A Representação do Eu nos Sites de Redes Sociais

O seguinte post traz algumas reflexões propostas por Javier Serrano-Puche em seu artigo “La presentación de la persona em las redes sociales: uma aproximación desde la obra de Erving Goffman(2012). Nele, Javier explora como se dá a representação do “Eu” em Sites de Redes Sociais a partir das premissas apresentadas pelo sociólogo Erving Goffman em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” de 1959. O grande desafio do autor em seu texto é demonstrar como a perspectiva dramaturgica abordada por Goffman nas interações sociais face a face pode ser alargada para a observação e a avaliação de interações sociais mediadas por tecnologias digitais.

Javier levanta que, nestes meios digitais, haveria a possibilidade de um maior controle e rapidez na construção da fachada, possibilitando, deste modo, a existência de múltiplas fachadas simultâneas em diferentes espaços interacionais. Intencionalmente ou não, pode ser difícil construir uma consistência na representação do eu nesta multiplicidade de contextos. Segundo o autor, para fazer esta aproximação entre a comunicaçã mediada por tecnologias e a teoria de Goffman, faz-se necessário compreender os quatro elementos-chave do modelo de interação social do sociólogo:

1) A dicotomia das expressões controladas e das expressões involuntárias que o ator projeta em sua representação para os outros
2) A tendência habitual que o ator tem de representar uma versão idealizada de seu eu
3) A dupla dimensão espacial que tem o lugar na atuação (cenários e bastidores).
4) Desvios e situações que podem pesar na representação do ator.

Ao longo do texto, Javier aborda aspectos importantes do Gerenciamento de Impressões e aproxima este conceito de práticas contemporâneas. Entre estes aspectos, estão: a relação entre expressão controlada e a expressão involuntária nas interações; a idealização da atuação; a construção de cenários e bastidores (que irão contribuir na definição da situação social); além de especificidades presentes nas interações, tais como a dramatização, a distorção e a mistificação.

a) Dramatização: – segundo Javier, o ator realiza sua atuação diante de uma audiência de forma que fique clara a importância de sua atuação para o público. No ambiente online, as representações dramáticas seriam mais frequentes nos Sites de Redes Sociais de caráter profissional ou para em mídias de encontro (dating sites), nos quais as interações tendem a ter objetivos e interesses mais definidos e os usuários tentam imprimir uma perspectiva positiva em seus personagens.

b) Distorção: é uma representação que não é ‘verdadeira’. O ator é um impostor que se expressa de acordo com a realidade. É o caso de usuários que representam uma falsa fachada através de fingimentos, fraudes etc. A distorção pode ser produzida através das expressões ‘não verdadeiras’ sobre a identidade do ator. No caso da fotografia, por exemplo, ao ser substituída por outra imagem resulta em uma percepção de que o usuário deseja ocultar elementos importantes de sua identidade. Cita, então, a proliferação de contas falsas no Twitter de pessoas famosas, ações de cyberbullying e os perigos da conversa com audiência da corporeidade.

c) Mistificação: Pode ocorrer na representação do eu, de modo que o indivíduo aparece com qualidades excepcionais, acima de outros atores normais. Implica no estabelecimento de uma distância social entre o ator e sua audiência. Isso pode ser produzido com base na fachada pessoal que o ator apresenta (títulos, cargo, méritos, informações do perfil) que influenciam em sua percepção como líder de opinião ou guru, bem como elementos implícitos como o índice Klout etc. É habitual no Facebook e no Twitter por parte das celebridades mostrarem detalhes de sua vida cotidiana, anedotas domésticas etc. servindo como aproximação do seu público, cortando, assim, a distância que se media entre ambos no mundo presencial.

Javier conclui que as propostas de Goffman em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” também pode ser aplicadas nos estudos das interações medidas por tecnologias e, especificamente, naquelas que são ancoradas na Web 2.0.As particularidades dos meios digitais potencializam a capacidade do usuário de construir e representar um personagem, de apresentar sua identidade de maneira controlada e seletiva, a fim de oferecer uma versão idealizada de si mesmo.O fato de não ocorrer face a face, sem interpelações (em muitos casos) simultâneas (síncronas), traz uma singularidade para a comunicação mediada por tecnologias.

Os indivíduos podem gerenciar relações mais descompromissadas, fugindo de conflitos e embaraços dos vínculos afetivos estabelecidos em relações presenciais. É um modo de ser solitário estando em companhia (Turkle). Ao mesmo tempo, como abordam outros autores como (Lampe, Ellison, Steinfield, Hampton) as interações digitais reforçam em grande parte os laços sociais previamente criados em um mundo presencial. Em qualquer desses casos, a interação é resultado de um jogo entre a expressão e interpretação dos outros e suas pretensões representativas – seja porque conhece aquela pessoa fora dos Sites de Redes Sociais e corresponde com sua identidade “real”, seja porque percebe facetas indenitárias dissonantes e involuntárias em sua dramaturgia vital.

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Sócio da PaperCliQ - Comunicação e Estratégia Digital.

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