A Representação do Eu na Vida Cotidiana – capítulo 06

Neste capítulo, Goffman aborda os atributos que um ator necessita para representar, com sucesso, um personagem. Contudo, frisa que é importante lembrar, antes, alguns tipos de rupturas da representação (ou incidentes) que podem ocorrer, pois as técnicas de manipulação da impressão buscarão evitá-las ou atenuá-las. (p. 191 – 194)

1. Gestos Involuntários

Ator deve agir com expressiva responsabilidade, visto que algumas ações transmitem impressões inapropriadas ao momento.

2. Intromissões inoportunas

Quando um estranho entra numa região onde ocorre uma representação ou a plateia tem acesso inadvertidamente aos bastidores, os atores presentes podem ser vistas em uma atividade que é incompatível com a impressão que ela tem “obrigação” de manter. Essas intromissões geram riscos de comprometer a projeção do ator e a imagem da própria equipe.

Exemplos: temas de uma conversa; pessoas que não vê há algum tempo etc.

3. Faux Pas (gafe, mancada ou ratas)

Faux Pas são fontes de embaraços e dissonâncias que não estavam nos planos da pessoa responsável por eles e que seriam evitados se a pessoa soubesse de antemão as consequências de sua atividade.

4. Cenas

Situações nas quais o indivíduo age de modo a destruir ou ameaçar seriamente a aparência de cortesia da convivência e mesmo sem o objetivo de gerar dissonância, age sabendo que há a probabilidade dela ocorrer.

Exemplos de cena:

  • Críticas que escapam na encenação de uma equipe.
  • Plateia decide não fazer mais o jogo da interação cortês.
  • Julgamentos de crimes (institucionalizaram a discordância aberta)
  • A interação entre duas pessoas fica tão acalorada que outras pessoas tornam-se testemunhas ou mesmo tomam posições no “barulho”.
  • Quando o ator reivindica da plateia uma aprovação, ou seja, que ela faça parte da sua equipe na representação. Se isso for negado, o indivíduo sofre o que se chama de humilhação.

A fim de evitar os incidentes e o embaraço consequente, será necessário que os participantes da interação possuam certos atributos e os expressem em práticas empregadas para salvar o espetáculo (interação).

Atributos e Práticas Defensivas (p. 195)

1. Lealdade Dramatúrgica

Se uma equipe quiser manter uma linha de ação que adotou, os membros desta equipe devem agir como se tivessem certas obrigações morais, ou seja, não devem trair os segredos da equipe nos intervalos das representações.

Exemplos: crianças (pais) e criados (patrões).

Uma técnica básica para a lealdade dramatúrgica é a solidariedade dentro da equipe. Uma vez que a equipe está formada (comunidade social) e cada ator possui um lugar e apoio moral, todos passam a agir de forma solidária defendendo e reforçando a atuação uns aos outros.

Outra técnica para neutralizar o perigo dos laços afetivos entre atores e plateia é na mudança periódica de público. (Exemplo: Gerentes de postos, banco etc.).

2. Disciplina Dramatúrgica (p. 198)

É essencial para a manutenção da representação da equipe que cada membro possua disciplina dramatúrgica e a exerça ao apresentar seu próprio papel. Ou seja, o ator deve evitar ser levado pelo seu próprio espetáculo, a fim de que não destrua sua tarefa de montar uma encenação bem sucedida.

O ator disciplinado dramaturgicamente é aquele que se lembra do seu papel e não comete os Faux Pas ao desempenhá-lo. Este consegue encobrir institivamente um comportamento inadequado por parte de seus companheiros de equipe, enquanto mantém a impressão de que está simplesmente executando seu papel. (198).

Caso não consiga evitar ou encobrir uma ruptura na sua representação, o ator disciplinado está preparado para dar uma razão plausível que justifique o acontecimento da ruptura, diminuindo a importância dela, ou uma profunda desculpa e auto-depreciação para reintegrar os responsáveis por ela.

Ele tem autocontrole. Consegue suprimir sua resposta emocional a seus problemas pessoais. Ou seja, consegue suprimir seus sentimentos espontâneos, a fim de dar a impressão de não abandonar a linha emocional (o status quo expressivo) estabelecida pela representação de sua equipe. Pois a demonstração de uma afetividade condenável pode por revelar uma transgressão do consenso operacional.

Domínio do rosto e da voz. A resposta emocional verdadeira precisará ser substituída por outra que seja adequada na situação em que está envolvido.

3. Circunspecção Dramatúrgica (p. 200)

Goffman cita a importância da lealdade e da disciplina dramatúrgica para o espetáculo encenado ser mantido. E como o planejamento e previsão da equipe antes da encenação pode contribuir no sucesso do espetáculo.

No interesse da equipe, deve-se exigir dos atores que sejam prudentes e circunspectos ao representar o espetáculo, preparando-se antecipadamente para prováveis contingências e explorando as oportunidades restantes (200).

O ator prudente tentará selecionar a plateia que lhe cause o mínimo de dificuldades, em termos do espetáculo que quer encenar e do espetáculo que não deseja representar. Exemplo: professor. Alunos iniciantes e alunos de últimas séries.

Goffman cita que quanto menores (equipe e plateia) menor é a possibilidade de erros e dificuldades/traições. Exemplo do vendedor: chapéu no rio de janeiro.

Contudo, pontua que há representações que não podem ser executadas sem a assistência técnica de considerável número de companheiros de equipe.

Se o ator quiser ser dramaturgicamente prudente terá de adaptar sua representação às condições de informação sob as quais deve ser encenada. Quanto maior for a informação que a plateia tenha sobre o ator, menor a probabilidade de que os fatos percebidos durante a interação a influenciem radicalmente. Por outro lado, quando não há informação anterior, é de se esperar que a informação colhida na interação seja decisiva. Por isso, é de se esperar que o ator afrouxe a manutenção da fachada na presença de pessoas que conhecem há tempos e estreitem na presença de pessoas de conhecimento recente ( ou seja, sua representação é mais cuidadosa). (204).

Exemplo: vendedor de roupa. Vendedor de móveis.

O afrouxamento das aparências também se dá em situações nas quais a equipe está fisicamente distante do público que a inspeciona. Quando o público não observa os atores podem adotar posturas mais descontraídas ou mesmo posturas que este público perceberia como inapropriadas em uma determinada situação. Exemplo: crianças na sala de aula.

Por fim, Goffman fala sobre outro modo de circunspeção dramatúrgica, quando uma equipe chega à presença imediata de outra e a impressão geral é incompatível com a impressão alimentada (característica básica da relação face a face). Uma estratégia é selecionar companheiros de equipe leais e disciplinados para que a interação não fique desajeitada. Outro método é preparar-se para as contingências expressivas possíveis. Exemplo: reunião de trabalho / apresentação.

A encenação bem ensaiada pode ser bem sucedida desde que não corra algum acontecimento inesperado que quebre a sequencia prevista dos atos. Uma vez rompida a sequencia os atores podem ser incapazes de reajustar a interação a partir de onde foi rompida.

Práticas Protetoras (p. 210)

 Goffman apresentou 3 atributos para que os membros de uma equipe representem com segurança: lealdade, disciplina e circunspecção. Para cada uma apresentou uma série de técnicas defensivas. Outras, como o controle do acesso à região de fundo e de frente, ele examinou nos capítulos anteriores.

Neste capítulo, Goffman vai falar que a maioria destas técnicas defensivas de manipulação da impressão geram uma tendência discreta do público e dos estranhos de agirem de forma protetora, a fim de ajudar os atores a defenderem o seu próprio espetáculo.

a) O acesso a região de fundo e de frente é controlado não só pelo autor, mas por outras pessoas. As pessoas se afastam naturalmente das regiões as quais não foram chamadas. Se fazem isso, dão algum sinal da intrusão (batida, licença etc.).

b) quando a interação tem que continuar mesmo com a presença de estranhos, estes se mostram de forma desinteressada (desatenção discreta. Pode variar de sociedade/cultura).

c) Uma vez que o público é admitido na representação, espera-se dele uma série de comportamentos para manter o equilíbrio interacional. Demonstração de atenção, interesse, boa vontade para refrear o próprio desempenho para não introduzir demasiadas interrupções ou pedidos de atenção. Ou evitar declarações ou atos que podem criar Faux Pas. Acima de tudo, o desejo de evitar uma cena. (211).

d) Quando há alguma discrepância na impressão suscitada e a realidade revelada, a plateia pode “não notar” o lapso ou aceitar prontamente a desculpa oferecida para justificá-la.

e) Por fim, cita outro acordo tácito que é quando a plateia sabe que o ator é um principiante e, por isso, mais sujeito a cometer erros embaraçosos. Em geral a plateia irá mostrar uma consideração especial, abstendo-se de causar dificuldades.

Goffman cita que se os atores perceberem o tato da plateia (e a plateia perceber que os atores perceberam suas práticas protetoras), momentaneamente, as linhas de divisão entre as equipes podem sumir e a estrutura dramatúrgica da interação social é subitamente posta a nu. Em seguida, as equipes retornam para seus personagens determinados e respectivas linhas de ação.

O Tato com Relação ao Tato (p. 214-217)

 Duas Estratégias:

  1. O ator deve ser sensível às insinuações e estar disposto a aceita-las, pois é mediante as indicações que a plateia pode avisá-lo que seu espetáculo é inaceitável e que faria melhor em modifica-lo rapidamente se quiser salvar a situação.
  2. Se o ator tiver de não representar devidamente os fatos, deve fazer isso de acordo com a etiqueta adequada às falsas representações. Ao dizer uma inverdade, por exemplo, o ator deve guardar uma sobra de troça na voz, para caso seja apanhado possa negar qualquer pretensão de seriedade e dizer que estava apenas gracejando .

Goffman finaliza com uma lista de elementos dramatúrgicos da situação humana:

  • problemas de encenação em comum;
  • preocupação pela maneira como as coisas são vistas;
  • sentimentos de vergonha justificados e injustificados;
  • ambivalência com relação a si mesmo e ao seu público.

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Sócio da PaperCliQ - Comunicação e Estratégia Digital.

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