Alone Together – Capítulo 10

Capítulo 10: No need to call

Estar acessível e ao mesmo tempo protegido: esta é a dicotomia levantada pela autora no inicio deste capítulo. A comunicação mediada permitiria ter acesso a alguém, mas ao mesmo tempo o alivia de certas expectativas.

“A vantagem da comunicação ‘screen’ é que você está em um lugar para refletir, redigitar e editar”, diz Turkle. Nela você mesmo tem a chance de escrever  a persona eu quer ser e imaginar os outros como você deseja que eles sejam, construindo-os para seus propósitos.

Segundo Turkle, este hábito pode fazer um telefonema parecer assustador, porque ele revelaria muito.  Adolescentes e, também, adultos tem evitado a comunicação por voz pela exigência de atenção quando eles não querem dar.

Com as tecnologias de comunicação ‘screen’, o telefone passou a demandar uma urgência. A autora aponta para o surgimento de uma nova etiqueta sobre o uso da comunicação ‘screen’ para os diferentes tipos de relações sociais (por exemplo, utilizar o e-mail para contatos de trabalho e mensagens de SMS para conversar com amigos).

AUDREY: A LIFE ON THE SCREEN

Audrey é uma estudante de 16 anos muito tímida e por conta disso prefere conversar através de mensagens de texto. O telefone está sempre com ela e ela o vê como uma cola que reúne sua vida. Os pais de Audrey são divorciados e ela descreve  a sensação de ser utilizada por eles como uma mensagem instantânea.

Apesar de se sentir incomodada com a atenção dada pela mãe ao telefone celular, Audrey modera suas criticas por causa de seu próprio habito de enviar mensagens de texto quando está com seus amigos.

A autora destaca que nas mensagens de texto há muito mais limites para pessoa do que numa chamada por voz. Através do texto, a manutenção do controle é mais fácil. Terminar uma conversa de texto pode ser muito mais simples do que uma chamada.

A construção de um avatar online não é tão diferente de um perfil no Facebook; é comum que os dois tenham muito das experiências cotidianas da pessoa. Audrey diz que gostaria de ser mais como é online; sentir que a vida está em alta (otimizada). A questão é fazer uma “performance de você”.

Turkle pontua trechos da fala de Audrey em que ela se preocupa sobre como desenvolverá sua performance, já que tudo será arquivado em seu perfil, denominado por ela de “gêmeo da Internet”. Para Audrey, seus avatares online aumentam sua confiança na ‘vida real’ e a ‘vida online’ seria uma prática para fazer o resto de sua vida melhor, um prazer em si mesmo.

A ‘vida real’ ofereceria pouco espaço (livre de consequências) para o jogo de identidade, enquanto que a ‘vida online’ parece ampliar este espaço.

Turkle descreve um ambiente semelhante quando estamos numa viagem. Quando distante das pessoas que possam por sua reputação em risco podemos assumir um ‘avatar temporário’.

WHAT HAPPENS ON FACEBOOK, STAYS ON . . . ?

A identidade envolve um acordo entre todos os avatares (mundos, chats…) e o individuo fisico. Quando a identidade é múltipla desta forma, as pessoas se sentem “inteiras” não porque são ‘um’, mas porque as relações entre os aspectos do self são fluidos e indefesos (frágil). Sentimo-nos ‘nós’ quando podemos nos mover facilmente entre nossos muitos aspectos do self.

Turkle destaca que as redes sociais online salvam suas histórias, escolhas e como você se descreve, deste modo facilitam este fluir entre os múltiplos selves. Entretanto, a chamada “vida mix” é mais do que apenas a combinação de uma vida virtual com a física.

As atitudes tomadas têm reflexos no online e no físico; é aí que encontra-se o “vida mix”. Quando estes reflexos tem uma consequência negativa. Audrey os chama de “efeito de transbordamento”. A fim de evitar tais repercussões, Audrey adota a estratégia de sigilo; para elao que acontece na internet deve ficar na internet.

 O conjunto de regras de etiqueta de Audrey para saber como resolver as coisas nos diferentes mundos é confuso e complicado. Ela reconhece que muito de sua vida acontece online, mas que  algumas coisas ela quer que aconteçam face-a-face.

FINER DISTINCTIONS

Neste tópico, Turkle aborda as peculiaridades que diferenciam as mensagens instantâneas, as mensagens de texto, as chamadas telefônicas…

Em sua pesquisa com jovens, a autora percebe que na comunicação digital não há necessidade de uma mensagem. A comunicação é o lugar onde os sentimentos nascem e, por vezes, o indivíduo está lá para provocar este nascimento, ao invés de transmitir um pensamento.

Citando Marshall Mcluhan, Turkle argumenta que o meio é a mensagem e, portanto, a formalidade ou informalidade de uma mensagem instantânea dependerá do meio onde ela foi produzida.

A discussão retorna a questões relacionadas à espontaneidade demonstrada em mensagens de texto, mesmo quando elas foram editadas, e à aversão de muitos jovens ao uso das chamadas telefônicas. Muitos jovens têm consciência que quando adultos terão que ‘aprender’ a utilizar as chamadas.

OVERWHELMED ACROSS THE GENERATIONS

Os adolescentes estudados por Turkle são entendidos como ‘nativos digitais’. Entretanto, seus pais já vieram a ‘vida online’ adultos. As duas gerações compartilham o sentimento de sobrecarga (estresse). Os adolescentes sofrem com as cobranças quanto as suas performances acadêmica e sexual, enquanto seus pais alegam tentar administrar as exigências sociais cotidianas (trabalho, família, amigos).

A fim de exercer maior controle sobre o que os atinge, os pais mantêm a maioria das suas comunicações online ou baseada em texto. Deste modo eles estão sempre de plantão, prontos para serem chamados pela família, amigos ou colegas.

O fluxo constante de chamadas torna quase impossível encontrar momentos de solidão. Na solidão buscam um espaço para seus próprios pensamentos. Neste contexto, estão sempre buscando uma razão para não estar disponíveis para chamadas e, assim, a comunicação se converge cada vez mais aos textos.

Para Turkle, os jovens preferem lidar com as emoções intensas protegidos pelas telas e, deste modo, demonstram-se vulneráveis a tais sentimentos.

VOICES

Turkle traça a trajetória de remoção da voz de boa parte da comunicação mediada. A sensação de intrusão causada pelo telefonema, o conforto da assincronia dos e-mails ou o surgimento de app de mensagens estimularam essa remoção.

Uma nova etiqueta sobre as chamadas ou mensagens de voz se instituía e a voz acabou sendo retirada porque a comunicação por texto seria mais rápido. Outro aspecto ressaltado é que nos textos você pode apresentar-se como desejar ser visto e ocultar partes que não quer mostrar.

Turkle conclui o capítulo falando que a Net oferece novos tipos de espaços. Alguns destes lugares são para “ser você mesmo”, outros são lugares onde se constroi avatares a fim de explorar aspectos de si mesmo. Numa cultura de simulação nos tornamos ciborgues e pode ser difícil retornar a algo menos (mais simples; algo menos que todas as simulações).

Texto: Karla Freitas

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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