A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Capítulo 7 – O EU E EXPERIÊNCIA NUM MUNDO MEDIADO

THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Ed. Vozes, 2011. Capítulo 07 – O Eu e experiência num mundo mediado.

Este capítulo é dedicado a analisar as questões relacionadas ao eu (self) e a experiência cotidiana num mundo primordialmente mediado. O autor pontua que com o desenvolvimento das sociedades modernas, o processo de formação do self se torna mais reflexivo e aberto, ou seja, os indivíduos dependem cada vez mais dos próprios recursos para construir uma identidade coerente para si mesmos. Ao mesmo tempo, considera que o processo de formação do self é cada vez mais alimentado por materiais simbólicos mediados que enfraquecem, no entanto sem destruir, a conexão entre a formação do self e o local compartilhado.

Esta conexão é enfraquecida à medida que se tem acesso a formas de informação e comunicação originárias de fontes distantes – ou seja, acesso crescente ao que é descrito como “conhecimento não local”.  Esta conexão não é totalmente destruída, pois tal conhecimento “não local” é sempre apropriado por indivíduos em locais específicos e sua importância prática depende diretamente dos interesses dos receptores e dos recursos que lhes são disponíveis.

O desenvolvimento da mídia enriquece, transforma o processo de formação do self e ainda produz um novo tipo de intimidade até então inexistente e que se diferencia daquela vivida nas interações face a face (essencialmente recíprocas). Com o desenvolvimento da interação mediada (cartas, telefone), os indivíduos podem desenvolver formas de intimidade recíproca, mas que carecem de algumas características típicas associadas à partilha de um local comum. Já na quase-interação mediada podem emergir formas de intimidade essencialmente não recíproca (ex. relação fã/ídolo). Esta, se por um lado é livre das obrigações recíprocas características da interação face a face, por outro pode gerar uma dependência cuja  inacessibilidade torna o outro um objeto de veneração.

Além de uma nova forma de intimidade, o desenvolvimento da mídia produz uma experiência mista – contrária às tendências das sociedades modernas – a experimentação (via quase-interação. Ex. televisão) de fenômenos dificilmente encontrados na rotina diária (ex. mortes por fome, desidratação,  tiroteio, etc.). Então, se por um lado há a perda das experiências locais espaço-temporais, por outro há a profusão de experiências mediadas e a rotineira mistura de experiências que muitos não encontrariam face a face.

Thompson ressalta o deslocamento simbólico como um problema atual derivado das experiências mediadas, que envolve a dificuldade para dar sentido a fenômenos que desafiam a compreensão dos indivíduos. E levanta alguns questionamentos relacionados a isto: num mundo onde a capacidade de experimentar não está mais ligada à atividade do encontro, como podem relacionar experiências mediadas aos contextos práticos da vida cotidiana? Como se podem relacionar com eventos que acontecem em locais distantes dos contextos em que vivem e como podem assimilar a experiência de acontecimentos distantes numa trajetória coerente de vida que devem construir para si mesmos?

O self como projeto simbólico

Thompson critica as concepções empobrecidas do self oriundas das tradições estruturalistas, em que este é visto como um produto ou idealização de sistemas simbólicos que o precedem. Conforme ele pontua, os sistemas simbólicos dominantes (“ideologias”/ “discursos”) não definem em si os movimentos do indivíduo na formação do self como num jogo de xadrez, apenas apontam quais movimentos estão ou não abertos ao indivíduo. Desta forma, Thompson propõe uma explicação de self baseada na tradição hermenêutica que diverge fundamentalmente desta estruturalista, ao passo que se aproxima do trabalho de alguns interacionistas simbólicos.

Nesta perspectiva o self não é visto como produto de um sistema simbólico externo, nem como entidade fixa captada pelo indivíduo. O self é considerado um projeto simbólico que o indivíduo constrói ativamente fazendo uso dos materiais simbólicos disponíveis, com os quais vai tecendo uma narrativa coerente da própria identidade. Esta narrativa vai se modificando com o tempo à medida que novos materiais e experiências entram em cena. Dessa forma, a identidade dos indivíduos é redefinida constantemente no curso das suas trajetórias de vida. Mas esta consideração do caráter criativo do self não sugere que ele seja socialmente incondicionado. Pelo contrário: os materiais simbólicos que formam os elementos das identidades que construímos são distribuídos de maneira desigual. Tais recursos não estão disponíveis do mesmo modo a todos e o acesso a eles pode exigir habilidades e/ou condições materiais específicas.

O desenvolvimento dos meios de comunicação teve para Thompson um profundo impacto no processo de autoformação. Antes do desenvolvimento da mídia, os materiais simbólicos empregados na formação do self e o horizonte de compreensão dos indivíduos vinham de contextos de interação face a face. Havia uma relação direta entre autoformação e locais de interação, daí a perspectiva de “conhecimento local” proposta pelo autor. Este transmitido através das gerações por oralidade e adaptado às condições práticas de vida. Com o advento dos meios de comunicação, o processo de formação do self torna-se gradativamente dependente das formas mediadas de comunicação. O conhecimento local vai dando espaço para novas formas de conhecimento não locais, fixadas num substrato material, reproduzidas tecnicamente e transmitidas pela mídia.

Os indivíduos passam a ter acesso a novas formas de conhecimento, não mais transmitidos face a face, ampliando assim seus horizontes de compreensão ao se estenderem para além dos locais imediatos de suas vidas diárias.  Isto enriqueceu a organização reflexiva do self e sua constituição como projeto simbólico, já que o acesso a formas mediadas de comunicação o capacita os indivíduos a usarem um extenso leque de recursos simbólicos, além de serem continuamente confrontados com novas possibilidades, alargando também seus pontos simbólicos de referência.

Para além do enriquecimento, Thompson pontua alguns aspectos negativos do crescente papel da mídia no processo de constituição do self.

  1. A intrusão mediada de mensagens ideológicas (nos contextos práticos da vida diária). Thompson não considera que as formas simbólicas são ideológicas per si, mas se tornam ideológicas somente quando servem para estabelecer e sustentar sistematicamente relações de assimétricas de poder. Para se entender o caráter ideológico das mensagens da mídia deve-se considerar como estas são incorporadas nas vidas dos receptores, como se tornaram parte de seu projeto de formação de self e como são usadas nos contextos práticos de vida. Assim, a reflexiva apropriação das mensagens da mídia pode ter consequências inquietantes para o indivíduo e para as relações de poder, como para a sua manutenção. A depender do contexto, será verificada uma ou outra consequência. Thompson considera o forte papel ideológico das mensagens da mídia na incorporação de formas simbólicas (como masculinidade e feminilidade) ao self.

 

  1. A dupla dependência mediada. Ou seja, a dependência a sistemas sobre os quais o indivíduo tem pouco controle: quanto mais o processo de formação do self se enriquece e se torna reflexivo com as formas simbólicas mediadas, mais o indivíduo se torna dependente dos sistemas da mídia que ficam além do seu controle. Trata-se de uma dependência de instituições e sistemas sociais que proporcionam os meios (materiais e simbólicos) de construção dos projetos de vida. Thompson denominou este fenômeno do paradoxo da reflexividade e dependência, ou nos termos de Beck, individualização e institucionalização.

 

  1. O efeito desorientador da sobrecarga simbólica. (causada pela multiplicidade de mensagens disponíveis). Thompson questiona como os indivíduos podem enfrentar este fluxo sempre crescente de materiais simbólicos mediados. Ressalta o processo seletivo do material que é assimilado como uma das saídas. Outra apontada seria seguir um determinado rumo a partir da opinião de críticos de sua confiança, sejam da TV, sejam dos seus contextos interativos diretos. Estas figuras são as fontes de conselho sobre como os materiais que devem ser interpretados, quais deve ser assimilados, quais devem ser rejeitados. Para enfrentar o constante crescente fluxo de formas simbólicas mediadas, os indivíduos constroem sistemas práticos de conhecimento que lhes permitem examinar minuciosamente opções a partir de materiais mediados e da opinião de profissionais e outros.

 

  1. A absorção do self na quase interação mediada. Situações de extrema confiança nos materiais simbólicos mediados, quando estes se tornam menos um recurso de que eles se servem e incorporam reflexivamente aos seus projetos de vida e mais um objeto de identificação a que eles se apegam forte e emocionalmente. O caráter reflexivo do self desaparece quase imperceptivelmente: o self é absorvido por uma forma de quase interação mediada. Para Thompson esta absorção do self não implica necessariamente numa suspensão da reflexividade, podendo ser considerada uma acentuação do caráter reflexivo. Pois no processo de incorporação reflexiva dos materiais simbólicos mediados, estes podem se tornar fins em si mesmos, como ideais simbólicos ao redor dos quais o indivíduo começa a organizar sua vida e seu sentido – tornando-se uma versão da organização reflexiva do self. No entanto, questiona: por que os materiais simbólicos mediados têm este poder de atração sobre os indivíduos? P. 190

 

Intimidade não recíproca à distância

Dois aspectos da quase interação mediada: produz formas de intimidade à distância (sem compartilhamento espaço-temporal) e de intimidade não recíproca (pois não é dialógica como as intimidades das interações face a face). Estes dois aspectos possuem atrações e custos. Atrações: permitem que se desfrute de alguns benefícios da companhia sem as exigências dos contextos de interações imediatas, permitem a exploração de relações interpessoais vicárias sem entrar na teia de compromissos recíprocos, fazem dos outros distantes companheiros regulares, confiáveis que proporcionam diversão, conselhos, informações, tópicos de conversação. Segundo Thompson, os receptores possuem certa agência na modelagem do tipo de relacionamento que desejam estabelecer com estes “companheiros distantes”, sendo livre a própria concepção que os indivíduos têm daqueles que conhecem através da mídia. A distância dá permanente disponibilidade para que a pessoa possa imaginá-los da forma como gostaria que fossem. No entanto, em alguns casos estas formas de intimidade não recíprocas podem eclipsar outros aspectos, redefinindo outras formas de interação diária, algumas vezes com resultados dolorosos e confusos.

Thompson apresenta as relações fãs/ídolos como exemplos de intimidade não recíproca onde a organização da vida do sujeito gira em torno daquela figura midiática. Isto se torna a preocupação central do self e serve para governar uma parte significante da própria atividade de interação com os outros. Ser fã é uma maneira de se organizar reflexivamente e se comportar no dia a dia. Dessa forma, ser fã é algo que supera a mera relação íntima não recíproca, pois envolve a organização de atividades sociais práticas como colecionar discos, fitas, vídeos, recortes de jornais, revistas, fotos, etc., ir a concertos, escrever cartas a outros membros de fãs-clubes, ocupar-se em conversas regulares, etc.

Este autor acredita que o processo de tornar-se fã pode ser entendido como uma estratégia do self, uma maneira de desenvolver o autoprojeto através da incorporação reflexiva de formas simbólicas associadas à tietagem. Tornar-se fã é uma maneira de estender e consolidar a relação de intimidade não recíproca. Mas uma das atrações mais importantes deste processo é a possibilidade de se tornar parte de um grupo ou comunidade, de desenvolver uma rede de relações sociais com os outros que compartilham a mesma orientação. Ele ressalta a importância das comunidades de fãs como testemunho do fato que ser fã faz parte do projeto de formação do self . Casos-problemas são apontados, como a dependência compulsiva deste estado em que o self vai sendo paulatinamente absorvido pelo mundo do fã. Isto desencadeia dificuldade de percepção da distinção entre os dois mundos, quando o projeto de self se torna inseparável da experiência de ser fã e passa a ser modelado por ela (as narrativas se fundem). Esta fusão do self com o outro (mundo do fã com o mundo da vida cotidiana) faz com que o indivíduo sinta que está perdendo o controle de sua vida.

Dessequestração e Mediação da Experiência

Para além das relações de intimidade não recíproca, Thompson chama atenção para o leque de experiências disponibilizadas pela mídia que os indivíduos não adquirem em contextos práticos da vida. A modernidade institucionalizou diversas experiências anteriormente pertencentes ao contexto prático da vida diária (ex. medicina – processos de institucionalização da saúde). As prisões e os asilos para doentes mentais são mostrados como exemplos mais dramáticos dessa “sequestração” da experiência.  Estas experiências sequestradas da vida prática foram reintroduzidas – e talvez até ampliadas e acentuadas – através da mídia.

A mídia produz um contínuo entrelaçamento de diferentes formas de experiência, uma mistura que torna o dia a dia dos indivíduos muito diferente do experimentado por gerações anteriores. Para compreender esta mistura de diferentes formas, Thompson propõe a distinção entre dois tipos de experiência:

  1. Experiência vivida – adquirida no curso normal e em contextos práticos da vida diária. É imediata, contínua e até certo ponto, pré-reflexiva. São as atividades práticas do nosso dia a dia e de nosso encontro com outros em contextos de interação face a face.
  2. Experiência mediada – adquirida através da interação mediada ou quase interação mediada. Diferencia-se da anterior em diversos aspectos. Thompson vai se restringir a avaliar a experiência adquirida através da quase interação mediada.
    1. Experimentação de eventos distantes espacialmente (e às vezes temporalmente) dos contextos da vida diária – caráter refratário: provavelmente não serão afetados pelas ações destes indivíduos. Fora do alcance/controle de quem os assiste;
    2. Ocorre em contextos diferentes daquele onde o evento de fato ocorre. Toda experiência mediada é recontextualizada: é a experiência de eventos que ocorrem em locais distantes, e são reimplantados através da recepção e apropriação dos produtos da mídia, aos contextos práticos da vida diária.
    3. Possui “relevância estrutural”, ou seja, as experiências são estruturadas em termo de relevância para o self. Como a experiência mediada não é contínua, mas uma sequência descontínua de experiências refratárias espaço-temporalmente, esta adquire graus diferenciados de relevância para o self.
    4. “Não espacialização comunal” – a experiência compartilhada entre os indivíduos não está mais ligada à partilha de um mesmo local comum. Indivíduos possuem experiências similares através da mídia sem compartilhar os mesmos contextos de vida. Embora estes contextos tenham importância crucial na recepção, apropriação e incorporação dos produtos da mídia, o compartilhamento da experiência mediada não se enraíza na proximidade espacial.

 

Novas opções, novas responsabilidades: vivendo num mundo mediado

Esta seção é iniciada com o questionamento sobre o que acontece com o self num mundo onde a experiência mediada desempenha um papel crescente nas vidas diárias. Thompson critica as abordagens pós-modernistas que se resumem a responder a esta questão com a ideia de dissolução, absorção e dispersão do self frente a um jogo de símbolos constantemente mutantes. Para o autor, o self não foi dissolvido, mas sim transformado e as condições de sua formação foram alteradas com o advento da crescente disponibilidade de materiais mediados. Assim, entendido como um projeto simbólico organizado reflexivamente, o self torna-se cada vez mais desembaraçado dos locais e contextos da vida cotidiana.

Para o autor, viver num mundo mediado implica um contínuo entrelaçamento de diferentes formas de experiência. Enquanto as experiências vividas permanecem fundamentais, as mediadas assumem um papel cada vez maior no processo de formação do self. Isto provoca uma nova dinâmica na qual o imediatismo da experiência vivida e as reivindicações morais associadas à interação face-a-face jogam constantemente contra as demandas e as responsabilidades provenientes da experiência mediada. Thompson finaliza o capítulo lançando mão dessa nova circunstância moral que põe em foco questões complexas relativas, entre outras coisas, ao impacto de longo alcance da ação humana e os riscos associados a este alcance num mundo em crescente interconexão.

 

 

Bianca Becker

Bianca Becker é psicóloga. Doutoranda e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento, linha de pesquisa Infância e Contextos Culturais, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia – PPGPSI, da Universidade Federal da Bahia/UFBA. Membro do Grupo de Pesquisa em Interações Sociais, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e do Grupo de Pesquisa em Brincadeiras e Contextos Culturais (PPGPSI/UFBA). Desenvolve pesquisa sobre a brincadeira como fenômeno do desenvolvimento e prática/produto cultural em seus diversos contextos; com foco especial às relações lúdicas de crianças e adolescentes com as tecnologias digitais.

More Posts

Deixe um comentário