Algumas considerações sobre a circulação de boatos online

A circulação de boatos é bastante comum em sites de redes sociais (SRS). Cartas enviadas por idosos a presidenta clamando por um país melhor, dados fantasiosos sobre o bolsa família, fantasmas fotografados em estádios, Michael Jackson vivo e participando de um programa de auditório são exemplos de rumores que circularam amplamente pelo Facebook nessa última semana. Enquanto alguns desses rumores parecem ser inofensivos, piadas, casos e lendas urbanas, outros tentam desestabilizar governos, atingir a reputação de pessoas públicas e até mesmo incentivam práticas criminosas.

O recente linchamento de Fabiane Maria de Jesus no Guarujá (SP)  se destaca, entre outras coisas, pela forma com a qual um rumor iniciado em um SRS ganhou imensa proporção até culminar no assassinato de uma pessoa inocente. Para quem não acompanhou o caso,  um retrato falado divulgado pela Policia Civil do Rio de Janeiro em 2012, relacionado a uma tentativa de seqüestro de um bebê,  foi republicado em 2014 em um novo contexto e com uma nova versão: a tal mulher não havia apenas tentado raptar um bebê no Rio de Janeiro, mas sim, teria sequestrado “mais ou menos 37 crianças para fazer magia negra pela redondeza”.

Ao observamos o texto da publicação de 2014 percebemos  além de o caso se concretizar (deixa de ser uma tentativa para ser uma captura efetiva de 37 crianças) ele opera a partir de um preconceito bastante arraigado na sociedade brasileira contra algumas religiões, sobretudo candomblé e umbanda. Visto que historicamente o termo “magia negra” vem sido utilizado para difamar e perseguir práticas religiosas e indivíduos que não se encaixam no padrão cristão hegemônico. O fato de o local de ação ter sido omitido e substituído pela vaga expressão “pela redondeza” também contribui de forma efetiva para a propagação do boato e do pânico geral em torno do tema. Não por acaso, tal rumor se espalhou por diversas regiões do Brasil, tendo sido compartilhado em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.  Em todos esses Estados o rumor foi alimentado e difundido com base no perigo em que as crianças da vizinhança estavam correndo já que a seqüestradora estava próxima a todos.

No Guarujá o boato adquiriu força e ganhou ares de verdade ao ser publicado pela fanpage local “Guarujá Alerta” no qual  foi curtida, comentada e compartilhada inúmeras vezes.  Por ser considerada parecida com a imagem mostrada no retrato falado e por ter tido um gesto considerado suspeito: ofereceu uma fruta a uma criança, Fabiane acabou sendo atacada por seus vizinhos, foi espancada e morta na porta de casa. Esse pequeno texto não tem o objetivo de discutir a prática do linchamento em si, por isso não me aterei aos detalhes nem problematizarei a ação dos linchadores aqui nesse momento.  Isso exige um outro tipo de reflexão que talvez apareça aqui no site uma outra hora, por enquanto me deterei na questão do rumor.

Em sua dissertação de mestrado Danielle Sandri Reule (2008) define o rumor como um tipo de informação que se propaga em rede e que circula com a intenção de ser tomada como verdadeira.  Ao se debruçar sobre o fenômeno na internet, a autora chama atenção para como as especificidades do ambiente potencializam a propagação de informações falsas, sobretudo pela velocidade de difusão dos conteúdos e pelo alcance de inúmeros indivíduos. Para Reule (2008) a sociabilidade em espaços online pressupõe um grau de confiabilidade entre os indivíduos “presentes”. Sendo assim, o que se tem em um processo de rumor é uma ação humana, que colocado em um ambiente virtual de coletividade toma proporções maiores, ganha força e credibilidade em torno da rede.

Ao observarmos os boatos circulados em sites de redes sociais percebemos que eles possuem algumas características em comum: não são datados, são imprecisos o suficiente para que possam ser usados em diversas situações e contextos, costumam ser cíclicos – aparecem e somem diversas vezes na rede e são costumeiramente  compostos por conteúdos com forte apelo emocional, tal como indignação, raiva tristeza e revolta.

Hatfield, Cacioppo , & Rapson (1994) falam sobre uma forma particular de contágio, o contágio emocional que envolve a convergência do estado emocional de um individuo com o estado emocional das pessoas que o estão observando ou interagindo. Se considerarmos a interação em ambientes online podemos pensar que conteúdos são constantemente compartilhados devido a emoção presente neles. Uma imagem carregada de um tom emocional de “revolta”, “clamor de justiça” ou “desejo de punição”, como no caso de Fabiane, acabaria assim contagiando emocionalmente outras pessoas e com isso, tendo uma maior chance de ser compartilhada e difundida através da rede. Conteúdos considerados mais neutros ou amenos, por outro lado, teriam seu potencial de contágio emocional bastante diminuído e com isso seu poder de circulação também cairia. Isso nos ajuda a pensar como conteúdos violentos circulam amplamente online e encontram ressonância em diversos grupos – o apelo emocional seria um dos fatores decisivos.

Um outro fator que complexifica a circulação de rumores em ambientes online é o próprio processo de filtragem de informações. Se cada usuário é livre para compartilhar e passar adiante aquilo que lhe convém, sem nenhum compromisso com apuração dos fatos, a quantidade de informação falsa circulada acaba se tornando maior. Por isso é preciso estamos mais atentos as informações que compartilhamos com nossa rede a fim de que os danos sociais da ampla circulação de rumores sejam minimizados.

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

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