Adolescênci@s conectadas

Um tema atualmente debatido em muitos países é a intensidade do uso da Internet por adolescentes e jovens. No Brasil esta realidade também é marcante quando observamos os dados da última pesquisa TIC Kids Online 2013 realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br). Se na pesquisa TIC Domicílios 2013 fica evidente que os adolescentes e jovens são os mais conectados (85% entre 10 e 15 anos e 87% dos entre 16-24, em relação a 58% na média nacional), a pesquisa TIC Kids Online permite conhecer um pouco mais dos hábitos de navegação. Com os mais rigorosos cuidados estatísticos, esta pesquisa de amostra nacional entrevistou crianças e adolescentes, bem como seus pais, para conhecer alguns detalhes sobre o uso da Internet pelos brasileiros entre 9 e 17 anos de idade. Reproduzo abaixo alguns dados da pesquisa e algumas reflexões que podemos fazer sobre a apropriação da Internet nestas importantes fases da vida que são a infância e a adolescência. Como em tantas outras temáticas, a diversidade de realidades dentro do Brasil não passam desapercebidas e exigem um olhar cuidadoso de todos nós que aproveitamos estes dados para estudar as implicações do uso cotidiano das tecnologias digitais nas interações.

Dispositivos TIC Kids 2013

Apesar de o acesso já ser uma realidade para a maioria das crianças e adolescentes brasileiros, não podemos desprezar que os dados também nos indicam alguns sinais das desigualdades nas apropriações, principalmente de acordo com a renda familiar e a região do país. Um dos dados que mais chama a atenção é a mobilidade. O uso da Internet pelo celular saltou enormemente de 2012 (21%) para 2013 (53%). Observando os dados com mais detalhe percebemos que há uma intensificação importante a partir dos 13 anos, sendo que entre os entrevistados de 15-17 anos, 65% usam a Internet pelo celular. Apesar de a proporção ser maior (63 %) entre os adolescentes de famílias com renda mais alta (mais de 3 SM) , a diferença não é tão radical quando observamos 52% entre as famílias com renda de até 1 SM. A diferença de gênero também não é tão expressiva já que 51 % das entrevistadas e 54 % dos entrevistados se conectam usando seus celulares. No que diz respeito aos aparelhos usados para acesso à rede das redes, as maiores diferenças econômicas se mostram no acesso pela Televisão e pelos consoles de vídeo game. O aumento na proporção geral de acesso é interessante do ponto de vista da chamada inclusão digital, mas sabemos que o simples acesso não é nem sinônimo de igualdade de direitos e nem tampouco de oportunidades. Olhando os recortes for renda familiar e região do país podemos observar variações relevantes.

Entre os que usam a Internet pelo celular é notável a diferença regional no tipo de conexão, havendo menor oportunidade de acesso via Wi-fi nas regiões Nordeste, Centro-oeste e Norte. Enquanto 72 % das crianças e adolescentes entrevistados no Sudeste afirmam usar redes Wi-fi para conexão via celular, apenas 28 % o faz no Nordeste. Quando consideramos a renda familiar, as desigualdades são ainda mais brutais: apenas 15 % dos que possuem renda familiar até 1 SM acessam via Wi-fi enquanto 73 % com renda familiar acima de 3 SM o fazem. Nas famílias com menor renda o uso depende muito mais dos pacotes de dados, o que pode implicar em diferentes tipos de limitações tanto na velocidade e no volume de dados, já que reconhecidamente os preços são elevados e a qualidade nem sempre permite usufruir de todos os tipos de recursos disponíveis na rede. Este que parece um dado óbvio merece atenção pois as práticas cotidianas e as formas de apropriação tanto da Internet quanto do dispositivo celular podem variar imensamente nestas diferentes configurações. Outro dado que não foi detalhado nesta pesquisa mas merece especial atenção é o tipo de aparelho usado. O tamanho e tipo de teclado e de tela, bem como o tipo de tecnologia do modem são fatores técnicos que implicam limitações aos usos. Além da maior ou menor disponibilidade técnica, o aparelho de celular é também um precioso símbolo de status para o jogo de distinção social especialmente intenso na adolescência. O fato de usarmos a Internet através de aplicativos ou de navegadores também precisa ser detalhado pois podemos supor que os usos são bastante diferentes nas duas condições, além de precisarmos discernir entre os diversos tipos de aplicativos.

Voltando aos dados, ainda em relação aos locais de acesso, é interessante notar que as diferenças de renda se tornam menos expressivas quando comparamos o acesso pelo celular com o acesso em um quarto da casa. Acessar à Internet de um quarto na casa é realidade para 75 % nas famílias com 3 ou mais SM e para 43 % nas com renda de até 1 SM. No que diz respeito ao acesso em qualquer lugar, pelo celular, a diferença é menos expressiva, sendo a proporção de 46 % e 30 % respectivamente.

A idade do primeiro acesso nos parece relevante quando pensamos nos valores e na concepção das regras para apropriação dos dispositivos e recursos tecnológicos. Novamente as diferenças econômicas são expressivas quando percebemos que entre os adolescentes e crianças de famílias de até 1 SM, 28 % teve o primeiro acesso com mais de 12 anos, o que ocorre apenas com 7 % das mais favorecidas economicamente (acima de 3 SM), sendo a média nacional 18 %. A frequência de acesso também muda significativamente conforme muda a renda familiar. O acesso diário é comum para 81% nas famílias com mais de 3 SM e apenas para 39 % nas de até 1 SM, sendo a média nacional de 63%.

TIC Kids 2013_Local acesso

Com relação ao uso dos Sites de Redes Sociais como Facebook, é evidente o aumento conforme aumenta a idade, mas notável o fato de 58 % dos entrevistados entre 9-10 anos já se apropriarem destes serviços. Entre os adolescentes mais velhos (15-17 anos), 93% está em algum SRS, seguido pelos de idade entre 13-14 anos (84%). Apesar de o uso das redes sociais ser muito intenso em todas as faixas de renda familiar, percebemos diferenças importantes em relação às atividades mais relacionadas ao engajamento do usuário como produtor de conteúdos e não apenas consumidor. Mesmo no consumo há diferenças expressivas já que apenas 41 % dos com renda familiar menor (até 1 SM) acessaram canais de vídeo como o Youtube enquanto exatamente o dobro desta proporção (82%) o faz entre os com renda familiar superior à 3 SM (82%). O fato de possuir uma conta e mesmo de acessar todos os dias os SRS não permite muitas generalizações sobre as apropriações já que o repertório sócio-cultural de cada usuário é hiper complexo e variado. Em geral, percebemos o que pesquisas internacionais como a EU Kids Online apontam como escada de oportunidades. Nos primeiros degraus estão as atividades de consumo de conteúdo e os SRS, seguidos pelas atividades mais participativas como produção e compartilhamento de vídeos, músicas, desenhos, blogs e jogos em rede. Em todas as faixas de renda a proporção vai diminuindo gradativamente, conforme as atividades exigem maior produção e engajamento. Este dado é bastante curioso, apesar de apenas com estudos qualitativos podermos aprofundar a compreensão sobre o que exatamente os adolescentes estão fazendo nos SRS, já que neles também é tecnicamente possível práticas bastante complexas e engajadas de produção de conteúdos.

68% dos adolescentes entre 13-14 anos acessam aos Sites de Redes Sociais todos os dias e 65% entre 15-17 anos. Podemos perceber novamente variações de acordo com a renda da família. Enquanto nas famílias com até 1 SM apenas 48% acessam todos os dias, a proporção sobre para 81% entre os mais favorecidos (mais de 3 SM). A desigualdade também é evidente quando observamos a proporção de adolescentes que afirmaram não usar nenhum Site de Rede Social: 25% e 7% respectivamente.

Com relação aos hábitos de uso e habilidades na configuração da privacidade, a pesquisa aponta diferenças regionais interessantes. No Nordeste encontramos 46% dos usuários adolescentes que deixam seus perfis totalmente públicos e apenas 16% privado. Embora próximos da média nacional de perfis públicos (42%), a proporção de perfis privados no Nordeste é metade da nacional (32%). Os indicadores apontam ainda que as crianças e adolescentes do sexo masculino usam menos o recurso de perfil privado (20%) em relação às meninas (40%). As desigualdades de uso de acordo com a renda da família também se reproduzem nas habilidades para configurar a privacidade dos perfis e na mediação dos pais:

Tabela diferenças Renda Familiar Tic Kids Online 2013

Tabela própria criada a partir dos dados públicos da pesquisa (não oficial).

Este pequeno fragmento dos dados da pesquisa já podem inspirar muitas discussões e certamente dezenas de estudos qualitativos para que possamos conhecer melhor a diversidade de adolescências e infâncias digitais que nosso país possuí. Na pesquisa que estou desenvolvendo sobre o manejo das informações privadas dos adolescentes nos SRS, várias indagações podem ser levantadas. Se consideramos que a privacidade é antes de tudo a negociação sobre os limites do o que, para quem, onde e quando queremos compartilhar as informações sobre nós mesmos e sobre o que consideramos nosso, a nossa capacidade de conhecer e manejar as regras dos compartilhamentos é um fator importante. Como aponta Petronio (2002) na sua Teoria do Gerenciamento Comunicacional da Privacidade, as informações privadas não são exclusivamente sobre si (exposição de si – self-disclosure), mas envolvem também informações que temos sobre os outros e sobre as organizações. Gerenciar a privacidade exige a construção e negociação de regras para coordenação dos limites e usos disso que passa ser co-propriedade e não apenas propriedade. Um dos fatores relevantes para definição destas regras é o conjunto de valores orientadores que ensinamos e aprendemos na infância, seja através da família, da escola e do contexto no qual estabelecemos nossas relações sociais.

Ao mesmo tempo que os SRS, como públicos em rede (networked publics), apresentam novas condições (persistência, replicabilidade, buscabilidade e escalabilidade) e contextos colapsados (boyd, 2011), nos parece vital observar com cuidado as singularidades nas apropriações que adolescentes de diferentes níveis econômicos fazem destes ambientes e como definem os limites do que consideram privado. Se concordamos que a privacidade está mais relacionada à capacidade de coordenação destes limites e sobre as negociações nos usos das informações que consideramos privadas, é interessante notar que em cada realidade sócio-cultural podemos ter diferentes delimitações. A questão seria menos de conteúdo do que de contexto e formas de uso do conteúdo. Uma foto íntima exposta voluntariamente, por exemplo, pode ser um fator de reconhecimento social e auto-afirmação em um contexto ou gerar exclusão, discriminação e humilhações em outro. O mesmo para a exposição de bens materiais de valor e tantas outros tipos de conteúdo.

Desde a primeira infância ensinamos às nossas crianças valores orientadores sobre os limites. Mesmo que as mudanças técnicas trazidas pela Internet sejam compartilhadas por todos os usuários, não temos dúvida de que as apropriações e (re)arranjos que os adolescentes fazem destes ambientes é consideravelmente influenciado pelos valores que aprenderam ou desenvolveram em suas relações interpessoais na família, no bairro, nas escola e com a galera. Não podemos tampouco negar que a própria dinâmica dos ambientes digitais vem provocando mudanças nas formas como todos nós, adultos inclusive, criamos e negociamos as regras que definem a extensão dos limites de visibilidade e compartilhamento das informações que consideramos privadas. Com tantas mudanças simultaneamente, não é fácil discernir as causas, mas talvez os efeitos possam ser analisados. Estudos qualitativos que ouçam diretamente aos adolescentes e suas considerações sobre suas próprias estratégias de negociação destes limites poderão nos dar pistas sobre estas transformações em curso, e provavelmente indicar algumas singularidades que os dados estatísticos não podem nem pretendem captar.
Sem dúvida esta excelente pesquisa do CETIC.br nos inspira a fazer novas pesquisas que permitam observar em detalhes as mudanças que as tecnologias tem provocado, bem como as mudanças que provocamos nas próprias tecnologias ao contextualizarmos seus usos em nossa diversidade sócio-cultural. O Brasil já possui uma das maiores populações de internautas do mundo, gerando uma diversidade de riscos e oportunidades que não pode ser considerada a parte das demais rotinas interacionais dos brasileiros. Efetivamente uma cultura híbrida bastante rica e interessante para pesquisadores do mundo todo.

Pesquisa completa TIC Kids Online 2013 e 2012

Referências

  • boyd, D, Marwick, A. (2011). Social Privacy in Networked Publics: Teens’ Attitudes, Practices, and Strategies. Paper presented at the Oxford Internet Institute Decade in Internet Time Symposium, September 22.
  • Jourard, S. M. (1966). Some psychological aspects of privacy. Law and Contemporary Problems, 3J, 307-318.
  • Petronio, S. (2002). Boundaries of privacy: dialectics of disclosure. Albany: State University of New York Press.
  • Sevcenko, N. (1998). História da vida privada no Brasil Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

More Posts

Deixe um comentário