Alone Together: Capítulo 8

Capítulo 8: Always on

Em 1996, ainda antes do experimento de Pia Lindman, sete jovens pesquisadores do MIT Media Lab, que se denominaram “cyborgs”, levavam computadores e transmissores de rádio em mochilas, teclados nos bolsos e displays digitais nas armações de óculos. Assim, viviam sempre conectados sem fio à Internet, online e livre de mesas e cabos.

No MIT, falou-se muito sobre o que os cyborgs estavam tentando realizar. Foi uma ferramenta para estar mais bem preparado e organizado em um ambiente de informação cada vez mais complexo. O cérebro precisava de ajuda. Esses cyborgs afirmaram que sentiam-se novos seres. Eles poderiam estar com você, mas sempre estavam em outro lugar também.

Dentro de uma década, o que parecia estranho tornou-se o cotidiano de todos: smartphones compactos substituindo as ferramentas mais elaboradas dos cyborgs.

As pessoas amam as novas tecnologias de conexão. O alcance global da conectividade pode tornar o posto avançado mais isolado em um centro de aprendizagem e de atividade econômica. A palavra “apps” possibilita o prazer de realizar tarefas em dispositivos móveis.

Além de tudo isso, a conectividade oferece novas possibilidades para explorar a identidade, trazendo o sentido de um espaço livre. A vida real nem sempre oferece este tipo de espaço, mas a Internet o faz.

Quando parte de da vida é vivida em lugares virtuais desenvolve-se uma reação entre o que é verdadeiro e o que é “verdade aqui” – verdade simulada. Redes sociais fantasiam o que gostaríamos de ser. A carga emocional do ciberespaço ainda assim é grande. As pessoas falam sobre a vida digital como o “lugar de esperança”.

A autora usa seu próprio exemplo ao afirmar que não gostava de sentir-se “de plantão” o tempo todo, mas agora, com uma filha estudando no exterior, está grata por estar sempre conectada e se surpreende com sua compulsão, como checar seus emails na primeira e ultima atividade do dia.

Sempre ligados e agora sempre conosco, a net ensina-nos a precisar dela. Como os cyborgs do MIT, nós nos sentimos aprimorados. A robótica e a conectividade nos chama para uma tentativa de simbiose. Com robôs sociáveis ??estamos sozinhos, mas recebemos os sinais que nos dizem que estamos juntos. Há o risco de passarmos a ver os outros como objetos a serem acessados ?? apenas para as partes que achamos útil, reconfortante ou divertido.

Amarrados à rede, experimentamos um novo estado de si. Podemos nos isolar fisicamente e experimentar o físico e o virtual simultaneamente.

O novo estado do self: Thetering e ausência marcada

Hoje em dia, estar conectado não depende da distância e sim da tecnologia de comunicação disponível. Estar sozinho pode começar a parecer uma pré-condição para estar juntos. Neste contexto, um espaço público não é mais um espaço comum, mas um lugar de coletas sociais. Cada pessoa está amarrada a um dispositivo móvel que serve como um portal.

Quando as pessoas estão conversando via telefone em uma espaço público, o sentido de privacidade é sustentado pelo fato de que o outro não é anônimo e sim ausente. Por outro lado, quem está ao telefone também se considera ausente. O que é um “lugar”, se as pessoas que estão fisicamente presentes têm a sua atenção sobre a ausência?

As viagens sempre foram uma maneira de experimentar o novo. E hoje, quando viajamos, levamos nossa casa conosco. “A Internet é mais do que vinho velho em odres novos, agora podemos sempre estar em outro lugar”, coloca a autora.

Como muitos perderam o sentido de conexão física, a conectividade possibilita que as pessoas façamo seu próprio lugar. A robótica propõe substituições em que pode se ter companheirismo com conveniência.

Novo estado do self: da vida para a vida mix

Desde o início, as tecnologias de rede projetadas para compartilhar informações foram utilizadas como tecnologias de relacionamento. A Arpanet foi desenvolvido para que os cientistas pudessem colaborar em trabalhos de pesquisa, mas logo tornou-se um lugar para fofocar, paquerar e falar sobre os próprios filhos.

No curso de nossas vidas, nós não nos graduamos para trabalhar nossa identidade, nós simplesmente vamos nos transformando com os materiais que temos em mãos.  O mundo online nos oferece novos materiais. O Second Life, por exemplo, é um “lugar” virtual e não um jogo; não há vitória ou derrota, as pessoas apenas vivem.  Historicamente, não há nada de novo em jogar. Mas no passado, o jogo era dependente do deslocamento físico.  No ambiente online, os limites entre a vida e jogo são difíceis de se manter.

O desejo de encontrar maneiras de escapar de nós mesmos não é novo. A novidade é que a internet traz a possibilidade de manter as duas vidas simultaneamente – o que a autora chama de “mix life”. Passamos do estágio de multitarefa para multi vida.

Para entender o que é mix life precisamos entender a comunicação móvel. Até recentemente, a pessoa tinha que se sentar na frente de uma tela de computador para entrar no espaço virtual. Agora, com um dispositivo móvel, nos movemos para o virtual com fluidez e em movimento. Isso torna mais fácil utilizar-se de avatares para gerir as tensões da existência cotidiana. Nós usamos as redes sociais para ser “nós mesmos”, mas as nossas performances online assumem vida própria. Nossas vidas online desenvolvem personalidades distintas. A autora coloca o exemplo de cartões de visita que possuem nome, facebook e nome do avatar no Second Life. A autora coloca ainda o fato de hoje todos nós sermos “pausáveis”.

A etiqueta também mudou. Na época do papel, era inaceitável ler uma correspondência durante uma reunião. Hoje, é normal que se responda um telefonema ou um email.

As pessoas são hábeis em criar rituais para demarcar as fronteiras entre o mundo do trabalho, a família, momentos de brincar e relaxar. Há momentos especiais, refeições especiais, roupas especiais e lugares especiais. Agora as demarcações são borradas como a tecnologia, que nos acompanha em todos os lugares, o tempo todo.

O novo estado do self: multitarefa e a alquimia do tempo

Quando a mídia está sempre lá, esperando para ser desejada , as pessoas perdem o sentido da escolha de se comunicar. Os nossos dispositivos de rede incentivam uma nova noção de tempo, porque prometem a possibilidade de fazer mais atividades.

Estamos sobrecarregados através das gerações. Os adolescentes se queixam de que os pais não olham para cima com seus celulares no jantar e que eles trazem seus telefones para eventos esportivos escolares. Pais se queixam que não podem tirar férias sem levar seu escritório junto ou que seus empregadores exigem que eles estejam continuamente online, mas admitem que sua devoção a seus dispositivos de comunicação supera todas as expectativas profissionais.

Conectados, estamos apenas colocando nosso corpo em um lugar bonito enquanto trabalhamos.  As pessoas se transformaram em uma máquina para a comunicação, mas sem voz para nós mesmos.

Há um consentimento de que o mundo está cada vez mais complexo, mas nós criamos uma cultura de comunicação que diminuiu o tempo disponível para nós, para um pensamento ininterrupto. Como nos comunicamos de maneiras que pedem respostas quase instantâneas, não temos espaço suficiente para reflexão.

A autora coloca o exemplo de um grupo de advogados que afirma o trabalho ser impossível sem seus celulares. Eles insistem que são mais produtivos e que seus dispositivos móveis “libertam-nos” para trabalhar em casa e viajar com suas famílias. As mulheres, em particular, colocam que a vida em rede faz com que seja possível para eles manter seus empregos e passar tempo com seus filhos. No entanto, eles também dizem que seus dispositivos móveis corroem o seu tempo de pensar. Esta formulação contrasta com uma realidade cada vez maior da presença contínua de telas, já que os nossos dispositivos são cada vez mais interligados com o nosso senso de corpo e mente.  Eles oferecem um GPS social e psicológico. Os emails passaram a ser um problema, pois enviamos emails e as pessoas respondem. Uma carta de um amigo acaba sendo direcionada para o lixo.

Simetrias cheias de medo 

A vida conectada nos incentiva a tratar aqueles que encontramos online da mesma forma como tratamos os objetos. Isso acontece naturalmente: quando você está cercado por milhares de emails, textos e mensagens, com demandas muito maiores do que você pode responder, as demandas tornam-se despersonalizadas. Da mesma forma, quando escrevemos um twit ou escrevemos para centenas ou milhares de amigos do Facebook, como um grupo, tratamos os indivíduos como uma unidade. Amigos se tornam fãs. Um aluno afirma: “Eu sinto que faço parte de uma coisa maior, a internet. O mundo. Torna-se uma coisa para mim, uma coisa que eu faço parte. E as pessoas também, eu paro de vê-los como indivíduos. Eles fazem parte dessa coisa maior”.

Com robôs sociáveis??, imaginamos objetos como pessoas. É importante lembrar que, quando vemos os robôs como “vivos” para nós, estamos os promovendo. Já quando as pessoas deixam de serem vivas para serem máquinas para maximizar os emails e mensagens, estamos as rebaixando. Essas são as temerosas simetrias.

Precisamos olhar em especial aos adolescentes. Eles cresceram com robôs sociáveis ??como brinquedos. E eles cresceram em rede, ganhando celulares ainda muito novos. Suas histórias oferecem uma visão clara de como a tecnologia reformula a identidade porque a identidade é o centro da vida do adolescente. Através de seus olhos, vemos uma nova sensibilidade que se desdobra.

Atualmente, as normas culturais estão mudando rapidamente. Sempre em conexão, reconsideramos as virtudes de seres mais colaborativas. Estamos juntos, mesmo quando estamos sozinhos.

Os efeitos da rede sobre os jovens de hoje são paradoxais. Conectados, torna-se mais fácil jogar com a identidade, mas mais difícil de deixar o passado para trás, porque a Internet é para sempre. A rede facilita a separação, mas também inibe a independência. Muitas vezes são as crianças que pedem a seus pais para deixar o telefone celular no jantar. É o jovem que começa a falar sobre os problemas.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

More Posts

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.