A Representação do Eu na Vida Cotidiana – capítulo 5

Neste capítulo, Goffman tratará sobre os tipos de comunicação imprópria. Quando duas equipes se encontram, os membros de cada uma delas tendem a sustentar, como linha de ação, que são o que afirmam ser.

Com este objetivo, cada equipe tende a suprimir sua opinião sobre si mesma e sobre a outra equipe, projetando uma concepção de si e uma concepção da outra que é relativamente aceitável para esta. Estas equipes estarão preparadas para ajudarem umas às outras, tácita e discretamente, a manter a impressão que tentam causar.

Goffman destaca que em alguns momentos, o ator poderá deixar escapar alguma exclamação não pertencente ou coerente com a representação, uma forma de comunicação imprópria. Assim, o ator (espontânea, impensada e imediatamente) age numa situação de certa maneira que poderá transmitir a alguns que a representação realizada é apenas um espetáculo.

Estas crises (quebra da face que pode acarretar até mesmo a ruptura da interação) são excepcionais; a manutenção da definição da situação é a regra e deve ser sempre a primeira alternativa.

Goffman pontua quatro tipos de formas de comunicação que transmite informação incompatível com a impressão objetivada:

1) Tratamento dos ausentes

Quando nos bastidores (onde a plateia não pode vê-los ou ouvi-los), os membros de uma equipe, geralmente, dispensam à plateia um tratamento diferente (incompatível) daquele desempenhado frente a frente.

Neste caso, tanto a depreciação quanto os elogios podem ser impróprios à situação. Muitos atores podem depreciar outros (plateia) a fim de se auto afirmar ou garantir sua representação.

– Goffman indica duas técnicas comuns de depreciar a plateia:

  • a) Desempenho trocista de um papel: o ator presente no cenário antes da plateia satiriza a mesma. Esta atividade parece fornecer uma espécie de profanação do ritual de fachada, assim como da plateia.
  • b) Termos pejorativos de referência: são alterações na forma de tratamento da plateia por parte do ator. Quando na ausência da plateia, o ator tende a referir-se a ela de forma desrespeitosa.

O autor pontua que além desses dois modos de depreciação da plateia, existem outros meios padronizados de comunicação incompatível:

  • a) Caçoar de seu próprio desempenho: quando a plateia não está presente, os membros da equipe podem referir-se a aspectos do seu papel de maneira cínica ou puramente técnica.
  • b) Contaminar e profanar a plateia com uma conduta de bastidores ou rebelar-se do espetáculo que a equipe mantém: desenvolver atividades incompatíveis antes do público ir embora por completo.
  • c) Zombar do membro da equipe que deseja deixar os seus companheiros e se desloca para alguma categoria da plateia.
  • d) Caçoar de um membro da plateia que adentra a equipe: o novo membro da equipe passa a ser maltratado pela mesma razão pela qual foi maltratado quando se afastou da equipe a que pertencia.

Goffman ressalta alguns pontos nessas atividades de comunicação incompatível:  os indivíduos são tratados relativamente bem quando presentes, mas relativamente mal quando ausentes. Em geral, a degradação da plateia nos bastidores serve para manter a moral da equipe. O tratamento respeitoso em copresença é necessário para a manutenção da interação em paz e ordem.

2) A conversa sobre a encenação

Quando os companheiros de equipe estão longe da presença da plateia, a discussão muitas vezes tem por objeto os problemas de encenação. Comentários sobre a última encenação, sobre anteriores ou projeções para as próximas. Analisar esta atividade de conversa sobre o palco pode ajudar a mostrar que indivíduos com papeis sociais completamente diferentes podem viver o mesmo clima de experiência dramatúrgica.

3) A conivência da equipe

Neste tópico, Goffman trata das ações ou atitudes que os participantes de uma equipe desenvolvem com a finalidade de manter a impressão que pretendem. Assim, o ator pode transmitir muita informação impropria durante uma interação, mas fazê-lo de modo que a plateia não compreenda que tal coisa é incompatível com a definição da situação.

Esta comunicação combinada entre os membros da equipe, cuidadosamente transmitida de modo que não ameaça a apresentação, é chamada “conivência da equipe”. As informações circuladas podem estar relacionadas a plateia ou dizer respeito a si mesmos (atores).

– Goffman pontua alguns tipos de atividades de “conivência da equipe”:

a) Sistema de sinais secretos: são deixas utilizadas para transmitir informações convenientes, pedidos de ajuda e outros assuntos importantes para a encenação. Dispor dessa linguagem simplifica muito sua tarefa de manejar as impressões.

As deixas, frequentemente, relacionam os indivíduos empenhados na apresentação com os que estão dando assistência ou direção nos bastidores. Estas deixas oferecem uma razão para empregar o conceito de equipe, em vez de analisar a interação em termos de desempenhos individuais.

Essas deixas informais ou secretas podem ser utilizadas para avisar ao ator que darão início a uma fase da representação ou para avisar que ele está começando a agir fora do roteiro ou, ainda para avisar aos companheiros de equipe que a plateia chegou inesperadamente ou que a plateia não está presente. É possível também com estes sinais dizer à equipe que um membro da plateia é um espião ou que seja algo mais do que aparenta ser.

b) Conivência depreciativa: esta atividade implica numa secreta depreciação da plateia, pode acontecer entre o ator e ele próprio ou entre os membros de uma equipe quando estão representando.

Assim, o ator pode, quando não observado pela plateia, fazer um gesto que contradiz sua conduta ou distanciar sua atenção da interação sem que a plateia perceba. Uma forma mais prejudicial da conivência depreciativa é quando o ator é forçado a tomar uma linha de conduta profundamente contrária aos seus sentimentos íntimos, uma forma semelhante de comunicação impropria ocorre quando um membro de uma equipe representa seu papel para divertimento especial e secreto de seus companheiros de equipe ou quando um membro da equipe tenta implicar com outro, estando ambos empenhados na representação. Por fim, um indivíduo que esteja colaborando com outro que seja desagradável, procurará chamar atenção de um terceiro, confirmando que não pode ser responsabilizado pelo comportamento do segundo indivíduo.

4) Ações de Realinhamento

Nos tópicos anteriores, pudemos perceber que a comunicação conivente seria um meio pelo qual os companheiros de equipe podem se libertar um pouco das exigências restritivas da interação entre equipes. Um tipo de desvio que se supõe que a plateia não tome conhecimento.

Esta atividade pode ser desenvolvida por duas equipes, que estabeleceram um consenso de trabalho, através de uma comunicação não-oficial que cada equipe dirige à outra. O uso desta comunicação permite ao indivíduo negar que pretendia dizer algo com sua ação, caso os receptores o acusem.

A comunicação não-oficial, em muitas interações sociais, fornece um meio pelo qual uma equipe pode estender um pedido não comprometedor a outra, solicitando que a formalidade ou distância social sejam aumentadas ou diminuídas. Realinhando a conduta a ser seguida na situação.

Os realinhamentos temporários podem alcançar certo grau de estabilidade institucionalização naquilo que se chama “duplo sentido”. Esta técnica de comunicação permite que dois indivíduos transmitam informação um ao outro de uma forma, ou sobre um assunto que seja incompatível com seu relacionamento oficial.

Quando o consenso de trabalho estabelecido entre duas equipes implica em oposição declarada (como os advogados das partes numa audiência), verificamos que a divisão de trabalho dentro de cada equipe pode levar ao que Goffman nomeou de realinhamento momentâneo. Neste momento, acontece uma breve confraternização entre especialistas opositores diante dos leigos, contudo esta confraternização não compromete os segredos das equipes ou as prejudica.

Por fim, o autor destaca que a representação é algo de que os membros da equipe podem afastar-se suficientemente para imaginar ou desempenhar simultaneamente outras espécies de representações. Assim, a representação não é uma resposta espontânea e imediata à situação, que absorve a equipe e constitui sua única realidade social.

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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