A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Capítulo 02: A MÍDIA E O DESENVOLVIMENTO DAS SOCIEDADES MODERNAS

THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia.  Petrópolis: Ed. Vozes, 2011. Capítulo 02 – A Mídia e o Desenvolvimento das Sociedades Modernas, p. 73 – 115.

Quais foram as principais linhas de transformação institucional que constituíram as sociedades da Europa Moderna:

a) Conjunto específico de mudanças econômicas (transição do feudalismo para o modelo capitalista).
b) Processo de mudanças políticas pelas quais as numerosas unidades políticas da Europa Medieval – que foram sendo reduzidas em número e reagrupadas num sistema entrelaçado de estados-nações, cada um reclamando soberania.
c) A Guerra e seu impacto nos processos de alterações políticas – concentração do poder militar nas mãos de estados-nações que reivindicavam o monopólio do uso legítimo da força dentro de um determinado território.

Neste capítulo Thompson demonstra como os teóricos do social e outros têm buscado no lugar errado pelos sinais da sistemática mudança cultural da sociedade moderna. Eles têm tentado detectar largas mudanças nos valores e nas crenças, nas atitudes e nas orientações (mentalités). Essas mudanças são, para Thompson, inapreensíveis, variadas e extremamente complexas. Para isso, propõe uma mudança de foco para os meios de produção e circulação das formas simbólicas no mundo social – assim veremos como essa transformação cultural sistemática começou a ganhar um perfil mais preciso.

1. Algumas Dimensões Institucionais das Sociedades Modernas

Thompson retoma a ideia dos quatro poderes apresentados no primeiro capítulo (econômico, político, coercitivo e simbólico) e aponta que neste capítulo o foco será na organização social do poder simbólico e suas transformações ao longo do tempo.

– Cita, com isso, o processo e desenvolvimento do sistema capitalista na Europa Medieval, passando pelo crescimento das cidades capitalistas, como Amsterdã e Londres, até a Revolução Industrial, criando novos métodos de produção com o uso de máquinas e ramificação de atividades nas fábricas.

– Cita, também, o processo de evolução dos estados-nações na Europa (redução e fusão de unidades políticas, expansão das esferas de influência política/econômica por meio de territórios ultramarinos).

Como a organização social do poder simbólico mudou com o advento das sociedades modernas?

a) Papel das instituições religiosas. Idade Média (Igreja Católica era a instituição central do poder simbólico). Na Idade Moderna, com crescimento do protestantismo (Séc. XVI) houve uma fragmentação da autoridade religiosa.
b) Expansão de sistemas de conhecimento e de instrução (que eram essencialmente secularizados). Desenvolvimento das ciências (Ex.: astronomia, botânica e medicina). Somente a partir do século XIX que os sistemas de educação mais abrangentes foram introduzidos nos estados europeus, fornecendo estruturas nacionais de transmissão de noções e habilidades básicas, como a alfabetização na língua-padrão da nação.
c) Mudança da escrita para a impressão e o consequente desenvolvimento das indústrias da mídia (foco de Thompson no livro).

2. Comunicação, mercantilização e o advento da imprensa

As Indústrias da Mídia se tornaram as novas bases do poder simbólico. Este processo remonta à segunda metade do século XV, com o início e desenvolvimento das técnicas de impressão de textos de Joahnn Gutenberg. Os centros de publicações, neste início, foram países como Alemanha e Itália, seguidos de França Holanda e Inglaterra.

Thompson fala sobre o surgimento das tipografias primitivas – empresas comerciais organizadas nos moldes capitalistas. No início a maioria tinha porte pequeno e limitado, mas já no século XVI Anton Koberger de Nuremberg já tinha uma organização que possuía 24 prensas e cerca de 100 trabalhadores, bem como uma extensa rede comercial interligando os principais centros comerciais da Europa.

Durante um longo período, a Igreja Católica dominou a impressão dos livros censurando aqueles que, segundo ela, haviam conteúdos perniciosos. Esta censura gerou um vigoroso comércio de contrabando de livros na Europa. A imprensa, deste modo, teve papel chave na difusão do protestantismo e na fragmentação da cristandade na Europa moderna e na retomada de textos clássicos (Virgílio, Ovídio, Cícero e outros), estimulando o renascimento e o interesse pela Antiguidade, que já vinha se manifestando entre os italianos desde o século XII.

A imprensa facilitou também, acumular e difundir dados sobre os mundos natural e social, e a desenvolver sistemas padronizados de classificação, representação e prática. Criou-se, assim, um novo fluxo de dados, gráficos, mapas e teorias que seriam consultados, discutidos e debatidos por estudiosos na Europa. Os primeiros leitores destas primeiras editoras foram a elite política e a emergente classe social, mas uma parte também foi consumida por artesãos urbanos e comerciantes. Com isso, iniciou-se o declínio das produções em Latim, adotando a produção de livros nas línguas vernáculas – como alemão, francês e inglês. O crescimento da importância das línguas vernáculas se ligou à consolidação dos estados nacionais e foram importante precondições para a emergência de identidade nacional e de nacionalismo no mundo moderno.

Para Benedict Anderson, a convergência do capitalismo, a tecnologia da impresa e a diversidade de idiomas na Europa do século XV e XVI apressaram a erosão da comunidade sagrada da cristandade e a emergência das “comunidades imaginadas” e que posteriormente se tornaram as bases para a formação da consciência nacional.

A formação das comunidades nacionais, e do sentido de pertença a uma particular nação territorialmente situada, estava ligada ao desenvolvimento de novos sistemas de comunicação que possibilitavam a partilha de símbolos e crenças expressas numa língua comum – insto é, compartilhar o que poderia de uma ser chamado de tradição nacional – ainda que estes indivíduos nunca tenham interagido diretamente (interação quase mediada).

Anderson reconhece que o surgimento da imprensa e meios técnicos de comunicação foram condicionantes para a emergência nacional, mas não foram uma condição suficiente. Outros pontos como a luta contra o colonialismo nos séculos XIX e XX foram importantes na formação dos movimentos nacionais. Segundo Thompson, a argumentação de Anderson é sugestiva, mas não é persuasiva, ou seja, fica-se a percepção de que mesmo a imprensa tenha desempenhado um papel (imprecisamente definido), o surgimento do nacionalismo se deve procurar em outros fatores.

3. O surgimento do comércio de notícias

O desenvolvimento da imprensa transformou os padrões de comunicação no início da Europa moderna através de outras formas, com, por exemplo, uma variedade publicações periódicas que relatavam eventos e transmitiam informações de caráter político e comercial.

Thompson distingue quatro tipos de redes de comunicação anteriores à imprensa: primeiro, havia uma extensa rede de comunicações estabelecidas e controladas pela igreja católica. Segundo, haviam redes de comunicação entre autoridades políticas dos estados e principados. Um terceiro tipo de rede estava ligada à expansão da atividade comercial . Por fij, informações eram transmitidas às cidades e aldeias através de redes de comerciantes, mascates e entretenedores ambulantes, tais como os contadores de histórias e trovadores – que interagiam com mercadores e viajantes em mercados e tabernas.

Essas redes foram submetidas a dois desenvolvimentos-chave (nos séculos XV, XVI e XVII):

a) Alguns Estados começaram a estabelecer serviços postais regulares que rapidamente cresceram em disponibilidade para uso geral (ex.: correio Real na França em 1464).
b) Uso da imprensa na produção e disseminação de notícias. Uma variedade folhetos informativos, pôsteres e cartazes começaram a aparecer. Eram uma miscelânea de sentenças oficiais ou oficiosas, decretos do governo, folhetos polêmicos, descrições de eventos particulares, tais como encontros militares ou desastres naturais, relações sensacionalistas de fenômenos extraordinários ou sobrenaturais, como gigantes, cometas e aparições. Esses folhetos eram publicações avulsas e irregulares, vendidos nas ruas por ambulantes. Na segunda metade do século XVI que passam a surgir as primeiras publicações periódicas de notícias e informações, mas foi nas duas primeiras décadas do século XVII que surgem os primeiros jornais modernos – com publicações semanais e com um maior grau de confiabilidade.

Muitos destes primeiros jornais relatavam acontecimentos estrangeiros, fazendo com que os indivíduos tivessem contato com relatos ocorridos em lugares distantes da Europa – fatos que nunca poderiam testemunhar pessoalmente, em lugares que nunca iriam visitar. Logo em seguida, os jornais passaram a relatar, também, acontecimentos locais e de interesse geral com maior grau de independência do poder do estado – fornecendo informações e comentários críticos.

A força considerável no argumento de que a luta por uma imprensa independente, capaz de reportar e comentar eventos com um mínimo de interferência e controle estatais, desempenhou um papel importante na evolução do estado constitucional moderno. Logo, foram conquistadas garantias legais de liberdade de expressão que foram sendo adotadas por vários governos europeus, de tal modo que no fim do século XIX a liberdade da imprensa tinha se tornado uma questão constitucional em muitos estados ocidentais.

4. A Teoria da Esfera Pública: Uma avaliação preliminar

Thompson cita a importância de obras como a de Habermas “Mudança estrutural da esfera pública”, que argumenta que o desenvolvimento do capitalismo mercantil no século XVI, junto com as transformações institucionais do poder político, criaram as condições para a emergência de um novo tipo de esfera pública nas origens da Europa moderna. Neste contexto o significado de “autoridade pública” migrou do domínio da vida palaciana. Ao mesmo tempo, uma “sociedade civil” emergiu como o domínio das relações de uma economia privatizada que eram estabelecidas soba égide da autoridade pública.

Surgia aí uma esfera pública burguesa que consistia de indivíduos que se reuniam provadamente para debater entre si normas da sociedade civil e da condução do estado. Esta nova esfera pública não fazia parte do estado, mas, pelo contrário, era uma esfera em que as atividades do estado poderiam ser confortadas e sujeitas à crítica. Habermas, então, atribui importância ao surgimento da imprensa periódica – jornais críticos e os semanários morais que começaram a aparecer na Europa no século XVII – tornaram-se lugares de discussão e ambientes sociais onde as elites instruídas podiam interagir entre si e com a nobreza em posição mais ou menos de igualdade.

Na argumentação de Habermas a discussão crítica estimulada pela imprensa teve impacto transformador sobre as formas institucionais dos estados modernos. O Parlamento se tornou cada vez mais aberto ao escrutínio, também se tornou mais aberto à imprensa e teve um papel mais construtivo na formação da opinião pública.

Problemas na explicação de Habermas (segundo Thompson)

1) Uma das críticas mais frequentes à explicação de Habermas é que dirigindo a atenção para a esfera pública burguesa, ele tende a negligenciar a importância de outras formas de discurso e atividades públicas que existiram nos séculos XVII, XVIII e XIX na Europa – formas que fizeram parte da sociabilidade burguesa, e em alguns casos dela foram excluídas ou a ela se opuseram. E.P. Thompson e Christopher Hill focaram na importância e na variedade de movimentos sociais e políticos dos plebeus nas origens da era moderna e Não se pode presumir que estes movimentos derivaram da esfera pública burguesa. O próprio Habermas reconhece a deficiência de seu primeiro enfoque.

2) Pode-se questionar a ênfase de Habermas sobre a imprensa periódica no início do século XVIII. Ele centraliza sua atençãoo neste material, com base em periódicos políticos como o Review e o Examiner que exemplificavam o tipo de crítica e debate que Habermas gostaria de veicular com ideia de esfera pública. Mas estes não foram nem os primeiros, nem os mais comuns entre as primeiras formas de material impresso. Uma vasta gama de materiais estavam em circulação na Europa há pelo menos dois séculos antes do Review e Examiner.

3) O terceiro problema diz respeito à natureza restrita da esfera pública burguesa. Embora a esfera pública burguesa se baseasse no princípio do acesso universal, na prática ela estava restrita a indivíduos que tinham tido educação e meios financeiros para participar dela. Não se percebe muito na explicação dele até que ponto esta esfera não era destinada para elites instruídas e predominantemente masculina. Faltou uma maior valorização desta questão (embora não tenha deixado de ser pontuada pelo teórico). Ele reconheceu, posteriormente, que embora os trabalhadores e camponeses, não só as mulheres, fossem largamente excluídos da esfera pública burguesa, a exclusão destas últimas precisa ser pensada diferentemente, precisamente porque esta exclusão tinha, como Habermas agora observa, importância estrutural”.

4) Os pontos mais fracos da explicação de Habermas são provavelmente no que diz respeito ao suposto declínio da esfera pública burguesa. A separação entre estado e sociedade civil começou a sucumbir à medida que os estados assumiram um crescente caráter intervencionista e maiores responsabilidades na administração do bem comum dos cidadãos. Ao mesmo tempo, as instituições que antes tinham proporcionado fórum para a esfera pública burguesa ou desapareceram ou sofreram mudança radical. Salões e cafés perderam sua importância e a imprensa periódica se tornou parte de um mondo de instituições da mídia que se foi organizando cada vez mais com interesses comerciais de longo alcance. O que antes era um fórum de debate crítico-racional, tornou-se apenas mais um domínio do consumo cultural e a esfera pública burguesa esvazia-se num mundo fictício de imagens e opiniões. Novos meios técnicos sofisticados são empregados para dotar a autoridade pública com aquela aura de prestígio que uma vez eram concedidos às figuras rais pela publicidade encenada das cortes feudais. Esta “refeudalização da esfera pública” torna a política um espetáculo que os políticos e partidos procuram administrar, de tempo em tempo, com o consentimento aclamante da população despolitizada.
Conforme Thompson, a argumentação de Habermas tende a presumir, de um modo questionável, que os receptores dos produtos da mídia são consumidores relativamente passivos que se deixam encantar pelo espetáculo e facilmente manipular pelas técnicas da mídia. Hoje está claro, todavia, que este argumento exagera a passividade dos indivíduos e aceita muito facilmente tal passividade no processo de recepção. Outro problema é na afirmação de que a esfera pública nas sociedades modernas foi “refeudalizada”. Para Thompson, o desenvolvimento dos meios de comunicação criou novas formas de interação, novos tipos de visibilidade e novas redes de difusão de informação no mundo moderno que alteram o caráter simbólico da vida social tão profundamente que qualquer comparação entre política mediada de hoje e práticas teatrais das cortes feudais é, no mínimo, superficial. Precisamos repensar o significado do “caráter público” hoje, num mundo permeado por novas formas de comunicação e de difusão de informações, onde os indivíduos são capazes de interagir com outros e observar pessoas e eventos sem sequer encontrar no mesmo ambiente espaçotemporal.

5. O Crescimento da Indústria da Mídia

Thompson conclui apontando três tendências centrais no desenvolvimento das indústrias da mídia desde o início do século XIX. São três: 1) Transformação das instituições da mídia em interesses comerciais de grande escala. 2) a globalização da comunicação. 3) o desenvolvimento das formas de comunicação

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Cofundador da agência COM Inteligência Digital.

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