A Representação do Eu na Vida Cotidiana – Introdução e Capítulo 1

Ao apresentar o livro, Goffman ressalta que ele serve como uma espécie de manual, um quadro de referência que descreve detalhadamente uma abordagem sociológica a partir da qual é possível estudar a vida social:

– A Perspectiva utilizada é a da representação teatral.
– Os Princípios são de caráter dramatúrgico:

  1. Maneira pela qual o indivíduo apresenta a si mesmo e as suas atividades comuns às outras pessoas;
  2. Meios pelos quais dirige e regula a impressão que formam a seu respeito;
  3. Coisas que pode ou não fazer, enquanto realiza o seu desempenho diante delas.

– Material ilustrativo utilizado: dados de pesquisas a partir de generalizações válidas + narrativas informais + dados da tese de doutoramento do próprio Goffman.

– Presume-se: a vida apresenta coisas reais e, às vezes, bem ensaiadas.

representação do eu

INTRODUÇÃO

Chegar a presença de outros implica, geralmente, obter ou reiterar informações a respeito do outro – projetando uma definição de situação. Para Goffman, a despeito de algumas dessas informações serem procuradas quase como um fim em si mesmas, existem razões para obtê-las: a informação assumida inicialmente (primeiras impressões) a respeito do outro serve para definir a situação que vai se apresentar, constituindo/fornecendo um contexto inferencial onde as pessoas são capazes de antecipar expectativas mútuas, compreendendo a melhor condução para as respostas desejadas do outro. Para o autor, muitas fontes de informação se apresentam como “veículos de indícios” – aparência, conduta, estereótipos, suposições baseadas em experiências anteriores com pessoas parecidas, generalidade de traços psicológicos, mas poucas delas oferecerão diretamente a informação conclusiva de que precisarão (verdadeiras crenças e emoções do indivíduo, por exemplo, não se apresentam em um contexto de primeiro encontro).

Para Goffman, a expressividade do indivíduo – sua capacidade de dar impressão – parece conciliar duas formas de comunicação:

1)   A expressão que ele transmite (símbolos verbais, comunicação); e

2) A expressão que emite (ações que podem se apresentar como sintomáticas, levadas a efeito por razões outras da informação transmitida).

Goffman inaugura assim, uma abordagem promissória da comunicação –  em sentidos amplo e estrito – que parece ter habitado um ponto cego das teorias clássicas: o interesse principal do indivíduo será o da regulação e controle da conduta do outro durante a interação. Neste sentido, ressalta que o seu trabalho observa sobretudo, a forma de comunicação do tipo (1) teatral e contextual, (2) de natureza não-verbal e (3) por conjectura não-intencional – quer a comunicação seja organizada propositalmente ou não.

Na abordagem promissória inaugurada, Goffman sublinha um aspecto fundamental da resposta dos outros: considerando que o indivíduo irá certamente apresentar-se favoravelmente, onde os demais interlocutores poderão analisar o que notam a partir de duas perspectivas:

1)  O indivíduo facilmente manipulará quando quiser (principalmente através das afirmações verbais);

2) O indivíduo terá pouco domínio a partir das expressões emitidas (principalmente através da dimensão não-verbal).

Dessa forma, o autor destaca uma assimetria fundamental do processo comunicacional, destacando que o indivíduo geralmente só racionaliza e pondera uma das duas formas apresentadas. Acrescenta ainda que, os indivíduos podem usar os aspectos considerados não-governáveis do comportamento expressivo como reforço e legitimidade dos aspectos considerados governáveis.

Sobre o modus vivendi interacional, considera que as pessoas, em conjunto, contribuem para uma única definição geral da situação baseado num acordo real quanto às pretensões que serão momentaneamente consentidas e a conveniência de evitar possíveis conflitos. Sobre este consenso implícito, o autor qualifica como um “consenso operacional”.

Como uma questão de ordem, Goffman destaca algumas definições implícitas, fundamentais sobre este trabalho:

INTERAÇÃO/ENCONTRO (interação face a face): definida em linhas gerais, como a influência recíproca dos indivíduos sobre as ações uns dos outros, quando da PRESENÇA FÍSICA imediata.

DESEMPENHO (PERFORMANCE?): toda atividade de um determinado participante, em dada ocasião, que sirva para influenciar, de algum modo, outros participantes.

MOVIMENTO/PRÁTICA: padrão de ação (pre)estabelecido que se desenvolve durante a representação e que pode ser repetido em ocasiões futuras.

PAPEL SOCIAL: a promulgação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social, envolvendo um ou mais movimentos para diversos públicos.

CAPÍTULO I – REPRESENTAÇÕES

Crença no papel que o indivíduo está representando

Iniciando o estudo das representações, nas primeiras linhas do primeiro capítulo, Goffman usa expressões que lhes são muito caras ao longo da sua discussão e que reafirmam a perspectiva da representação teatral e os princípios dramatúrgicos da sua obra: “ator”, “observadores”, “personagem”, “representação”, “espetáculos”, “desempenho de papéis”.

Considerando o desempenho de um papel por um indivíduo, propõe ser conveniente observar, a priori, a própria crença do indivíduo na impressão de realidade que tenta dar aos outros entre os quais se encontra. Nesse sentido, a partir do grau de convencimento do indivíduo da sua própria prática, o autor oferece duas situações opostas para ilustrar um ciclo contínuo de crença-descrença: (1) de uma lado, o indivíduo que encontra-se focado no seu desempenho pode estar sinceramente convencido que a impressão de realidade encenada é a própria realidade, (2) por outro lado, quando o ator não encontra-se plenamente convencido da sua prática e por tanto, descrente da sua própria atuação e desinteressado pelo seu público, o indivíduo pode ser cínico. Dessa forma, os atores podem oscilar naturalmente entre cinismo e sinceridade ou ainda, misturar essas duas dimensões ao longo do seu espetáculo.

Fachada

Partindo da acepção de REPRESENTAÇÃO como “toda atividade de um indivíduo que acontece num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo de observadores e que tem sobre estes alguma influência”, Goffman oferece a acepção para “fachada” como sendo “a dimensão do desempenho do indivíduo, que funciona regularmente de forma geral e fixa com o objetivo de definir a situação para os observadores de uma representação”. E reitera: “fachada é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação”. Sobre as relações entre as várias partes da fachada social, destaca uma característica particularmente importante da informação transmitida, o seu caráter abstrato e sua generalidade. Para Goffman, a fachada pessoal ou os itens de equipamento expressivo que identificamos como próprio do ator e que os segue onde quer que o ator vá possui dois principais estímulos: “aparência” e “maneira”.

Sobre as partes tradicionais da fachada, temos:

(1)   Cenário: partes cênicas de equipamento expressivo.

(2) Aparência: estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status social do ator.

(3) Maneira: estímulos que funcionam no momento para nos informar sobre o papel de interação que o ator espera desempenhar na situação.

Para o autor, as fachadas tendem a ser selecionadas e não criadas, o que implica diretamente um dilema de escolha (da mais adequada), dentre tantas fachadas possíveis. Acrescenta ainda que, embora diferentes práticas possam adotar a mesma fachada, devemos observar que uma fachada social tende a se institucionalizar em termos de expectativas estereotipadas abstratas. O autor tensiona ainda, a relação entre papéis sociais e fachada, quando um ator assume um determinado papel social e geralmente verifica que uma determinada fachada já foi estabelecida para este papel.

Realização Dramática

Sobre a realização dramática, Goffman destaca que em PRESENÇA de outros, os indivíduos incluem em suas atividades uma mobilização de sinais que acentuam e configuram fatos confirmatórios, durante a interação, do que precisa transmitir. Para o autor, essas atividades canalizadas para a comunicação permitem uma auto-expressão dramática.

O autor sugere ainda, estudo das técnicas pelas quais essas atividades se transformam em espetáculo.

Idealização

Partindo dos modos pelos quais uma representação é socializada, moldada e modificada, o autor acrescenta um outro aspecto deste processo de socialização: o fato do “ator oferecer aos seus observadores uma impressão que é idealizada”.

Para Goffman, por tanto, a representação apresenta, comumente, uma concepção idealizada da situação e uma das fontes mais ricas de dados sobre representação de desempenhos idealizados está assentada na literatura sobre mobilidade social e nos símbolos de status. Neste caso, destaca que o ator/autor tem de dar expressões a padrões comportamentais ideais na representação, abandonando ou escondendo ações, atividades e fatos incompatíveis. Pode ainda, pode usar de artifícios estereotipados para que seja bem sucedido.

Manutenção do Controle Expressivo

Aqui, o autor comenta sobre a coerência expressiva exigida nas representações e as possíveis discrepâncias que podem existir entre o nosso eu humano e o socializado.

Representação Falsa

Sobre representação falsa, Goffman chama em causa os indivíduos que se apresentam com uma fachada pérfida ou “somente” uma fachada, dissimulando, enganando e trapaceando. Para o autor, essa posição precária em que se coloca o ator poderá causar-lhe humilhação ou até a perda permanente da sua reputação, caso aconteça algo durante a sua representação que evidencie um erro ou algo que contradiga o que declarava abertamente.

A definição social de personificação não é algo muito coerente – obedece por tanto, um grau de relevância quanto ao que é falso, podendo até haver simpatia em relação ao ator que personifica determinado personagem.

A identificação de um impostor é atribuída ao fato do ator representar um papel que não estar credenciado para tal.

Citando as características gerais da representação:

1) A atividade orientada para as tarefas de trabalho tende a converter-se para atividade orientada para a comunicação;

2) A fachada atrás da qual a prática é apresentada servirá para outras práticas diferentes, mas talvez não seja ajustada perfeitamente a algumas outras;

3)  O autocontrole exerce-se de modo a manter um consenso atuante;

4)  Uma impressão idealizada é oferecida acentuando-se certos fatos e ocultando-se outros;

5)  O ator mantém a coerência expressiva tomando mais cuidados na prevenção de desacordos que o público poderia imaginar levando em conta o propósito manifesto da interação.

Para o autor, todas essas características gerais apresentadas podem ser consideradas como coações da interação, que agem sobre o indivíduo e transformam suas atividades em representações.

Mistificação

A partir da acepção de distância social, também citando Durkheim, que considera a personalidade humana uma coisa sagrada, inviolável, Goffman afirma que as inibições do público em acessar o ator em determinados momentos, oferecem-no um certo campo livre de ação para formar uma impressão escolhida e que funcionam como proteção (ou ameaça) que uma aproximação mais apurada destruiria.

Realidade e Artifícios

De modo geral, há para Goffman dois modelos de bom senso: o de representação falsa e o da representação verdadeira, entendendo-se a primeira como algo completamente ensaiado e a segunda como algo completamente espontâneo; Acrescenta que, no dia a dia, o ator, sincero ou não, bom ou não, representa e convence sua plateia com base na troca de informações recíprocas (“deixas” e “pontas”).

O autor ressalta ainda: “uma condição, uma posição ou um lugar social não são coisas materiais que são possuídas e, em seguida, exibidas; são um modelo de conduta apropriada, coerente adequada e bem articulada. Representando com facilidade ou falta de jeito, com consciência ou não, malícia ou boa-fé, nem por isso deixa de ser algo que deva ser encenado e retratado que precise ser realizado.”

Ana Terse Soares

Ana Terse Soares é graduada em Comunicação Social e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (2013) na linha de Cibercultura. Atualmente integra os Grupos de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e o Analítica: Crítica de Mídia, Estética e Produtos Midiáticos, ambos na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre Performances Musicais através de Hologramas e seus interesses debruçam-se, principalmente, sobre os seguintes temas: Comunicação e Tecnologias Digitais, Cultura Digital, Redes Sociais, Produção de Presença e Materialidades da Comunicação, Arte e Tecnologia, Música e Virtualidade, Experiência Estética e Holografia, Performances Musicais e Tecnologias Digitais, Digital Bodies, Performers Virtuais.

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