A Representação do Eu na Vida Cotidiana – capítulo 3

Na abertura do livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman trabalha com a ideia de representação, como “toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência”. Como já vimos, “representar” não significa falsear, mas sim atuar segundo um papel limitado a determinadas situações sociais.

No capítulo II, o autor destaca um ponto fundamental: A representação “serve principalmente para expressar as características da tarefa que é representada e não as do ator” (p.90).   Sendo assim, a representação tem um alcance maior do que o caráter expressivo do próprio ator, de sua subjetividade. Ela tem repercussão em dinâmicas mais amplas da interação como um todo. E como processo expressivo de tais tarefas, a representação está assentada na cooperação de grupos (equipes) de uma rotina particular. Para Goffman a definição de uma situação decorrerá da ação cooperativa (e ritualizada) de uma equipe. Essa é a idéia central do capítulo.

Já o capítulo III, o qual tratamos agora,  Goffman  discorre sobre as diferentes regiões da representação, abordando suas principais dinâmicas e utilidades do ponto de vista internacional. O capítulo é estruturado a partir de 4 pontos centrais: região de fachada, região de fundo, controle das regiões e o “lado de fora”. Na abertura do capítulo Goffman define região como: “qualquer lugar que seja limitado de algum modo por barreiras à percepção” (p.120). Tais regiões irão variar no grau que são limitadas e de acordo com os meios de comunicação em que se realizam as barreiras.

Região de fachada:

O autor aborda o contexto cultural da sociedade norte americana para destacar que a representação usualmente ocorre numa região extremamente limitada, a qual são muitas vezes acrescentados limites relativos ao tempo. Sobre tal ponto destaca:

“A impressão e compreensão criadas pela representação tenderão a saturar a região e a duração do tempo de modo que qualquer individuo colocado nesta multiplicidade espaço temporal estará em condições de observar a representação e ser guiado pela definição da situação que a encenação alimente” (p.120).

Em relação aos focos de atenção, Goffman considera que geralmente as representações possuirão um único foco de atenção. Como por exemplo, discurso político ou uma conversa com um médico, mas chama atenção que muitas representações são partes constituintes de círculos ou aglomerados, separados da interação verbal. Exemplo: um coquetel que implica tipicamente vários grupos de conversação dinâmicos.

Assentando em um representação particular o autor utiliza região de fachada para se referir ao lugar onde a representação é executada. O equipamento fixo dessa região, como já sabemos é o cenário. É importante destacar que nem todos os aspectos de uma representação serão executados para uma platéia, mas para a região de fachada. A representação nessa região pode ser vista como um esforço para dar a aparência de que a atividade nessa região mantém e incorpora certos padrões. Goffman divide tais padrões em dois grandes grupos:

Padrões de Polidez: refere-se a maneira pela qual o ator trata a plateia, enquanto está empenhado em falar com ela ou num intercâmbio de gestos, que substituam a fala.

Padrões de Decoro: trata do modo como o ator se comporta enquanto está ao alcance visual ou auditivo da plateia, mas não necessariamente empenhado em conversar com ela. O decoro será dividido ainda em 2 subgrupos: moral e instrumental. Os requisitos morais são um fim em si mesmo e dizem respeito a regras de não ingerência nos assuntos dos outros, enquanto os intrumentais referem- se a deveres. Por exemplo que o empregador pode exigir dos empregados. Pra Goffman os requisitos morais e intrumentais parecem afetar de maneira semelhante o individuo. Desde que o padrão seja mantido por alguém, com eventual aplicação de sanções aos desviantes, será de pouca importância para o ator saber se o padrão se sustenta principalmente por um ou outro motivo.

Goffman faz uma nota a respeito de temas já tratados e correlaciona a parte da fachada pessoal chamada de “maneiras” à padrões de Polidez, enquanto a parte chamada de “aparências” ao decoro. O porquê dessa correlação fica claro na própria definição dos termos. Se as maneiras dizem respeito aos estímulos que informam sobre o papel da interação que o ator espera desempenhar na situação que se aproxima. Como Goffman trata no capítulo I, é compreensível que esteja ligada a polidez e suas maneiras de tratar uma platéia. Por exemplo: maneira arrogante, maneira humilde, etc. Já a aparência enquanto estímulos que funcionam em dado momento para nos informar sobre o status social do ator, ou do seu estado ritual (traballho, recreação, etc) está ligada ao decoro, sobretudo com o decoro instrumental.

É importante notar que os requisitos de decoro são mais penetrantes que os da polidez, mas por que isso acontece? – De maneira bem geral, o decoro está mais associado com a expressão emitida. Exemplo: plateia que examina toda a região de fachada sem que seus componentes estejam necessariamente falando com essa, ou  seja demonstrando polidez. Os atores podem deixar de se expressar (serem polidos), mas não podem deixar de emitir expressões (se comportarem).

Nesse momento, Goffman traz uma série de exemplos sobre padrões de decoro, procurando desnaturalizar os padrões:

  • Escritórios e conversas informais dos funcionários;
  • Regras de decoro em locais sagrados e regras encontradas em locais de trabalho;
  • Simulação de traballho;
  • Simulação de ociosidade.

Até aqui falamos de aspectos acentuados na presença de outros, ou seja na região de fachada. Existe outra região onde fatos suprimidos aparecem: Região de fundo, ou de bastidores.

Região de fundo ou de bastidores

Uma região de fundo ou de bastidores pode ser definida como “lugar, relativo a uma dada representação, onde a impressão incentivada pela encenação é sabidamente contradita como coisa natural”(p.126).

Funções de tais lugares: fabricação da capacidade da representação expressar algo além dela mesma, lugar das impressões e ilusões serem construídas, apoios ao palco e elementos da fachada podem ser guardados, equipamentos cerimoniais podem ser depositados, aqui podem ser revisados trajes e outros elementos da fachada pessoal, aqui pode ser revista suas expressões, aqui membros menos capazes da equipe podem ser treinados ou excluídos. Em suma região que acontece tudo que deve ser mantido longe da plateia, em uma representação.

A região de fundo geralmente está localizada em uma região oposta onde a representação está sendo apresentada, muitas vezes tais regiões ficam separadas por passagens protegidas. O ator espera que nenhum publico adentre a região de fundo. Visando proteger os segredos fundamentais do espetáculo.

A técnica de manuseio para a proteção da região de fundo em relação a plateia é chamada de controle dos bastidores. Se esse controle não é feito de forma efetiva os bastidores podem por em risco a representação na região de frente. Goffman trata de algumas dificuldades advindas do controle dos bastidores

O autor cita exemplos do controle dos bastidores relacionado ao controle do trabalho:

  • Agente funerário que deve ser capaz de manter a família do morto longe da sala de preparação do corpo, visando a manutenção da ilusão de que esse esteja realmente em um sono profundo.
  • Funcionários de um hospital psiquiátrico que devem manter os visitantes longe das enfermarias, sobretudo, de doentes crônicos. Levando os apenas em salas com boas instalações, mostrando apenas doentes mais dóceis
  • Hotel Shetland e suas diferentes estratégias.

Isso ilustra a discrepância entre realidade a aparência dos padrões. Entre impressão gerada na região de fachada e a realidade dos bastidores. Apesar de Goffman trazer esses exemplo, tal dinâmica pode ser encontrada em diversos ambiente e situações sociais.

Controle das regiões

Por essas discrepâncias, para a manutenção da representação na região de fachada é importante o controle da região de bastidores inclusive com barreiras físicas. Portas, fechadas, paredes, restrição a entrada, etc.

Para tornar clara a importância de tal dinâmica Goffman traz mais uma vez uma série de exemplos: portas de restaurantes e a transição entre bastidores (cozinha) e região de frente (salão); bastidores televisivos; as dificuldades impostas pelas habitações modernas, etc.

Uma das dificuldades de bastidores apresentadas por Goffman é a que trata de pessoas exaltadas pelos outros. “Há pessoas que podem ser tornar de tal modo veneradas, que a única aparência condizente com elas é estar no meio de uma comitiva ou uma cerimônia. Seria julgado impróprio seu aparecimento em qualquer outro contexto”. Para o autor nenhuma instituição social pode ser estudada sem que surjam problemas relativos ao controle dos bastidores (p.134).

Goffman chama atenção para que certos lugares oferecem uma flexibilização entre região de fachada e bastidores. Por exemplo, locais de veraneio. Esses permitem que pessoas apareçam em trajes que de outra forma não seriam convencionais. E que embora exista uma tendência de uma região ser identificada como de fachada ou de fundo de uma representação com a qual esteja regularmente ligada, há ainda muitas regiões que funcionam num certo sentido como região de fachada, e em outra ocasião e em outro sentido como região de fundo. Um dos exemplos trazidos pelo autor: Escritório particular de um diretor de empresa. Sua posição é intensamente expressa por meio da qualidade da mobília de seu escritório, é nele também que ele pode folgar a gravata, tirar os sapatos e agir com intimidade com outros diretores.

É importante ter claro que quando Goffman fala em regiões de frente e regiões de fundo, está tomando como ponto de referencia uma dada representação e a função para qual aquele lugar é usado no momento (P. 143). Inclusive a adoção de determinada linguagem, socialmente compreendida como familiar (de bastidores) , pode transformar uma região de frente (formal) em uma região de fundo.

“Lado de fora”

Após considerar duas espécies de regiões limitadas (as regiões de fachada e as regiões de fundo) Goffman insere em sua argumentação uma terceira região, residual, a saber, “todos os lugares que não sejam os dois já identificados” (p.150). Tal região será chamada de o “lado de fora”.  Os indivíduos que estão do lado de fora de uma representação serão chamados de “estranhos”.  O autor destaca que tal questão merece ser examinada com cuidado, pois quando “transferimos nossa atenção das regiões de fachada ou fundo para o exterior, deslocamos também nosso ponto de referencia de uma representação  para outra” (p.150).  Destaca ainda que quando um estranho inesperadamente penetra em uma dada região de fachada ou de fundo em uma representação em curso, a consequência de sua presença pode ser melhor estudada não em termos dos efeitos na referida representação, mas sim sobre uma representação diferente. Numa representação preparada para estranhos.  A presença de estranhos na representação tende a confundir os atores. Quando um estranho assiste uma representação que não lhe era destinada surgem problemas na direção das impressões.

 

 

Lisi Barberino

É mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Produção em Comunicação e Cultura e atualmente pesquisa linchamento virtual em sites de redes sociais.

More Posts

Deixe um comentário