A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Capítulo 03: O ADVENTO DA INTERAÇÃO MEDIADA

THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia.  Petrópolis: Ed. Vozes, 2011. Capítulo 03: o advento da interação mediada, p.  117-158.

Durante a maior parte da história humana as interações sociais foram face a face, ou seja, a partir da aproximação e do intercâmbio de formas simbólicas dentro de ambientes físicos compartilhados. Interações estas, marcadas pelas tradições orais, que se manifestavam a partir de um contínuo processo de renovação/reinvenção, através de inúmeros atos criativos. Eram, portanto, abertas em conteúdo e restritas em termos de alcance geográfico (dependiam da interação face a face e do deslocamento físico dos indivíduos).

O desenvolvimento dos meios de comunicação a partir do século XV cria novas formas de ação e interação e novos tipos de relacionamentos sociais. Promove uma complexa reorganização dos padrões de interação humana através do tempo e do espaço. A comunicação se dissocia do ambiente físico e propicia a interação entre indivíduos que não compartilham o mesmo ambiente espaço-temporal (através de novas formas de ‘ação à distância’), diferenciando-se assim das interações face a face. Nesta perspectiva, Thompson apresenta o desenvolvimento de uma estrutura conceitual para a análise das formas de ação e interação criadas pela mídia.

Três tipos de interação

Thompson define três tipos de situação interativa: interação face a face, interação mediada e quase interação mediada.

  1. Interação face a face: funciona num contexto de co-presença, pois os participantes possuem o mesmo referencial de tempo e espaço. Possui um caráter dialógico do fluxo de informação e comunicação (ida-volta), os participantes empregam uma multiplicidade de deixas simbólicas (não verbais) para transmitir mensagens e interpretar as que recebem. A comparação, interpretação e compreensão dessas deixas simbólicas ajudam a reduzir a ambiguidade e clarificar a compreensão da mensagem. Se estas deixas apresentam inconsistência, isto pode se tornar fonte de confusão ou ameaça da continuidade da interação.
  1. Interação mediada: implica o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas, etc.) que possibilitam a transmissão de informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo ou em ambos. Ela se estende no tempo e no espaço e prescinde da co-presença, já que os participantes podem estar em contextos espaciais ou temporais distintos. Não há compartilhamento dos mesmos referenciais espaciais e temporais, assim não se pode presumir o entendimento direto das expressões denotativas (aqui, este, aquele, etc.). Este tipo de interação implica num certo estreitamento na possibilidade de deixas simbólicas disponíveis aos participantes, fornecendo então poucos dispositivos simbólicos para a redução da ambiguidade na comunicação. Por este motivo, possui um caráter mais aberto que as interações face a face, já que os indivíduos necessitarão recorrer a recursos próprios para interpretar as mensagens transmitidas.
  1. Quase interação mediada(*): termo usado para as relações sociais estabelecidas pelos meios de comunicação de massa (livros, jornais, radio, televisão, etc.). Implica numa extensa disponibilidade de informação e conteúdo simbólico no espaço e no tempo. Em muitos casos também envolve um estreitamento na disponibilidade de deixas simbólicas, se comparadas à face a face. Diferencia-se das demais formas de interação em dois aspectos-chave: as formas simbólicas são produzidas para um número indefinido de receptores potenciais e possui um caráter quase monológico, isto é, o fluxo da comunicação é predominantemente de sentido único. Estas duas características a colocam como um tipo de quase-interação, pois não possui o grau de reciprocidade interpessoal de outras formas de interação, mas ainda assim é, segundo Thompson, uma forma de interação. É uma situação estruturada na qual alguns indivíduos se ocupam na produção de formas simbólicas para outros que não estão fisicamente presentes, enquanto estes se ocupam em receber formas simbólicas produzidas por outros a quem não podem responder, mas com quem podem criar laços de amizade, afeto, lealdade.

Thompson alerta, no entanto, que muitas situações interacionais da vida cotidiana possuem caráter híbrido, envolvendo uma mistura de diferentes formas de interação e estas não esgotam os possíveis cenários de interação. Outras formas podem ser criadas a partir do desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação que permitem um maior grau de receptividade.

Antes da modernidade na Europa, para se estabelecer interações mediadas ou quase mediadas era necessário o domínio de habilidades especiais como a leitura e a escrita – reservadas a setores restritos da sociedade, daí a maioria das interações até este período ser face a face. O surgimento da indústria da imprensa e posteriormente a emergência dos diversos meios eletrônicos abriu espaço para a disseminação das formas de interação mediadas e quase mediadas, modificando paulatinamente as características da vida social do mundo moderno, agora repleto de interações que perderam seu caráter imediato.

A organização social da quase interação mediada

Para examinar características específicas da quase interação mediada Thompson cita o trabalho de Goffman “A representação do eu na vida cotidiana” que afirma que toda ação acontece dentro de uma estrutura interativa particular que implica certas suposições e convenções, como também características físicas do ambiente. O indivíduo tende a adaptar seu comportamento a esta estrutura, procurando projetar uma imagem de si mesmo mais ou menos compatível com ela e com a impressão que quer transmitir. A estrutura de ação e as características acentuadas pelos indivíduos agindo dentro dela compreendem aquilo que Goffman chamou de “região de frente”. As ações e expressões pessoais que se sentem inapropriadas ou que poderiam desacreditar a imagem que a pessoa está procurando projetar são suprimidas e reservadas para outros ambientes e encontros – descritos como “regiões de fundo”. As imagens projetadas nas regiões de frente e de fundo são geralmente contraditórias. Nestas últimas, os indivíduos relaxam e baixam a guarda, isto é, não se empenham tanto em monitorar as próprias ações com o mesmo grau de reflexividade geralmente exigido nas regiões de frente.

Apesar das fronteiras das regiões de frente e de fundo serem normalmente mutáveis, a passagem de uma região à outra costuma ser estritamente controlada, uma vez que os comportamentos de fundo podem comprometer a impressão que os indivíduos e organizações desejam cultivar. O uso de meios técnicos pode ter um impacto bastante profundo na natureza e nas relações entre as regiões de frente e de fundo. A interação mediada estabelece uma estrutura interativa que consiste em duas ou mais regiões de frente separadas no espaço e talvez também no tempo. Cada uma delas com suas próprias regiões de fundo, e cada participante da interação deverá administrar a distância entre elas. No caso das interações quase mediadas (que partem da estrutura interativa de produção para as múltiplas estruturas interativas de recepção das formas simbólicas num sentido unidirecional), a região de frente da estrutura de produção é acessível aos receptores, mas o contrário não ocorre: as regiões das esferas de recepção não interferem diretamente na estrutura de produção, e por isso não são regiões de frente e de fundo relativas a esta estrutura.

Sobre a televisão como marca característica da quase interação mediada.

Uma de suas conquistas técnicas é sua capacidade de utilizar uma grande quantidade de deixas simbólicas tanto auditivas quanto visuais. Possui uma riqueza simbólica com as características das interações face a face, contudo o grau de variedade de deixas simbólicas disponíveis aos expectadores é diferente das que são acessíveis nas interações face a face. Embora a televisão seja mais rica de termos simbólicos do que muitos meios técnicos, há um conjunto de deixas simbólicas que não podem ser transmitidas por ela, tais como as associadas ao tato e ao olfato. Além disso, os participantes da quase-interação criada pela televisão são privados dos tipos contínuos de feedback que são características da interação face a face e que são rotineiramente incorporados para monitorar reflexivamente a própria conduta.

Assim como as demais formas de interação mediada e quase mediada as informações transmitidas têm uma disponibilidade dilatada no tempo e no espaço, mas no caso da televisão, os indivíduos que se comunicam através dela podem ser vistos agindo dentro de um específico contexto espaço-temporal. Para examinar mais detalhadamente esta questão, Thompson propõe a distinção de três conjuntos de coordenadas espaço-temporais.

  1. Coordenadas espaço-temporais de produção – do contexto dentro do qual os comunicadores agem e interagem uns com os outros
  2. Coordenadas espaço-temporais da mensagem televisiva em si mesma – cujas características podem ou não coincidir com a características do contexto de produção, disfarçadas ou redefinidas pela edição ou outras técnicas
  3. Coordenadas espaço-temporais dos diversos contextos de recepção.

Segundo Thompson, a quase interação proporcionada pela televisão implica num processo de trançamento desses três conjuntos de coordenadas, denominado “interpolação espaço-temporal”. Ao receber as mensagens televisivas, os indivíduos se orientam rotineiramente para coordenadas espaço-temporais diferentes das que caracterizam seus contextos de recepção, e as interpolam com as estruturas espaço-temporais das suas vidas diárias. Dessa forma, cria-se o que este autor chamou de experiência espaço-temporal descontínua ao se suspender temporariamente as coordenadas espaço-temporais do cotidiano e se deixar transportar para um conjunto de coordenadas espaço-temporais diferente. A capacidade de transacionar com estas diferentes estruturas e retornar em segurança para os contextos da vida ordinária faz parte das habilidades possuídas pelo indivíduo como competente espectador televisivo.

A interpolação espaço-temporal pressuposta nessa quase interação envolve um mundo real e um mundo imaginário e os espectadores são continuamente instados a transacionar com as fronteiras que os identificam. Daí a quase interação televisiva pode ser analisada em termos da intersecção dos diferentes planos de coordenadas espaço-temporais. As experiências espaço-tempo dos seus participantes se tornam cada vez mais descontínuas à medida que vão sendo capazes de se locomoverem através dos mundos, tanto reais quanto imaginários.

A televisão também pode ser analisada a partir do seu caráter monológico: fluxo de mensagens em sentido único – dos produtores para os receptores. Devido a este caráter e à separação dos contextos, a quase interação televisiva seria desligada de monitorização reflexiva das respostas alheias que é rotineira e constante nas interações face a face ou nas interações mediadas dialógicas, onde os indivíduos levam em conta as respostas alheias e modificam suas ações subsequentes a depender destas. Isto pode se tornar um empecilho aos produtores por não poderem verificar o grau de recepção e entendimento das mensagens. Já os receptores, se por um lado podem controlar a natureza e a extensão da sua participação e utilizar esta quase interação para fins próprios, têm muito pouco poder de intervir e determinar o curso e o conteúdo desta quase interação.

Numa quase interação mediada televisiva, os receptores entram em contato, não com os produtores em si, mas com as personalidades, cujos traços são definidos pela região de frente da esfera de produção. Estas personalidades são construídas à distância, e os receptores as identificam como produtores das formas simbólicas, com os quais estabelecem relação de simpatia ou antipatia. Como seus traços não podem ser retocados pela interação dialógica (típica da interação face a face), estas personalidades adquirem uma aura que se sustenta em parte pela distância que os separam dos receptores. Para os produtores, os receptores são em maioria anônimos e invisíveis espectadores de uma representação para a qual não podem contribuir diretamente, mas sem os quais ela não existiria. A televisibilidade não é recíproca com relação a produtores e receptores, pois os primeiros podem ser vistos e ouvidos, mas não podem ouvir pelos segundos. A relação entre eles não é de parceira co-presencial, mas de dependência mútua.

Ação à distância (1): Representando para outros distantes.

Para além das novas formas de ação, os novos meios de comunicação propiciam novos tipos de ação que têm características e consequências bem distintas – ações à distância, que dilatam o alcance da ação humana no espaço e no tempo de maneira imprevista e as vezes imprevisível.

No contexto de produção das formas simbólicas, apesar dos produtores não estarem diretamente ligados aos receptores, suas ações se voltam a estes. Thompson define quatro formas de ação à distância nesta quase interação: destino receptor, cotidiano mediado, eventos mediados e ação ficcional.

  1. Destino receptor: ação à distância do tipo mais direto, ainda que possa ocorrer indiretamente. O destino receptor direto ocorre quando os produtores se colocam diante das câmeras e falam diretamente para ela (num monólogo) de modo que os espectadores tenham a impressão que estão sendo diretamente interpelados. O caráter pessoal desta forma de ação requer um equilíbrio exato entre a solenidade e a intimidade – e isto irá interferir no layout da região de frente apresentada. No destino receptor indireto, a região de frente da esfera de produção se torna o lugar de interação face a face entre produtores, que interagindo uns com os outros, indiretamente se dirigem para uma variedade de receptores ausentes. Dessa forma, são combinados monólogos com diálogos, criando-se uma situação em que a audiência se divide em participantes co-presentes (face a face) e espectadores ausentes (quase mediada).
  1. Atividade cotidiana mediada: faz parte do conjunto de ações da vida cotidiana. A região frontal da esfera de produção é então o conjunto de ações e interações que compõem a vida cotidiana de indivíduos que as realizam ou que participam delas. Ao serem filmadas e transmitidas para um mundo de receptores distantes, tais ações cotidianas também podem sofrer transformações. Quando o indivíduo não se percebe ser filmado, as ações são orientadas para receptores ausentes (sem destino receptor). Quando se sabe filmado, este tende a orientar seu comportamento tanto a seu contexto direto quanto em direção aos receptores ausentes e toda a sua conduta é balizada por esta orientação dual. Outro tipo é a atividade cotidiana simulada que ocorre quando se pretende agir ou interagir de uma forma comum com o único escopo de ser filmado (ex. torcidas nos estádios).
  1. Eventos da mídia: grandes ocasiões cuidadosamente planejadas com antecedência, transmitidas ao vivo e que interrompem o fluxo normal dos acontecimentos. São comumente anunciados com antecedência com vistas a criar crescente expectativa (ex. casamentos reais, funerais de personalidades).
  1. Ação ficcional: grande parte dos produtos da mídia televisiva possui este caráter. Diz respeito à construção de uma história fictícia e representada por indivíduos que possuem consciência disso e que são percebidos por receptores distantes que também possuem esta consciência. Thompson difere esta quarta forma de ação ciente que mesmo as formas anteriores possuem graus de ficção em suas apresentações, mas estes pontos não são seu foco de interesse nesta obra.

Ação à distância (2): Ação responsiva em contextos distantes

Assim como os meios de comunicação fizeram surgir novas formas de ação à distância, também criaram novos tipos de “ação responsiva”, que acontecem em contextos bem distantes dos contextos de produção, graças ao distanciamento espaço-temporal. Sabe-se que o contexto espaço-temporal de recepção não se sobrepõe ao de produção e que existem múltiplos contextos de recepção que não se sobrepõem uns aos outros, embora possam partilhar certas características.

Thompson descreve o processo de mediação estendida ao se referir a apropriação das mensagens da mídia por outras organizações e sua incorporação em novas mensagens. (ex. um telejornal relatar o que um ministro disse sobre um fato de relevância nacional). Ele utiliza o termo “apropriação” (no sentido de tornar próprio algo que é alheio ou estranho) para destacar a propagação do processo de recepção das mensagens.

Como a quase interação mediada torna as mensagens disponíveis para um número indefinido de receptores, a diversidade dos atributos sociais que ocorrem no processo de sua recepção é muito maior que a encontrada nas interações face a face, afetando as maneiras como cada receptor se relaciona com as mensagens recebidas e as integra em sua vida. A recepção e a apropriação das mensagens da mídia são maneiras de responder aos outros espacial e temporalmente distantes.

As formas conjuntas de ação responsiva dizem respeito à respostas semelhantes ou até mesmo explicitamente coordenadas entre os múltiplos contextos de recepção da mensagem (ex. surto de compras ao ser anunciado a iminência do aumento de preço de determinado produto). Reconhecemos ainda um segundo tipo de ação conjunta: aquelas propiciadas pelos mecanismos planejados (pelos produtores) para coordenar a resposta do receptor (ex. risos ou aplausos pré-gravados em sequências humorísticas, uso de plateia em regiões frontais das esferas de produção). A estrutura da quase interação mediada não permite, no entanto o controle das reações individuais às mensagens, logo, não há como garantir que o uso destes mecanismos intencionais produziu de fato a ação responsiva conjunta. Uma terceira forma de ação responsiva conjunta se refere àquelas estimuladas e alimentadas por imagens, ações e expressões mediadas e nestes casos, destaca-se o papel da mídia como importante fonte de elementos que provocam e sustentam as ações concertadas de indivíduos.

Assim, os meios de comunicação de massa, especialmente a televisão, introduzem novos e fundamentalmente importantes elementos na vida política e social ao tornar disponível aos indivíduos imagens e informações de acontecimentos que acontecem em lugares muito além dos seus ambientes sociais imediatos. Esta ação estimula ou intensifica formas de ações coletivas responsivas difíceis de controlar pelos mecanismos de poder estabelecidos. Este fenômeno demonstra que a mídia não se preocupa em apenas descrever o mundo social, mas se envolve ativamente na construção deste mundo social, modelando e influenciando o curso dos acontecimentos e ainda criando acontecimentos que poderiam não ter acontecido em sua ausência. Portanto, apesar do sentido único característico das interações quase mediadas, nas reais circunstâncias da vida social os padrões de fluxo de informação são quase sempre muito mais complexos. O crescimento dos múltiplos canais de comunicação e informação contribuiu significativamente para a complexidade e imprevisibilidade de um mundo já extremamente complexo.

(*) Nota: A 1a (1998) e a 15a (2014) edições em língua portuguesa do livro Mídia e Modernidade: uma teoria social da Mídia de John B. Thompson apresentam  diferentes traduções para o termo “Mediated quasi-interaction“: interação quase mediada e quase interação mediada, respectivamente. Esta resenha adota o termo apresentado na sua edição mais recente: quase interação mediada.

Bianca Becker

Bianca Becker é psicóloga. Doutora e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento, linha de pesquisa Infância e Contextos Culturais, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia – PPGPSI, da Universidade Federal da Bahia/UFBA. Membro do Grupo de Pesquisa em Interações Sociais, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e do Grupo de Pesquisa em Brincadeiras e Contextos Culturais (PPGPSI/UFBA). Desenvolve pesquisa sobre a brincadeira como fenômeno do desenvolvimento e prática/produto cultural em seus diversos contextos; com foco especial às relações lúdicas de crianças e adolescentes com as tecnologias digitais.

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