A Representação do Eu na Vida Cotidiana – capítulo 4

Neste capítulo, Goffman trata dos papéis que se diferenciam dos três mais relevantes (ator, plateia e estranho), justamente, por envolver algum nível de discrepância em relação ao controle da informação. Como visto nos capítulos anteriores, o papel de qualquer equipe seria manter a definição da situação. Para isto, é preciso ter controle das informações expostas, ou seja, é preciso acentuar alguns fatos e minimizar outros que contenham informações “destrutivas”. Estas informações configuram segredos.

Inicialmente, Goffman enumera, 3 tipos de segredos compartilhados por uma equipe:

1- Segredos Indevassáveis: são aqueles que a equipe conhece, porem oculta do público para manter a imagem da equipe.

2- Segredos Estratégicos: são aqueles que ocultam capacidades e intenções de uma equipe. Estes segredos podem ser também indevassáveis, mas, quando não o são, tendem a ser revelados pela equipe quando a ação se consuma.

3- Segredos Íntimos: são aqueles que marcam o indivíduo como membro de um grupo e o diferencia dos que não pertencem ao grupo. Estes segredos, se descobertos, podem não comprometer a representação da equipe.

Goffman apresenta outros 2 tipos de segredos, porém agora estão relacionados com o conhecimento que se tem dos segredos de outra equipe:

1- Segredos Depositados em confiança: a pessoa que detém este conhecimento deve guarda-lo por conta de sua relação com a equipe. A revelação deste segredo compromete tanto a representação da equipe quanto a sua.

2- Segredos Livres: aquele que detém este segredo ao revela-lo não compromete a sua própria imagem ou representação. Goffman destaca que a equipe cujos segredos vitais são possuídos por outras tentará que os possuidores percebam estes segredos como confiados e não como livres.

É preciso pontuar que o controle da informação envolve mais do que guardar segredos. Em quase toda representação existem fatos que são incompatíveis com a impressão incentivada por ela, porém estes fatos não foram reunidos e organizados de forma utilizável por alguém, estes fatos são chamados de Segredos Latentes.

Existe, aqui, uma diferença importante entre as questões que envolvem a guarda de segredos e a manutenção de segredos latentes, já que estes demandam um gerenciamento/atenção mesmo não chegando a ser secretos.

Goffman distingue 3 papéis decisivos numa representação:

1- Atores: são aqueles que representam e tem consciência da impressão que criam e da informação destruidora do espetáculo.

2- Platéia: são aqueles que conhecem a definição da situação, mas não possuem a informação que pode destruir a representação.

3- Estranhos: são aqueles que não conhecem a aparência de realidade (definição da situação) e nem os segredos da representação.

Após esta apresentação, Goffman associa os 3 papeis mencionados às regiões as quais o executante da ação tem acesso. Deste modo, os atores apresentam-se nas regiões de fachada e de fundo, a plateia na região de fachada e os estranhos estão excluídos de ambas.

Durante a representação, pode-se observar uma correlação entre a função, a informação disponível e as regiões acessíveis (ou seja, quem é você?, o que você sabe? E onde você está?), porém a compatibilidade simultânea desses três pontos raramente acontece.

Neste sentido, Goffman entende que papeis são perspectivas peculiares que acabam sendo tomadas com tamanha frequência que seu significado se torna facilmente compreendido para a representação. Porém, as perspectivas relativas à representação são mais complexas do que a simples relação dos 3 pontos citados, podendo ser percebidas como papeis discrepantes. Ou seja, papeis que se diferem das usuais combinações e induzem uma pessoa sob uma falsa aparência.

Goffman, inicialmente, pontua cinco papéis discrepantes mais evidentes:

1- Papel de Delator: este finge para os atores ser um membro de sua equipe, tem acesso aos bastidores e as informações destruidoras e, então, aberta ou secretamente, trai o espetáculo à plateia. Neste caso, se o indivíduo se uniu a equipe de forma sincera e depois o traiu chama-se traidor ou vira-casaca, caso tenha se unido à equipe com o propósito de coletar informações sobre ela convém chamar espião.

2- Papel de Cumplice do Ator: mancomunados com os atores, estes indivíduos agem como membros da plateia a fim de induzi-la a cooperar com o sucesso do espetáculo (e.g. Farol, claque ou esposa que sustenta a anedota do marido).

3- Papel de Agente Protetor do Público: esta pessoa é paga para verificar os padrões que os atores mantêm a fim de assegurar que as aparências criadas não fiquem distantes da realidade. Caso, este observador informe aos outros sobre seu papel ali é visto como um observador participante, caso trabalhe em segredo será um olheiro.

3.1- Papel do Detrator ou Informado: são pessoas que não possuem o conhecimento das operações de bastidores e não estão credenciados pela lei ou pelos costumes para representar o público.

4- Papel de Comprador Profissional: seria aquele que ocupa discretamente um lugar na plateia e que, ao termino do espetáculo, sai à procura de seu patrão (um competidor da equipe) para contar sobre a representação que viu. Este assemelha-se ao espião, porém este se une à equipe e o comprador se une a plateia.

5- Papel de Intermediário ou Mediador: são aqueles que atuam em 2 equipes, aprendendo os segredos de cada lado e dando a cada um a verdadeira impressão de que os guardará, mas dando a falsa impressão de que é leal a um lado mais que ao outro. Ou seja, busca agir com certa neutralidade. Estas pessoas podem ser consideradas duplos faróis ou cumplices do ator. E.g. conciliadores judiciais, supervisores de produção.

Em cada um dos 5 casos, encontram-se relações entre papel fingido, informação possuída e regiões de acesso.

Um último papel discrepante é o da não-pessoa. Este indivíduo, apesar de estar na região de fachada e fazer parte da equipe, é definido como alguém que não está ali ou, melhor, que está fora da representação; não são considerados nem atores e nem plateia. E.g. empregadas domésticas, garçons.

Alguns grupos permitem que não-pessoas circulem nas regiões de fundo com base na teoria de que nenhuma impressão precisa ser mantida para elas.

Goffman apresenta outros 4 tipos de papéis discrepantes, que envolvem pessoas que não estão presentes/participando durante a representação, mas que possuem informações a respeito dela.

1- Papel de Especialista em Serviços: são aqueles indivíduos que se assemelham aos membros da equipe por terem conhecimento dos segredos do espetáculo e terem uma visão dos bastidores, contudo não compartilham nem do risco, nem da culpa e nem da satisfação de apresentar o espetáculo para o qual contribuíram. Deste modo, é um papel desempenhado por especialistas em construção, conserto e manutenção do espetáculo que seus clientes exibem. E.g. arquitetos – cenário, cabeleireiros – fachada pessoal, assessor de imprensa ou advogado – exposição verbal.

O especialista para manter sua ética profissional se vê obrigado a não passar adiante os segredos de um espetáculo. Neste sentido, o especialista apesar de conhecer a região de fundo se mantém cínico à representação a fim de manter a impressão.

O especialista pode acabar funcionando como um acessório que irá auxiliar a denotar um perfil objetivado. Em outros casos, a escolha por um especialista pode envolver a vontade de ocultar, o serviço necessário, daquele que costumeiramente o executa. E.g. contratar um advogado de baixa reputação (ou novo) para resolver questões de casos extraconjugais.

2- Papel de Especialista em treinamento: estes têm a tarefa de ensinar ao ator como construir a impressão desejada. E.g. Pais, professores.

3- Papel de Confidente: são aqueles indivíduos a quem o ator confessa seus pecados detalhando livremente o sentido em que a impressão dada, durante a representação, era somente uma impressão. Os confidentes participam da região de fundo e fachada apenas indiretamente. E.g. amigos fieis.

4- Papel de Colega: são aqueles indivíduos que apresentam a mesma prática que seus companheiros de equipe para o mesmo tipo de plateia, porém não o fazem juntos (ou seja,no mesmo momento e lugar). Entre os colegas é permitido deixar de lado a fachada que é mantida diante de outras pessoas, agir com descontração.

Goffman deixa clara a diferença entre companheiros de equipe e colegas. Assim, quando uma equipe entra em contato com um colega poderá conferir-lhe o “título de membro honorário” da equipe. Neste sentido, a um colega recém-chegado poderá ser concedida maior intimidade do que a um antigo vizinho (antiga plateia) de diferente condição social.

Por fim, aquele colega que, por considerar pouco importante o coleguismo, acabar traindo os segredos da ação de seus antigos companheiros perante a plateia, será renegado. O renegado, frequentemente, percebe sua atitude como moral, pois considera melhor ser leal aos ideais de um papel do que aos atores que o representam.

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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