A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento

No primeiro ciclo de 2018, o GITS está discutindo o livro A construção social da realidade, de Peter Beger e Thomas Luckmann.

A abordagem trazida pelos autores compreende a sociedade como uma realidade ao mesmo tempo objetiva e subjetiva.

Confira a seguir o primeiro fichamento, outros serão postados ao longo das discussões.

Por Marcel Ayres e Thianne Luz

Introdução – O problema da Sociologia do Conhecimento

Os autores apresentam logo no início afirmações que dizem ser fundamentais para o raciocínio desenvolvido ao longo do livro:

– A realidade é construída socialmente;

– A sociologia do conhecimento seria uma forma de analisar os processos que constituem a realidade.

– A realidade seria um fenômenos independentes de nossa volição, “não podemos desejar que não existam” (pg.11).

– O conhecimento seria a certeza de que determinados fenômenos são reais e possuem características específicas.

Ressaltando que existem diferentes realidades na sociedade (relatividade social), os autores definem que a Sociologia do Conhecimento tem como tarefa lidar com a multiplicidade do conhecimento nas sociedades e analisar os processos os quais o conhecimento é socialmente estabelecido como realidade. O conhecimento humano é desenvolvido, transmitido e mantido através das situações sociais. Portanto, “a Sociologia do Conhecimento seria a análise da construção social da realidade” (pg.14).

O surgimento do termo “Sociologia do Conhecimento” foi na Alemanha, na década de 1920, com base em estudos de Max Scheler. Ele era um filósofo e o contexto acabou marginalizando a disciplina em sua origem. Algumas definições foram desenvolvidas e chegou-se a um acordo geral de que a sociologia do conhecimento aborda “as relações entre o pensamento humano e o contexto social” em que ele surge (pg.15).

As base da Sociologia do Conhecimento também estão em Marx (consciência como resultado do ser social), Nietszche (anti-idealismo e a arte da desconfiança) e na perspectiva historicista de Dithley (“localização social do pensamento”)(pg.19).

Por sua vez, Karl Mannheim foi o responsável pela introdução da sociologia do conhecimento na língua inglesa e possuía uma compreensão “mais extensa” que a de Scheler (pg 21). A sociologia do conhecimento torna-se, então, um “método positivo” para o estudo do pensamento humano, sendo este, segundo Mannheim, sempre influenciado por ideologias do seu contexto social. Mannheim cunha o termo “relacionismo” (oposição ao relativismo) e o define como o reconhecimento de que o conhecimento tem sempre de ser um saber a partir de um determinado posicionamento.

Os autores citam alguns autores que falaram sobre a sociologia do conhecimento em suas obras, mas não o fizeram diretamente ou não contribuíram especificamente para o seu desenvolvimento, como Robert Merton, Talcott Parsons, C Wright Mills, Theodor Geiger. Werner Stark é falado como alguém que consegue ir além de Mannheim, e defende que a sociologia do conhecimento “não consiste em desmascarar ou revelar distorções socialmente produzidas, mas no estudo sistemático das condições sociais do conhecimento enquanto tal” (pg.25). Alfred Schtuz, por sua vez, contribuiu dizendo, entre outras coisas, que o conhecimento é socialmente distribuído e esta distribuição pode ser objeto de uma disciplina sociológica.

Berger e Luckmann nos explicam, apoiados em Durkheim e Weber, que “A sociedade possui facticidade objetiva. E a sociedade de fato é construída pela atividade que expressa um significado subjetivo” (…) “a adequada compreensão da “realidade sui generis” da sociedade exige a investigação da maneira pela qual esta sociedade é construída” (pg. 33).

  1. Os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana

– A realidade da vida cotidiana é realidade interpretada pelos humanos e é subjetivamente dotada de sentido.

– “A consciência é sempre intencional” (pg. 37), dirigida para tal ou qual coisa.

– A linguagem tem um papel importante na objetivação da realidade, pois ela “marca as coordenadas da vida na sociedade e enche essa vida de objetos dotados de significação” (pg. 38).

– Experiência física (corporal) na vida cotidiana é colocada como realidade por excelência, mas não seria a única.

– Há a possibilidade de experimentar diversas realidades (ex.: mediações tecnológicas, sonhos, experiências estéticas, religiosas, lúdicas, etc.), mas a “realidade da vida cotidiana” se apresenta em uma posição privilegiada e é predominante.

– A realidade seria um processo de rotinização, aquilo que já faz parte da rotina e o que ainda será apreendido.

– A vida cotidiana é estruturada em dimensões espacial e temporal (esta é intrínseca da consciência), e também social, visto que a realidade cotidiana é intersubjetiva. Não podemos existir sem estar continuamente em interação e comunicação com outros que compartilham a realidade cotidiana.

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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