A Web que perdemos

Em uma apresentação no Berkman Center for Internet & Society da Universidade de Harvard, Anil Dash faz um breve percurso sobre algumas mudanças importantes que ocorreram na última década na Web. Em sua argumentação, Dash relaciona como algumas inovações recentes na dinâmica da web social tendem a enclausurar os usuários em redes pré-definidas e limitar a diversidade de conteúdos no próprio design dos sites e aplicativos. Em suas reflexões, chama atenção a interessante analogia feita entre o atual cenário da web social e os Espaços Públicos de Propriedade privada (Privately-Owned Public Spaces). Estes espaços públicos de propriedade privada foram estabelecidos no início dos anos 60 em Nova Iorque como compensação às novas construções acima do tamanho pré-determinados pelas leis de ordenamento e ocupação do solo naquela cidade. Nestes espaços, apesar de haver liberdade de acesso do público, as regras e a propriedade, bem como a gestão são privadas.

Dash aponta como os sites de redes sociais e aplicativos mais usados na web hoje reproduzem parcialmente esta “privatização” de espaços que se imaginavam públicos. Sem pretender aqui refletir sobre singularidade dos ambientes digitais em relação à outros espaços sociais, vale refletir sobre o processo de gestão e ocupação destes espaços, especialmente da web como espaço aberto. A integração gradativa de serviços de busca, sites de redes sociais, gerenciadores de email e aplicativos em plataformas prioritariamente voltadas para maximizar os anúncios publicitários sacrificam cada vez mais a web idealizada como proposta livre, aberta e diversificada.

O vídeo da apresentação de Dash está disponível e alguns posts seguem o debate sobre o que estamos perdendo com a atual dinâmica da web centralizada nos feeds verticais de atualizações e em plataformas que restringem os “escapes”, como nos espaços públicos de propriedade privada que delimitam em suas regras, quais esportes são permitidos. A gestão privada e restritiva dos aplicativos e sites de redes sociais tem se tornado cada vez mais hegemônica ao ponte de servir de base para formulação das políticas públicas de governança da Internet, como no caso de SOPA, PIPA, COPPA. Os termos de uso dos serviços passam a gerir adinâmica da web como um topo, ampliando a perspectiva privada aos demais espaços públicos que, mesmo em extinção, ainda existem na web.

Como muitos novos usuários da Internet não conhecem exatamente o histórico das evoluções recentes, parece vital que problematizemos as perspectivas hegemônicas para não naturalizar o que temos hoje e inibir as inovações que permitam desvios e caminhos não convencionais de uso das tecnologias.

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Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutorando em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Atualmente é psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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