A representação do Eu no ambiente digital

Texto por Thianne Luz

Imagem por Javi_indy / Freepik

Você costuma seguir blogueiras e influenciadoras digitais de moda no Instagram? Curte as dicas de marcas de roupas, de viagens, de serviços estéticos, os looks do dia, as fotos muito bem enquadradas e a vida glamorosa? Já parou para pensar se tudo aquilo que é exposto ali corresponde mesmo à vida cotidiana daquelas pessoas? Então esse texto pode te ajudar a refletir um pouco sobre isso.

Inicialmente com os blogs de moda, foi permitida a democratização da informação de moda através de linguagem mais acessível, informal e dinâmica. Eles se popularizaram e alcançaram os mais diversos públicos, e não é necessária formação ou conhecimento formal para publicar na internet sobre o que se gosta e pensa sobre moda. Pode-se dizer também que a moda, como comportamento sociocultural, perdeu consideravelmente a conotação de frivolidade ou de vaidade em excesso e ganhou validação social como tema relevante, com potencial de mudança social. E, na contemporaneidade, informações de moda têm maior alcance na internet, através de sites e das redes sociais, do que antigamente através apenas das mídias impressas.

As influenciadoras digitais de moda podem ser consideras uma espécie de curadoras de conteúdo, pois são muitas informações sobre o tema que circulam na internet sobre moda, de maneira geral, e as elas então selecionam o que lhes interessam e/ou acreditam que seja interessante para seu público de seguidores. Isso ocorre porque sabendo da presença do outro, a representação torna-se significativa no que se promete, pois entende-se que a audiência tem exigências e expectativas ao observar o desempenho de determinado papel.

Uma influenciadora digital de moda é alguém que conseguiu legitimar seu conhecimento, afinidades e sua experiência na área de moda, mesmo que não tenha tido formação formal ou profissional para isso; foi algo construído no dia a dia, curtida por curtida, comentário por comentário. E para chegar longe e sustentar a imagem conquistada, as pessoas precisam demonstrar coerência e consistência sobre o que é exposto sobre si. Para ajudar na nossa reflexão utilizaremos a teoria da representação do eu e a metáfora dramatúrgica encontrada em Goffman (2009).

Definida como um processo contínuo de gerenciamento de informações que são expressas sobre si, informações estas dadas voluntariamente ou emitidas involuntariamente, a representação do eu é um fenômeno presente na nossa vida o tempo inteiro. Goffman (2009) revela que essas expressões emitidas são contextuais, geralmente não verbais e não intencionais. As expressões emitidas conscientemente são mais fáceis de manipular, há um jogo de controle sobre o que revelar ou não, e Goffman denomina isso de performance. É possível notar que nos ambientes digitais, como em blogs e redes sociais, as pessoas têm, inicialmente, o controle sobre a escolha do que será falado e exposto sobre si em seus próprios perfis e páginas pessoais.

Goffman (2009) também fala da representação como sendo a atividade do indivíduo em um determinado período, a postagens (imagem ou vídeo) no qual está presente continuamente diante de um grupo de observadores (leitores, seguidores, visitantes esporádicos) e sobre os quais exerce alguma influência. Para representar, segundo o autor, é utilizada uma fachada, sendo esta o equipamento expressivo intencional ou inconsciente que é utilizado pelo indivíduo durante a representação; e também é utilizado também um cenário que vai compor o lugar que ocorrerá a atuação (Goffman, 2009).

As regiões representacionais são os elementos de expressão identificados como próprios do indivíduo, formadas por aparência, que revela o status social, e estímulos que informam sobre o papel na interação social. São divididas por Goffman (2009) em regiões de fachada e de fundo ou de bastidores. Região é definida como um lugar limitado por meios de comunicação e por barreiras da percepção. Região de fachada é o lugar onde a representação é desempenhada e os bastidores formam o lugar onde impressões são arquitetadas, e onde elementos da fachada podem ser escondidos para que a plateia não perceba. O que se encontra na região de fundo é considerado conteúdo privado, e estes elementos podem ser reavaliados e ajustados em outros momentos.

Goffman (2009) diz que se espera consistência entre a aparência e a maneira de agir em compatibilidade com o ambiente, pois a fachada social é definida como correspondente ao papel social a ser desempenhado, e este, por sua vez, tem um caráter abstrato e geral. Na presença de outras pessoas, a atividade do indivíduo deve tornar-se significativa para elas. A audiência da representação tem exigências e expectativas com relação ao desempenho do papel, então é necessário um comportamento consistente que expresse o que ele quer transmitir. Influenciadoras digitais de moda, para sustentarem o título, devem expor conteúdo em suas publicações relacionadas ao tema, mesmo que tenham outros interesses diversos.

Portanto o controle do acesso a essas regiões por parte do indivíduo para com a audiência é de extrema importância para sustentação da representação. Os limites que dividem essas regiões são dados em nossa sociedade em diversas dimensões, conforme a socialização. Com o advento das redes sociais digitais essa divisão e organização se tornaram mais difusas, pois é possível perceber no dia a dia renegociações de normas sociais para sistematização das agências nos ambientes digitais. Goffman (2009) ainda argumenta que o controle de acesso às regiões de fachada e de fundo não é controlada somente pelo ator social, mas por outras pessoas também, dado que as dinâmicas interacionais são diversas e nem sempre são totalmente controladas. É relevante pontuar que o autor considera o “público” significativamente importante para sustentação e manutenção do “espetáculo”, conforme a permissão dos atores para ação do público e os feedbacks deste, ou seja, são os seguidores que ajudam na montagem do espetáculo também, apontando o que deve ser melhorado ou evidenciado, por exemplo. O acesso da plateia aos bastidores de uma representação poderia colocar em risco as performances sustentadas pelos indivíduos em sua representação. Como consequência, seria necessário, caso a pessoa ache necessário, uma explicação e/ou um reajuste da atuação para manutenção do equilíbrio do “espetáculo”.

É perceptível a elaboração de blogs de moda e perfis pessoais de Instagram como um grande palco para atuação e trata-se de um fenômeno que é vivenciado na contemporaneidade e se estrutura e replica-se cotidianamente. Acredita-se que devido às características construídas socialmente e vivenciadas na atualidade, de espetacularizar a vida em diversas dimensões e níveis, os cenários de representação são cuidadosamente montados, as regiões de fachada e de bastidores são gerenciadas para formar a imagem desejada, com ajuda também do manejo da linguagem verbal e não-verbal e do comportamento exposto de maneira geral.

É possível, pois, montar espetáculos de si com as ferramentas que a internet oferece, como o anonimato e a possibilidade de escolher o que é exposto sobre si e sobre o que se tem interesse (Sibilia, 2016). O que se apresenta online são relatos sobre si, que passam a fazer parte da narrativa geral do sujeito, sua identidade e trajetória.  Atualmente é difícil conceber o que é real e o que é ficção da vida de pessoas que estão constantemente sob os holofotes das redes sociais. Ser “blogueira fashion” (blogueira de moda) é alvo de cobiça, segundo Sibilia (2016). Ela também cita que a busca por apresentar as novidades da moda na linguagem cotidiana das clientes, de um modo que aparente espontaneidade é o que as empresas querem quando se interessam pelas influenciadoras. As redes sociais demonstram terem se tornado essenciais para alavancar as vendas de marcas de moda que e associam sua imagem à de uma determinada influenciadora digital em evidência no âmbito que se quer atingir.

Todavia todo glamour tem seu preço, pois pode ter um custo elevado, emocional, financeiro, entre outros, para se estar constantemente conectada. Acredita-se que cada indivíduo maneja seus recursos como pensa que seja a melhor maneira, mas percebe-se que as fronteiras entre as dimensões da vida pública e privada são colocadas em crise e/ou são reconfigurados constantemente. A exposição de si na internet é um ato voluntário e que compõe uma prática identitária, como nos lembra Bruno (2004), e corresponde a uma “demanda pelo olhar do outro”. Esta pesquisadora também ressalta que a exposição no ambiente de redes digitais faz um movimento contrário ao que poderia ser considerado comumente como privado: ocorre uma “publicização da intimidade”. A dimensão privada e íntima deixa de ser tanto um refúgio e torna-se “matéria artificialmente assistida e produzida na presença explícita do olhar do outro” (Bruno, 2004). Há quem possa utilizar-se de assuntos e momentos privados e considerados como íntimos, como a convivência em família, conflitos em relacionamentos amorosos ou uma boa fase nele, adoecimentos diversos, uma nova dieta etc, para aumentar sua audiência ou para propósitos diversos.

A privacidade, pois, também se torna ameaçada, porque os tempos e os valores parecem terem sido reajustados e/ou manifestam-se de outras formas. Atualmente é plausível afirmar que essa visibilidade ganhou proporções inimagináveis devido as características próprias de ambientes de redes digitais, como a persistência (informações gravadas e arquivadas), a replicabilidade (conteúdos passíveis de replicação), a buscabilidade (conteúdo que pode ser acessado através de busca), e a escalabilidade (potencial de visibilidade do conteúdo publicado) (Boyd, 2010). Isso diversifica e pode complexificar dinâmicas interacionais na sociedade de maneira geral, levando as pessoas à constantes avaliações, planejamentos e negociações sobre o conteúdo exibido.

Referências

Boyd, D. (2010). “Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications.” In: Z. Papacharissi (Ed), Networked Self: Identity, Community, and Culture on Social Network Sites (pp. 39-58). New York: Routledge. Disponível em:https://www.danah.org/papers/2010/SNSasNetworkedPublics.pdf

Bruno, F. (2004). Máquinas de ver, modos de ser: visibilidade e subjetividade nas novas tecnologias de informação e de comunicação. Revista FAMECOS, 11(24), 110–124.

Goffman, E. (2009). A Representação do Eu na Vida Cotidiana (16ª ed.). Petrópoles: Vozes.

Sibilia, P. (2016). O show do Eu: A intimidade como espetáculo (2ª ed.). Rio de Janeiro: Contraponto.

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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