A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte VI)

Texto por Maurício Moura e Mayara Carvalho

Esta resenha inicia com a continuidade do Capítulo II: A sociedade como realidade objetiva | Tópico 2: Legitimação

c) A organização social para a manutenção do universo

Partindo do pressuposto de que a realidade é socialmente definida, segue-se o questionamento: Quem define? De que forma realiza as definições? Os autores argumentam que as definições são encarnadas, no sentido de que indivíduos e grupos concretos os operam na realidade. Tais definições são acessíveis a partir de suas histórias de utilização nas organizações sociais estabelecidas em determinados pontos correntes no tempo.

A definição de organização social se dá pelas dinâmicas nas quais são promulgados os esforços de legitimação das práticas e instituições sociais. Um exemplo disso é a legitimação do conhecimento especializado, que deu origem ao que os autores chamam de peritos universais. Tais peritos são munidos de ferramentas conceituais próprias de seus campos de conhecimento, cuja função é, muitas vezes, o estabelecimento do status de especialistas nas definições de realidade.

Há duas consequências principais desse processo: a tendência ao afastamento dos indivíduos da fenomenologia da vida cotidiana, dando lugar à teoria pura, uma modalidade de teoria com alto grau de idealização. A teoria pura advém de um grande grau de abstração, de modo a tencionar as definições de realidade social. Entretanto, esse processo de organização social pode funcionar para fortalecer as ações institucionalizadas através da legitimação.

Quanto mais consolidada for uma instituição em termos de sua rotinização e legitimidade, mais tradicional e perdurante ela se torna. A exceção disso é quando a instituição se torna problemática, no sentido de não atender às demandas variáveis do pragmatismo das situações cotidianas, ou quando entra em choque com uma instituição adversa. Isso significa que a durabilidade de uma instituição social independe da sua funcionalidade: “As pessoas fazem certas coisas não porque dão resultado, mas porque são certas – isto é, certas em termos das supremas definições de realidade promulgadas pelos especialistas no universal.” (p. 153)

As definições de realidade que se tornaram tradicionais, ou seja, aquelas que são promovidas através da agência de instituições rotinizadas e legitimadas, tornam os indivíduos e os grupos menos flexíveis a mudanças sociais.

A partir da ideia de que a realidade é socialmente definida, os autores a nomeiam como sendo essa uma realidade encarnada, a partir da qual indivíduos concretos e grupos de indivíduos lhes servem na condição de definidores da realidade.

No tocante às definições tradicionais da realidade, as mesmas são apresentadas como inibidoras da mudança social, ao passo que, de forma inversa, o desmoronamento da aceitação indisputada acerca do monopólio vigente precipita a mudança social. Diante do que os autores ressaltam a importância de dar-se conta de forma consciente de que e a maioria das sociedades modernas são pluralistas. Ou seja, que compartilham de um universo que constitui o seu núcleo, o qual vem a ser aceito sem maiores questionamentos, e possui diferentes universos parciais, os quais coexistem em um espaço de mútua acomodação.

Cabe definir a situação pluralista como aquela que “supõe uma sociedade urbana, com uma divisão do trabalho altamente desenvolvida, uma diferenciação concomitantemente alta na estrutura social e elevado excedente econômico.” (p.162) O que por sua vez reforça que a história das teorias legitimadoras um exemplar da história da sociedade como algo maior, totalitário.

No que se refere à relação estabelecida entre as “ideias” e os processos sociais que as mesmas sustentam, cabe afirmar que essa é sempre uma relação dialética. O corrobora o entendimento de que as teorias são elaboradas com o intuito de legitimar instituições sociais já consolidadas.

Diante do que, em relação o indivíduo e a sua interação na vida em sociedade, entende-se que: “O indivíduo não nasce membro da sociedade. Nasce com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade.” (p.167) Ou seja, essa não é uma condição natural e existente a priore e que, portanto, vai se estabelecendo no exercício do relacionar-se em sociedade e em interação com os outros, em exercício de socialização.

O processo de interiorização é trazido como fundamental nesse processo, sendo entendido enquanto momento de apreensão da realidade posta e instituída socialmente, seria a “interpretação imediata de um acontecimento objetivo como dotado de sentido, ou seja, como manifestação de processos subjetivos de outrem que, desta maneira, torna-se subjetivamente significativo para mim”. (p.168)

A interiorização neste sentido geral constitui a base primeiramente da compreensão de nossos semelhantes e, em segundo lugar, da apreensão do mundo como realidade social dotada de sentido.

Capítulo III. A SOCIEDADE COMO REALIDADE SUBJETIVA

1. A interiorização da realidade
a) A socialização primária

Um dos pontos de destaque do texto refere-se à socialização primária e sua construção em sociedade, de forma a pensar nos seus desdobramentos, em relação às vivências individuais e como tais vai compondo a construção social da realidade que se apresenta. É nesse período que vai sendo construído na criança “uma abstração progressiva dos papéis e atitudes em geral.” (p.172)

Segundo os autores essa socialização refere-se às circunstâncias diante das quais: “A sociedade apresenta ao candidato à socialização um conjunto antecipadamente definido de outros significativos, que ele tem de aceitar como tais sem possibilidade de optar por outro arranjo.” (p.174)

Vale pontuar ainda o destaque dado à linguagem, enquanto recurso capaz de proporcionar as repetições e perpetuações concernentes ao processo de institucionalização, haja vista que, “com a linguagem, e por meio dela, vários esquemas motivacionais e interpretativos são interiorizados, com valor institucional definido.” (p.175)

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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