja mãe havia morrido recentemente, propôs limitar a conversa e imaginar uma máquina que é uma extensão do corpo de um ser humano tentando cuidar carinhosamente para o outro. Uma mudança de enquadramento abraça a tecnologia ao mesmo tempo que fornece uma mãe com o toque de uma filha.

No espírito de “quebrar o enquadramento e ver algo novo”, o filósofo Kwame Anthony Appiah coloca que o raciocínio moral é melhor realizado não respondendo aos dilemas, mas questionando como eles são colocados, lembrando-nos continuamente que somos nós que escolhemos a forma de enquadrar as coisas.

Forbidden experiments

Quando consideramos os robôs em nosso futuro, devemos pensar sobre nossas responsabilidades com o outro.

Por que queremos robôs para cuidar de nós? Entendendo-se as virtudes da parceria com um robô em guerras, experiências espaciais, medicina e em condições de trabalho perigosas, a autora questiona o porquê de estarmos tão interessados ??em sua utilização no cuidar.

Algumas pessoas consideram o desenvolvimento de máquinas cuidadoras como simples senso comum. Muitas vezes, os relacionamentos dependem de investimentos de tempo. Sabe-se que o tempo que passamos cuidando dos filhos estabelece um substrato crucial. As crianças tornam-se confiantes por serem amadas e nós, que cuidamos deles, confirmamos nossa capacidade de amar e cuidar. O doente e os idosos também merecem ser confirmados neste mesmo sentimento de confiança básica. Como nós cuidamos deles, tornamo-nos mais plenamente humanos.

A justificativa mais comum para a delegação de cuidados aos robôs se concentra no fato de que para aquele que é cuidado é a mesma coisa. Mas nós não sabemos como as pessoas com deficiência recebem a voz humana, o rosto e o toque. E se temos robôs para cuidar dos mais velhos, por que não para cuidar das crianças?

A relação de uma criança com um robô sociável é muito diferente da de uma criança a uma boneca. As crianças não tentar modelar-se nas expressões de seus bonecos, ao contrário, elas projetam a expressão humana na boneca. Mas uma babá robô, como já previsto, pode ser usada como modelo. Isto levanta questões graves. As implicações de desenvolvimento das crianças, tendo robôs como modelos, são desconhecidos e potencialmente desastrosos. Por que estaríamos dispostos a considerar tais riscos?

Estamos conectados como nunca estivemos antes. Pesquisas mostram que os jovens já relatam um declínio dramático na participação na vida de outras pessoas. Estudantes universitários de hoje são, por exemplo, muito menos propensos a dizer que é valioso colocar-se no lugar dos outros ou para tentar entender seus sentimentos.

Esses achados confirmam as impressões de psicoterapeutas que afirmam o crescente número de pacientes que se apresentam no consultório como separados do seu corpo e perto de desconhecer as cortesias mais básicas. Conectados a seus dispositivos de comunicação, estes pacientes dão pouca atenção às pessoas à sua volta.

Early days

Há sem dúvida a tentação de falar sobre tudo isso em termos de vício. Tal metáfora se encaixa no fato de que quanto mais se gasta tempo online, mais se quer passar tempo online. Porém, quando se fala sobre vício, sugere-se que, se há problemas, só há uma solução: para combater o vício, você tem que descartar a substância viciante. Mas nós não estamos propondo nos livrar da Internet.

Sherry Turkle afirma que acredita em novos caminhos, sem se considerar vítima de uma substância ruim: temos que encontrar uma maneira de viver com a tecnologia sedutora e fazê-la funcionar para os nossos propósitos. Isso é difícil e dará muito trabalho.

O que ela denomina realtechnik sugere darmos um passo para trás e reavaliar quando ouvimos narrativas triunfalistas ou apocalípticas sobre como viver com a tecnologia. Realtechnik é cético sobre o progresso. Ele estimula a humildade, um estado de espírito em que estamos mais abertos a enfrentar problemas e reconsiderar decisões. Ele nos ajuda a reconhecer os custos e reconhecer as coisas que nos são invioláveis. Como ela já discutiu, essa maneira de encarar a vida com a tecnologia está perto da ética da psicanálise.

A autora propõe que cometemos o erro de ver a tecnologia em sua maturidade, mas, na verdade, estamos em seus primeiros dias. Há tempo para fazer as correções. Os jovens precisam ser convencidos de que, quando se trata de nossa vida em rede, ainda estamos no início das coisas. Encontramos jovens tentando recuperar a privacidade pessoal e atenção um do outro. Os jovens de hoje têm uma vulnerabilidade especial: embora sempre conectados, eles se sentem privados de atenção.

A cultura de rede é muito jovem. Os nossos problemas com a net estão se tornando muito perturbadores para serem ignorarados. No extremo, estamos tão enredados em nossas conexões que negligenciamos o outro. Nós não precisamos ejeitar ou menosprezar a tecnologia. Precisamos colocá-la em seu lugar.

Sherry Turkle propõe ainda que, em robótica, nós temos que estar preocupados que a simplificação e redução da relação já seja algo naturalizado. Neste livro, ela refere-se a nossas vulnerabilidades em vez de nossas necessidades. Necessidades implicam que temos de ter alguma coisa. A idéia de ser vulnerável deixa muito espaço para a escolha. Há sempre espaço para ser menos vulnerável, mais evoluído. Não estamos presos. Nós inventamos tecnologias inspiradoras e permitimos que elas nos diminuam. A perspectiva de amar ou ser amado por uma máquina muda o que o amor pode ser. Os jovens que conheceram vidas de amor certamente podem oferecer mais.

A autora acredita que chegamos a um ponto de inflexão, onde podemos ver os custos e começar a agir, com coisas muito simples: recuperar os bons costumes, conversar com colegas no corredor, em jantares ou em parques sem telefones celulares. Sabemos agora que os nossos cérebros são religados cada vez que usamos um telefone para pesquisar ou navegar ou na multitarefa. Quando tentamos recuperar nossa concentração, estamos literalmente em guerra com nós mesmos. No entanto, não importa quão difícil, é hora de olhar novamente para as virtudes da solidão, deliberação e viver plenamente o momento.

EPÍLOGO 

The letter

No Epílogo, a autora narra sua experiência, em 2009, quando sua filha morou sozinha pela primeira vez, durante um ano, na Irlanda.

Ao deixá-la na Irlanda, já em casa, ela releu as cartas que trocou com sua mãe 40 anos atrás quando foi morar sozinha e reflete que a comunicação que tem com a filha, via skype e mensagens de texto, não deixarão tais lembranças.

Em contato com outros pais que estão na mesma situação, ela percebe situações semelhantes: eles afirmam o valor da tecnologia, que os mantém em constante contato, mas ressaltam sua superficialidade. “Mesmo com as constantes atualizações, eu não tenho muita noção do que está realmente acontecendo. Como é que ela realmente se sente. Além disso, as mensagens de texto permitem mentir”.

Turkle coloca que não há ironia em sua experiência do digital com o efêmero e em seu momento auto-indulgente imagina a filha em 40 anos sem nenhum traço de suas conversas, porque o digital é apenas efêmero.

Life capture

Vannevar Bush, diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, durante a Segunda Guerra Mundial, estava preocupado com o que iria acontecer quando a guerra terminasse e os cientistas tivessem que voltar à vida civil. A preocupação maior dele era com os físicos. Bush sugeriu que os físicos desenvolvessem um “dispositivo no qual um indivíduo armazena todos os seus livros, registros e comunicações” – Memex. Esse dispositivo deveria ser mecanizado para que possa ser consultado com velocidade e flexibilidade.

No final de 1970, o cientista da computação Steve Mann começou a gravar a sua vida de uma forma muito diferente em espírito de resistência a um mundo cheio de câmeras de vigilância. Mann encontrou uma maneira de usar um computador, teclado, tela e transmissor de rádio em seu corpo. Ele capturou a sua vida e postou na web. Hoje em dia, qualquer pessoa com um smartphone é um arquivista. E, de fato, muitos dizem que quando eles não usam seus celulares para documentar suas vidas, sentem-se negligentes.

Em meados da década de 1990, o pioneiro da computação Gordon Bell começou um projeto que iria levá-lo a criar um arquivo completo de sua vida. Confrontado com a questão de como organizar e recuperar esses dados, Bell começou a trabalhar com o seu colega da Microsoft Jim Gemmell, dando origem ao projeto MyLifeBits.

Na cultura digital, a vida pode tornar-se uma estratégia para a criação de um arquivo. Os jovens moldam suas vidas para produzir um impressionante perfil no Facebook. Quando sabemos que tudo em nossas vidas é capturado, vamos começar a viver a vida que esperamos ter arquivada.

Para Bell, um arquivo de vida responde ao desejo humano de uma espécie de imortalidade, a antiga fantasia de enganar a morte. Mas a experiência de construção do arquivo podem subverter essa intenção. Um dos prazeres da vida é lembrar, o bom e o ruim. Será que o arquivo poderia nos convencer de que o trabalho de lembrar já está feito?

Após algum tempo, Bell continua a ser um entusiasta de arquivamento vida, mas admite que isso pode ter efeitos indesejados. Por um lado, ele suspeita que seu projeto pode estar mudando a natureza de sua memória e descreve uma falta de curiosidade sobre detalhes da vida que ele pode facilmente encontrar em seu arquivo.

O evento é uma celebração da presença física (exemplo do Dia da Inauguração, Washington, DC, em 2009), mas a multidão chega para aqueles que estão ausentes. É importante ter imagens do dia em seu próprio telefone e é importante enviá-las. Uma foto da inauguração, um texto, uma postagem, um email ou um Tweet – tudo valida a sensação de estar lá.

Hoje em dia, a fotografia não é suficiente. É necessário enviá-la. Estamos todos pressionados no serviço de tecnologias de memória e validação.

 Collection and recollection

Sherry Turkle relembra que quando ficou sabendo que o MyLifeBits usaria reconhecimento de face para identificar fotografias automaticamente se lembrou de uma gaveta de fotos de sua mãe, onde as fotos ficam sem nenhuma ordem e com anotações atrás. Escolher uma foto na gaveta era escolher uma surpresa.

Bell e Gemmell vêem a organização de fotografias como um problema técnico que o computador precisa resolver – “As pessoas não querem ser bibliotecários de seus arquivos digitais”. Turkle afirma que sua mãe com certeza nunca se viu como uma bibliotecária.

A autora traz a teoria de Sigmund Freud, que entende que as coisas significam tanto pelo que lembramos quanto pelo que esquecemos e o esquecimento oferece pistas sobre quem somos.

Na Microsoft, o cientista da computação Eric Horvitz é responsável por tranformar o MyLifeBits em um programa mais intuitivo, dando-lhe forma e padrão. Horvitz afirma que o programa chega a compreender a sua mente, como você organiza suas memórias e como você escolhe. “Ele aprende a ser como você, para ajudá-lo a ser uma pessoa melhor”.

Conforme a tecnologia se desenvolve, ela nos mostra o que ela quer. Para viver pacificamente com a tecnologia, precisamos fazer nosso melhor para acomodar esse “querer”.  Seguindo essa lógica, umas das coisas que a tecnologia quer é controlar nossas memórias.

A letter home 

Turkle coloca que começou a redigir este capítulo no final do verão de 2009 e seu trabalho foi interrompido pelos dias santos judaicos. Em uma celebração o rabino colocou a importância de se falar com os mortos e que devemos falar quatro coisas: Eu sinto muito. Obrigado. Eu te perdôo. Eu te amo. A autora coloca então que é isso que nos faz humanos, ao longo do tempo e à distância.

Com tal pensamento ela pergunta a filha, que está na Irlanda, o que ela acha de programas como o MyLifeBits. A filha responde que acha assustador, que é muito mais interessante atos humanos de lembrança que filtram e excluem e que o arquivamento deve seguir o caminho da vida.

Turkle pede a filha que escreva uma carta e ela responde que não tem um assunto para escrever. Ao saber da troca de cartas entre a mãe a avó, a filha pede à mãe que ela escreva uma carta, e ela o faz.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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