A Situação Social em tempos de Mobilidade

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Em Technosocial Situations: Emergent Structuring of Mobile E-mail Use (2005), os pesquisadores Mizuko Ito e Daisuke Okabe observaram como os dispositivos móveis podem atuar como gatilhos para a ressignificação de determinadas situações sociais (ou situações de interação). Estas situações são entendidas aqui, a grosso modo, como diferentes momentos da vida cotidiana, nos quais participamos de um contexto interacional e, com base nele, construímos performances (ações) diante de outros participantes.

Com a presença e o uso cada vez mais intenso dos dispositivos móveis e aplicações integradas à Internet, tais como Sites de Redes Sociais, Instant Messengers (IMs), Sites de Streaming, apps de Geolocalização, entre outros, Ito e Okabe identificaram, através de dados empíricos, três tipos de situações que emergem da interface entre Sociabilidade e Tecnologias Móveis – as quais denominam como Situações Tecnosociais. São elas:

1) Co-presença virtual 

A Co-presença virtual, segundo apontam os pesquisadores, pode ser avaliada com base em um fenômeno comum na atualidade, o qual denominam como Comunidade Íntima em Tempo Integral. Esse tipo de situação fica evidente em pesquisas baseadas em interações via Instant Messengers, ao verificar o quanto e com quem as pessoas mais interagem. Os laços fortes, como a família, os amigos, os colegas do trabalho figuram entre os contatos mais constantes nas interações realizadas nestes ambientes, com trocas de mensagens realizadas em diferentes lugares e momentos do dia a dia. Essa comunidade “levada no bolso” seria um ponto de reflexão para repensarmos o próprio conceito do que  é estar presente para o outro na atualidade.

2) Encontros físicos aumentados

Em relação às experiências vivenciadas nos encontros físicos, segundo comentam Ito e Okabe, hoje seriam ampliadas através do uso dos dispositivos móveis: que introduzem funções de conversação, coordenação e convergência no espaço-tempo através da troca de mensagens (texto, fotos, vídeos, áudios) e posicionamentos geolocalizados; atenuam a quebra de expectativas sociais, em casos, por exemplo, de atrasos (uma vez que os usuários justifiquem previamente a ausência por meio das interações mediadas); também servem como formas de registros e prolongamentos de tópicos conversacionais – fazendo com que a experiência do encontro físico continue por meio de outros ambientes interacionais (desta vez digitais).

3) Conversação Móvel

Por fim, temos a Conversação Móvelenquanto um comportamento identificado, principalmente, entre os jovens heavy-users de celulares (segundo os dados da pesquisa de Ito/Okabe). O fenômeno, presente no cotidiano, demonstra, por exemplo, como os momentos de ócio ou de ausência podem ser preenchidos por conversações perpétuas por meio da troca de textos (majoritariamente), áudios e imagens com a comunidade íntima – proporcionando a sensação de uma co-presença constante dos interlocutores.

De um modo geral, pesquisas como esta, de Ito e Okabe, trazem uma grande contribuição para o campo da comunicação e tecnologia, ampliando reflexões sobre o tensionamento que as mediações podem gerar na forma como significamos o que é estar presente em um espaço físico e/ou social e quais são as consequências destas formas de presença.

Apontamos aqui uma oportunidade para estudos que buscam demonstrar como a introdução de elementos tecnológicos em determinados contextos sociais podem acarretar em rupturas/continuidades que são traduzidas nas ações realizadas e esperadas pelos indivíduos envolvidos nas situações de interação. A observação das associações entre o contexto social, os indivíduos envolvidos na interação e as tecnologias utilizadas para a mediação podem ser encarados aqui como uma porta de entrada para compreender, de uma forma mais ampla, como lidamos com questões como a percepção do tempo e do espaço, a noção de espaço público e privado e a sensação de presença física e/ou mediada.

 

 

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Cofundador da agência COM Inteligência Digital.

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