A Conversação em tempos de Whatsapp

Segundo dados divulgados pelo Whatsapp (Instant Messenger comprado por 16 bilhões de dólares pelo Site de Rede Social Facebook), em fevereiro de 2014 o Brasil já possuia mais de 38 milhões de usuários – ou seja, 8% da base de mais de 465 milhões de usuários em todo o mundo. Dados como este, reforçam o peso este app adquiriu no país quando o assunto é a sociabilidade por meio de áudios e textos via dispositivos móveis. Isso traz à tona, também, uma reflexão mais profunda sobre como aspectos técnicos e sociais presentes em tecnologias digitais irão (re)configurar dinâmicas interacionais realizadas na contemporaneidade.

Quando o assunto é a Análise da Conversação enquanto forma de compreender determinadas práticas de sociabilidade, torna-se necessário mapear como as interações em apps como o Whatsapp podem  emergir da interface entre o uso que é feito do app (via dispositivos móveis) em consonância com recursos disponíveis (textos, áudio, envio de fotos, criação de grupos etc.). Isso também traz insumos, como consequência, para a revisão de conceitos e definições acerca do que é Conversação na atualidade – uma vez que boa parte dos estudos sobre esta prática foram direcionados para interações do tipo face-a-face.

Por exemplo, conforme aponta o lingüista Luiz Antônio Marcuschi (2001), a conversação pode ser entendida como “uma interação verbal centrada, que se desenvolve durante o tempo em que dois ou mais interlocutores voltam sua atenção visual e cognitiva para uma tarefa comum” (p.15). Neste contexto, a Análise da Conversação teria, então, como seu objetivo inicial, verificar a organização estrutural convencionalizada ou institucionalizada da interação social. Posteriormente ela passa a analisar os processos cooperativos na atividade conversacional, como: as trocas de turnos, os silêncios e lacunas, as falas simultâneas, as regras conversacionais, a coerência conversacional. “O objetivo da análise conversacional é, precisamente, explicitar essas regras que sustentam o funcionamento das trocas comunicativas de todos os gêneros…”. (ORECCHIONI, 2006, p.15).

Percebe-se que tanto Marcuschi, quanto boa parte dos estudiosos da Análise da Conversação, tiveram como foco principal a observação e a compreensão das conversas face-a-face ou por telefone, identificando seus elementos verbais, visuais e contextuais. Para  Marcuschi, a conversação seria marcada pelas seguintes características constitutivas:

 a)      Interação entre pelo menos dois falantes;

b)      Ocorrência de pelo menos uma troca de falantes;

c)      Presença de uma seqüência de ações coordenadas;

d)     Execução de uma identidade temporal;

e)      Envolvimento em uma interação ‘centrada’ (MARCUSCHI, 2006, p.15).

Na contemporaneidade, marcada pelas novas tecnologias da informação e pela comunicação, faz-se necessário ampliar as reflexões feitas por autores como  Marcuschi, observando outros ambientes e contextos interacionais. Desse modo, é possível aprofundar discussões em torno de fenômenos da atualidade, como, por exemplo, os Sites de Redes Sociais e Instant Messengers (tais como o Whatsapp), compreendendo como se dão as conversas nesses ambientes e quais são as rupturas e continuidades existentes nas interações que lá ocorrem.

Nos ambientes online, a conversa tem uma relação estreita com a fala e a escrita através da oralização do texto (ou o “internetês”). Observa-se, também, que o uso de estratégias conversacionais próprias da fala na interação online estão em consonância com os recursos próprios do ambiente no qual essa interação ocorre (HILGERT, 2000). Para compreender a conversação através de ambientes interacionais online, mais especificamente nos Sites de Redes Sociais e Instant Messengers, é necessário, então, mapear quais são os aspectos técnicos que as ferramentas disponibilizam e/ou possuem e quais são as apropriações feitas pelos usuários destas ferramentas, criando, assim novos padrões interacionais (OLIVEIRA, 2008).

Ainda sobre a conversação na Internet, Recuero (2008) argumenta que ela pode ser considerada como síncrona ou assíncrona. Por conversação síncrona, entendemos aqui aquela que ocorrem de forma semelhante à face-a-face, com uma identidade temporal próxima e compartilhada em um mesmo espaço. Nesse tipo de conversa, os pares podem ser identificados com facilidade, bem como os turnos e a centralidade da interação. Já o modelo assíncrono possui uma identidade temporal alargada, podendo ocorrer em mais de um espaço, centrados em um mesmo tópico (tema).

As conversações, síncronas ou assíncronas, independem da tecnologia que está sendo adotada (RECUERO, 2008), pois, em ambos os modelos, podemos encontrar as características listadas por  Marcuschi (2001). Além disso, as ferramentas podem ser apropriadas de diferentes maneiras pelos usuários, criando novas práticas e significados. O próprio Whatsapp, por exemplo, embora inicialmente seja um ambiente de conversação instantânea, pode ser utilizado enquanto um dos usuários está desconectado (tornando-o, assim, um ambiente assíncrono de comunicação). Ainda segundo Recuero, a conversação assíncrona possui poucos estudos, em comparação ao tipo síncrono (largamente estudado no campo acadêmico) o que nos indica uma boa oportunidade para estudos afins.

Em suma, ao pensar na Análise da Conversação no Whatsapp, baseando-se nas características acima (listadas por autores como Marcushi), faz-se necessário levantar questões como:

– Em tempos de internet móvel e Instant Messengers, ainda faz sentido dizer que as conversações possuem início, meio e fim? Há, mesmo, um fechamento nos ditos turnos conversacionais em interações realizadas via apps como Whatsapp ou a conversa também estaria “always on” ?

– Como esta possível “latência” da conversa irá refletir nas relações sociais na vida cotidiana?  Quais impactos essas conversações via Whatsapp podem trazer em diferentes contextos sociais?

– Como e com qual objetivo/frequência o Whatsapp está sendo utilizado no Brasil – com base na feixa-etária de usuários de Internet Móvel no país?

Referências 

HILGERT, José Gaston. A construção do texto ‘falado’ por escrito: a conversação na Internet. In: PRETI, Dino (org.). Fala e escrita em questão. São Paulo:Humanitas. pp.17-55. 2000.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da Conversação. 5. ed. São Paulo: Ática, 2001.

OLIVEIRA, R.S. 2008. Marcas Verbais dos Aspectos Não-Verbais da Conversação nas Salas de Bate-papo na Internet. Seminário. Disponível em: www.abed.org.br, acessado em: 20/06/2008.

RECUERO, Raquel. Elementos para a análise da conversação na comunicação mediada pelo computador. In: Verso e Reverso. São Leopoldo: UNISINOS, vol. 3, p. 1-15, 2008.

Marcel Ayres

Doutorando na linha de Cibercultura na Póscom - UFBA. Especialista em Marketing pela FGV. Pesquisador no Grupo de Pequisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade [Gits - UFBA]. Sócio da PaperCliQ - Comunicação e Estratégia Digital.

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