A minha intimidade. Eu te dedico.

 

Por: Thais Miranda  

Uma das questões que mais me inquietam, nesse momento, por conta da minha pesquisa de doutorado e consequente área de interesse, é a discussão que gravita em torno daquilo que pode ser considerado público e/ou privado, na contemporaneidade. Claro que essa reflexão, que não é nova, ganha uma complexidade a partir dos ambientes digitais – e é isso que nos instiga. Recentemente, uma amiga postou no meu mural do Facebook, um link muito interessante e que me fez pensar, mais uma vez, sobre tais questões. Tratava-se de um tumblr de nome “o livro é seu. eu te dedico”. Fiquei fascinada, mas ao mesmo tempo um tanto intrigada. A ideia é compartilhar dedicatórias de livros que as pessoas recebem de presente, juntamente com a foto do livro e do texto em si, a dedicatória.

Sobre o projeto, a organizadora, que se identifica como marianagogu@gmail.com, explica: “Um livro com dedicatória é um livro com duas histórias, uma que começa no primeiro capítulo e uma que começou antes de se passarem as páginas. Dedicar é gravar uma intenção ou sentimento, e a proposta deste projeto é registrá-los. Contribua!”. Para além de achar muito bonitinha e curiosa a iniciativa – e de passar um bom tempo lendo dedicatórias de livros de ilustres desconhecidos -, as minhas questões de pesquisa voltaram a inquietar: o que leva os indivíduos a compartilharem e exibirem dedicatórias de livros que receberam de seus namorados, namoradas, amantes, pais, filhos, amigos? E mais: o que levam as pessoas a acessarem o site e não apenas a lerem, mas a comentarem dedicatórias dos livros alheios? Que necessidade é essa de ver e ser visto, que parece predominar, em tantas esferas antes tidas como “privadas”?

Voltei aos meus livros pessoais e reli dedicatórias tão íntimas, recheadas de lembranças e histórias muito particulares – assim como daquelas pessoas que alimentam, diariamente, o “eu te dedico”. E, de novo, voltamos às mesmas questões: o que está no âmbito da intimidade, afinal? O que pode ser considerado como um ambiente ou assunto público e, por outro lado, o que traduz o termo “privacidade”, nesse cenário das tecnologias digitais?

Thais Miranda

Thais Miranda é doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas (POSCOM/UFBA), com estágio doutoral na Université René Descartes, Paris V, Sorbonne (2013/2014) . É mestre em Administração (2010) e possui graduação em Comunicação Social (1999). Dedica-se à pesquisa sobre pornografia digital amadora e interações em ambientes digitais.

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One Comment
  1. Olá! Primeira vez comentando aqui! Então, eu acho que isso tem muito a ver com aqueles 15 minutos de fama, sabe? Com a web, isso ficou muito mais fácil. Se expor é muito mais simples do que antigamente, quando a gente precisava da mídia de massa e era praticamente impossível conseguir se exibir.

    Hoje, com tanta rede social, todo mundo se expõe – mas aí a atenção do espectador também é mais diluída. Mas ainda é maior do que antes… acho que virou meio fetiche, transformou-se em prática comum. Não acho que as pessoas pensem nas implicações – tantas, algumas até perigosas – que envolvem essa exposição.

    Não sei se ajudei em alguma coisa, mas quis comentar porque também é um assunto que me interessa =)

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