Alone Together: Capítulo 13

Capítulo 13 – Anxiety

Nesse capítulo Turkle discorre um ponto importante ocasionado por essa representação do indivíduo nesses ambientes digitais: a ansiedade por respostas do outro, que podem vir de várias maneiras e dar várias pistas no entendimento do contexto, necessário para aqueles que criam representações de si. Embora a ansiedade seja reflexo desse momento atual, da comunicação que se dá em grande parte através dos dispositivos móveis, costumeiramente parece ser um ponto esquecido.

Existem muitos discursos que vão reiterar a capacidade de trabalhar envolvido em várias atividades ao mesmo tempo (multitarefa) pela computação pessoal. A cultura da conectividade está voltada a possibilidades e satisfação, mas também sobre os problemas e luxações da representação do indivíduo em diversas plataformas. A tecnologia ajuda-nos a gerenciar os estresses da vida, mas gera ansiedades próprias; essas duas questões estão muitas vezes intimamente ligadas.

Podemos mencionar o exemplo que Turkle traz sobre o uso do celular, que faz com que o indivíduo esteja sempre conectado com parentes e amigos, dessa maneira não interrompendo diálogos em processo apenas na co-presença física. Temos assim a sensação de que nunca estaremos sozinhos. Porém, algumas ansiedades podem surgir no medo de ser aceito pela rede social. O Facebook, por exemplo, pode ser comportar como uma praça em que devemos fazer o constante monitoramento daquilo que expressamos, nessa busca pela aceitação; ao mesmo tempo em que nos expressamos, também nos expomos para a análise das pessoas.

Nessa convivência nos ambientes digitais, os dispositivos móveis se apresentam como ferramentas importantes. A autora inclusive comenta que alguns a adolescentes acham mais fácil usar o celular para mandar mensagens; um dos principais motivos para o texting seria a possibilidade de usá-lo em mais situações do que as ligações, que necessitam de uma atenção focada para a conversação – enquanto que as mensagens podem ser enviadas simultaneamente a outras atividades. Essa possibilidade faz com que o uso do dispositivo seja constante, a todo momento.

Com o dispositivo sempre disponível e os usuários sempre conectados, podemos nos deparar com uma ansiedade oriunda justamente do medo de estar desconectado. Associado ao fato de se estar desconectado, existe também o medo da perda do contato num momento de emergência. Isto porque esses dispositivos, além de facilitar a comunicação, são também úteis para os pais dos adolescentes, ao criar uma sensação de poder entrar em contato em situações de emergência. Dessa forma, para se sentir seguro é necessário estar conectado. Considerando que a sociedade americana – alvo do estudo de Turkle – vive um constante temor por ações terroristas, os telefones se tornaram amuletos emblemáticos de segurança.

Para além da sensação de segurança contra possíveis crimes, há também uma sensação de segurança na própria descoberta da sexualidade. Turkle relata casos em que adolescentes praticam o tipo de paquera que ainda não é fácil para eles na co-presença física. A segurança do relacionamento com permite aos adolescentes explorarem o que pode ser gostar de ter um namorado e se entregar a uma paixão. Além da paquera, os adolescentes pensam que as amizades “on-line” os fariam se sentir mais no controle de sua vida social, pois eles poderiam estar on-line quando ela se sentisse na necessidade, mas também saltar para fora “e não se sentir mal” quando estão ocupados.

Porém, sensível a todos esses novos olhos sobre eles, os adolescentes sentem vítimas do que descrevem ser um esforço de todos os consumidores para manter as aparências. Por exemplo, o próprio ato de estar sempre postando já é uma ação que visa aparentar algo; nesse caso, para mostrar que você não é um “nerd”, alguém visto como anti-social ou com poucos amigos. Temos aqui envolvido uma busca por ser também popular nesses ambientes.

Essa busca pela popularidade envolve ter uma rede social obviamente com grande amplitude, com muitos contatos mútuos. Porém, redes muito grandes envolvem o risco relatado pelos adolescentes de ser vigiados, seguidos por esses contatos. Os adolescentes relatam o medo de ser “amigo” de parentes pois acham que esses últimos não seriam capazes de resistir à tentação de persegui-los. Trata-se de um prazer culpado, e uma fonte de ansiedade. Eles mesmo relatam que já perseguiram alguém nos sites de redes sociais, por diversos motivos: por um interesse afetivo em alguém especificamente, para saber quem é essa pessoa com vários amigos em comum. Um dos mecanismos para essa perseguição é ir atrás das fotos que as pessoas foram marcadas, como relatam os adolescentes.

Como se trata de uma prática corriqueira entre todos, a perseguição (stalking) é uma transgressão que não transgride. Alguns descrevem como normal, mas ainda assustador. Ademais, se pode parecer um crime caso você viole o correio da casa de alguém, invadir uma rede social de outra pessoa não é tratada da mesma forma. A exemplo dos sites que detêm informações, mensagens e conteúdos audiovisuais de milhões de pessoas, e não deixam claro o uso que farão disto.

A mídia tende a retratar jovens e adultos de hoje como de uma geração que já não se preocupa com a privacidade. Em adição a isto, Turkle relata ter encontrado jovens do ensino médio e estudantes universitários que realmente não entendem as regras de uso. O que parece grave, pois eles não compreendem os direitos conferidos a eles ao assinar os termos que o permitem fazer uso de algum site de rede social. A autora ouviu vários comentários de que esse público não teme o acesso das empresas às suas informações pois acham que não há nada importante no que postam, logo não se deve merecer tanta atenção assim. O maior temor seria justamente ficar impedido de se utilizar esses sites; ou seja, há a sensação de que eles estão te proporcionando várias oportunidades de compartilhar e entrar em contato com outras pessoas.

A geração Facebook está conectada com expectativas diferentes. Eles esperam que o Facebook ou a empresa sucessora estejam lá para sempre. Essa expectativa é um incentivo para os jovens “se comportarem”. Isto porque eles assumem certos temores principalmente pelas postagens antigas, no sentido de pessoas utilizarem posteriormente contra eles. Embora não tenham uma noção muito clara de quais coisas ruins podem acontecer, a ansiedade é real. Eles declaram ser terrível a captura de dados, pois suas palavras poderiam aparecer em qualquer lugar.

Por outro lado, se sentem mais seguros nas conversas escritas dos ambientes digitais do que naquelas em co-presença física, no diálogo com outras pessoas. Isto porque no primeiro caso eles podem, no ato de escrever, também formular de maneira melhor calculada, planejada. Eles sentem que a vida on-line é um espaço para a experimentação. Mas sabem que as mensagens eletrônicas são para sempre e que as faculdades e os potenciais empregadores têm maneiras de chegar em suas páginas do Facebook. Em contrapartida, existe também a crença de que a internet não é “para sempre”, assim como alguns adolescentes entendem que aquilo existente “na internet” deve permanecer “na internet”, não existindo uma sincronicidade entre a existência nos ambientes digitais e em ambientes de trabalho, familiar ou escolar.

A persistência das informações oriundas desses ambientes digitais é um temor assim como a persistência de pessoas. Se você foi amigo de alguém como uma criança de dez anos de idade, provavelmente você não será mais em um momento futuro. Em princípio, todo mundo pretende manter contato com as pessoas que já desenvolveram relações, mas a rede social faz com que a ideia de existir pessoas de seu passado se configure como um anacronismo. Isso gera um desconforto, como relatado pelos adolescentes; a exemplo de Corbin, ao dizer que “pela primeira vez, as pessoas vão ficar seus amigos. Isso torna mais difícil de deixar de ir a sua vida e seguir em frente.” O medo dessa permanência de dados e pessoas causa muita ansiedade. como se distanciar de um ex-namorado se ele continua seu amigo ou você possui vários contatos em comum?

Alguns dizem que esta questão não é importante; eles apontam que a privacidade é uma ideia historicamente nova. Isto é verdade. Mas, embora historicamente nova, a privacidade alocou nossas noções modernas de intimidade e democracia. Sem privacidade, as fronteiras da intimidade borram. E, claro, quando todas as informações são coletadas, todos podem ser transformados em um informante.

Quando eles falam sobre a Internet, os jovens fazem uma distinção entre o comportamento perturbador embaraçoso que serão perdoados e o comportamento político que pode trazer-lhe problemas. Para os estudantes secundaristas e universitários, perseguição e qualquer outra coisa que eles fazem uns com os outros caem na primeira categoria. Mas você não pode voltar atrás em um comportamento político, como a assinatura de uma petição ou participar de alguma ação política. Os jovens relatam que a Internet faz você pensar em ir para alguma manifestação um protesto ou algo assim, porém haverá tantas câmeras que depois não se é possível negar o envolvimento deles.

Turkle conclui o capítulo discutindo que ser visto significa que eles não são insignificantes ou sozinhos. Para todo um discurso de uma geração adaptada às redes digitais, qualquer discussão sobre privacidade online gera reclamações de resignação e impotência. Para a autora, numa democracia devemos começar com o pressuposto de que todo mundo tem algo a esconder; uma zona de ação privada e de reflexão que deve ser protegida, não importa o que os nossos tecno-entusiastas venham a discorrer.

Texto: Vítor Braga

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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