A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte VII)

Texto por Lisi Barberino e Mariana Matos

Continuação do Capítulo III- A Sociedade como Realidade Subjetiva. Tópicos 1b e 1c 

b) A Socialização Secundária

A socialização secundária é a interiorização de submundos (“realidades parciais” caracterizadas por componentes normativos, afetivos e cognoscitivos) institucionais ou baseados em instituições. É a aquisição de conhecimentos de funções específicas, funções direta ou indiretamente com raízes na divisão do trabalho. Sua extensão e caráter são definidos pela complexidade da divisão do trabalho e concomitantemente a distribuição social do conhecimento (conhecimento como resultado da divisão do trabalho e cujos “portadores” são institucionalmente definidos).

Exige a aquisição de vocabulários específicos de funções (ou seja, interiorização de campos semânticos que estruturam interpretações e condutas de rotina em uma área institucional). Ao mesmo tempo, são também adquiridas “compreensões tácitas”, avaliações e colorações afetivas desses campos semânticos. Eles exigem pelo menos os rudimentos de um aparelho legitimador, frequentemente acompanhado de símbolos rituais ou materiais. O caráter desta socialização secundária depende do status do corpo de conhecimento em questão no interior do conhecimento simbólico em totalidade.

Torna-se não somente por adquirir as habilidades exigidas, mas por ser capaz de compreender e usar essa linguagem (pág. 179). Este processo de interiorização acarreta a identificação subjetiva com a função e suas normas adequadas. Este corpo de significados será sustentado por legitimações que vão de simples máximas até complexas construções mitológicas. Estas legitimações devem ser de natureza compensatória.

Para estabelecer e conservar a coerência, a socialização secundária pressupõe procedimentos conceituais para integrar diferentes corpos de conhecimento.  A aprendizagem se estabelece em termos da estrutura fundamental desse conhecimento. As sequencias de aprendizado podem também ser manipuladas em função dos direitos adquiridos do pessoal que ministra o corpo de conhecimentos. São estabelecidas institucionalmente para reforçar o prestígio das funções em questão ou satisfazer outros interesses ideológicos (pág. 182). A relação da eficácia desse aprendizado com o tom de realidade, na construção a partir da realidade doméstica.

Os processos formais da socialização secundária supõe um processo precedente de socialização primária, isso é, deve tratar com uma personalidade já formada e um mundo já interiorizado. Sejam quais forem os novos conteúdos que devem agora ser interiorizados, precisam sobrepor-se a realidade presente, senão há um problema. O fato de tais processos não pressupõem um alto grau de identificação e seus conteúdos não possuem a qualidade da inevitabilidade podem ser úteis na prática porque permitem sequencias de aprendizado racionais e emocionalmente controladas (em alguns casos é preciso criar técnicas especiais para produzir a identificação e a inevitabilidade julgadas necessárias. As técnicas aplicadas nestes casos destinam-se a intensificar a carga afetiva do processo de socialização, adquirindo uma carga de afetividade de tal grau que a imersão na nova realidade e o devotamento a ela são institucionalmente definidos como necessários. A facilidade com que se sacrifica é evidentemente a conseqüência final deste tipo de socialização – pág. 187). O que cria a necessidade dessa intesificação é a competição entre o pessoal das várias instituições encarregado da definição da realidade.

As funções da socialização secundária têm um alto grau de anonimato, sendo portanto facilmente descartáveis dos executantes individuais. Este formalismo e anonimato estão ligados ao caráter afetivo das relações sociais na socialização secundária. Isso acarreta ao conteúdo daquilo que é ensinado na socialização secundária uma inevitabilidade muito menos subjetiva, e por sua vez, o tom de realidade do conhecimento interiorizado é mais facilmente posto em parênteses (o sentimento subjetivo de que estas interiorizações são reais é mais fugitivo). É também relativamente fácil anular a realidade das interiorizações secundárias.

A socialização secundária prossegue eficientemente só com a quantidade de identificação mútua incluída em qualquer comunicação entre seres humanos. Na socialização secundária, o contexto institucional é em geral percebido.

 

c) A Conservação e Transformação da Realidade Subjetiva

No presente tópico, Berger e Luckmann chamam atenção para a incompletude da socialização. Estando os conteúdos que interioriza continuamente ameaçados em sua realidade subjetiva, toda a sociedade viavel de criar procedimentos de conservação da realidade para salvaguardar um certo grau de simetria entre a realidade objetiva e subjetiva (p.196). Como objetivo central do tópico, os autores destacam o exame da defesa da realidade subjetiva – a realidade tal como é apreendida na consciência individual e não como é institucionalmente definida (objetiva).

Socialização primária interioriza uma realidade apreendida como inevitavel, podendo ser considerada bem-sucedida se o sentimento de inevitabilidade estiver presente em maior parte do tempo, principalmente enquanto o individuo é ativo no mundo da vida cotidiana. No entanto, mesmo esse mundo está ameaçado pelas situações marginais da experiência humana que não podem ser completamente incluídas na atividade diária.  Há ainda definições da realidade, competindo umas com as outras e mais diretamente ameaçadoras, que podem ser socialmente encontradas.

Em sua argumentação, os autores destacam que o caráter mais “artifícial” da socialização secundária torna a realidade subjetiva da interiorização dela ainda mais vulnerável às definições desafiadoras da realidade. Isso porque sua realidade é menos profundamente arraigada na consciência, sendo assim mais susceptível de deslocamentos.  Entretanto, a realidade das interiorizações secundárias é menos ameaçada pelas situações marginais porque em geral não tem importância para elas. Essa realidade pode ser apreendida como trivial precisamente porque revela a falta de importância para a situação marginal.

Dois tipos gerais de conservação da realidade serão distinguiveis: a conservação rotineira e a conservação crítica. A primeira destina-se a manter a realidade interiorizada na vida cotidiana, a segunda, em manter a realidade em situações de crise. Ambas acarretam fundalmentalmente os mesmos processos sociais, embora possam notar algumas diferenças.  Visando dar continuidade a sua argumentação, os autores resgatam o processo de manutenção da realidade vida cotidiana que se mantém pelo fato de corporificar-se em rotinas, o que é a essência da institucionalização.  Essa realidade da vida cotidiana será ainda continuamente reafirmada na interação do indivíduo com os outros.  “Assim como a realidade é originalmente interiorizada por um processo social, assim também é mantida na consciência por processos sociais (p.198).

No processo social de conservação da realidade é possível distinguir entre os outros significantes e os outros menos importantes. De modo consideravel, todos os outros encontrados pelo individuo na vida cotidiana servem para reafirmar sua realidade subjetiva.  Seria um erro adimitir que somente os outros significaticos servem para manter a realidade subjetiva, ainda que esses ocupem uma posição central na economia da conservaçao da realidade. Os outros significativos são particularmente importantes para a progressiva confirmação da identidade. “Para conservar a confiança de que é na verdade a pessoa que pensa que é, o indivíduo necessita não somente a confirmação implícita desta indentidade, que mesmo os contatos diários casuais poderiam fornecer, mas a confirmação explicita e carregada de emoção que lhe é outorgada pelos outros significantes para ele (p.200).

Os outros significativos na vida do individuo são os principais agentes na conservação de sua realidade subjetiva. Os outros menos significativos funcionam como uma espécie de coro, ainda que possa existir algum desacordo entre estas pessoas. A partir dos desacordos, o individuo enfrenta o problema da coerência, que pode “caracteristicamente resolver ou modificando sua realidade ou as relações que mantem sua realidade (p.200)”. Para os autores, “há muitas complexidades possíveis nesta organização de relações conservadoras da realidade, especialmente numa sociedade onde existe grande mobilidade e diferenciação de funções.”A relação entre os outros significativos e o “coro” na conservação da realidade é dialética, isto é, existe uma relação recíproca entre os fatores, assim como no que respeita à realidade subjetiva que servem para confirmar. Uma identificação solidamente negativa por parte do ambiente mais amplo pode finalmente afetar a identificação fornecida pelos outros significativos.Inversamente, os outros significativos podem ter um efeito sobre o meio mais amplo.

A conservação e a confirmação da realidade implicam assim a  totalidade da situação social do individuo, embora os outros significativos ocupem uma posição privilegiada nesses processos. Segundo os autores, a importância relativa dos outros significativos e do coro pode ser vista mais facilmente se considerarmos os casos de desconfirmação da realidade subjetiva. Um ato desconfirmador da realidade praticado pela esposa, tomado em si mesmo, tem um poder muito maior do que um ato semelhante executado por um conhecido ocasional. Os atos desse último precisam adquirir certa densidade para se igualarem ao poder do primeiro.

O veículo mais importante da conservação da realidade é a conversa. Pode-se considerar a vida cotidiana do individuo em termos de funcionamente de um aparelho de conversa que continuamente mantem, modifica e reconstrói sua realidade subjetiva (p.202). A fala conserva uma posição privilegiada no aparelho total da conversa, mas isso não nega o rico halo da comunicação não verbal que a envolve.  Sendo que a maior parte da conservação da realidade na conversa é implicia e não explicita. A conversa pode se dar ao luxo de ser casual justamente porque se refera a rotinas de um mundo julgado verdadeiro (p.203)

Ao mesmo tempo que o aparelho de conversa mantém continuamente a realidade, também continuamente a modifica.  A realidade subjetiva de uma coisa da qual nunca se fala torna-se vacilente (p.203). Força geradora da realidade, possuída pela conversa é dada já no fato da objetivação linguística. Em tópico anterior os autores apresentam como a linguagem objetiva o mundo, dando ordem coerente a experiência.  No estabelecimento desta ordem a linguagem realiza um mundo, no duplo sentido de apreende-lo e produzi-lo.  Como fato fundamental conservador da realidade é o uso continuo da  mesma língua para objetivar a experiência biográfica reveladora. Todos os que empregam a mesma língua são os outros mantenedores da realidade. A fim de manter efetivamente a realidade subjetiva o aparelho da conversa deve ser contínuo e coerente.

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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