A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte V)

Texto por Bonifácio Sobrinho e Adriana Silva

A resenha a seguir é continuação do Capítulo II: A sociedade como realidade objetiva.

2) Legitimação

a) As origens dos universos simbólicos

Legitimação é o segundo tópico do capítulo A sociedade como realidade objetiva. Se no primeiro tópico, Institucionalização, os autores pautam a “primeira ordem” da objetivação de sentido, agora os autores se debruçam sobre a “segunda ordem” desse processo.

A legitimação se faz necessária quando as objetivações da ordem institucional têm de ser transmitidas a uma nova geração, pois nessa situação o caráter evidente das instituições não pode mais ser mantido pela memória e pelos hábitos dos indivíduos. Passa então a ser necessário haver “explicações” dos elementos da tradição institucional, que vão outorgar validade cognoscitiva aos significados objetivados pela instituição e justificar a ordem institucional dando dignidade normativa a seus imperativos práticos. A legitimação é justamente esse processo de “explicação” e justificação. Isso significa que “A legitimação produz novos significados, que servem para integrar os significados já ligados aos processos institucionais díspares.” (p.122).

O processo de legitimação torna objetivamente acessível e subjetivamente plausível as objetivações que foram institucionalizadas. Isso significa que, em primeiro nível, a totalidade da ordem passa a ser integrada, ter sentido simultaneamente para os participantes de diferentes processos institucionais, e passa a ser plausível, portadora de um sentido global “por trás” dos motivos do indivíduo. Em segundo nível, a totalidade da vida do indivíduo, ou seja, sua biografia individual em várias fases sucessivas, institucionalmente predefinidas, se torna subjetivamente significativa.

Analiticamente, é possível distinguir diferentes níveis de legitimação:

  1. Incipiente

“[…] acha-se presente logo que um sistema de objetivações linguísticas da experiência humana é transmitida.” (p.124) pois diz respeito às explicações legitimadoras fundamentais, que estão incluídas no vocabulário. Este nível é pré-teórico e é o fundamento do “conhecimento” evidente, sobre o qual repousam todas as teorias subsequentes.

  1. Teórica rudimentar

Contém proposições teóricas em forma rudimentar. “Podem ser encontrados aqui vários esquemas explicativos que relacionam conjunto de significações objetivas. Estes esquemas são altamente pragmáticos, referindo-se diretamente a ações concretas.” (p. 125). Provérbios, lendas, histórias populares e máximas morais são comuns nesse nível de legitimação.

  1. Teorias Legitimadoras

[…] contém teorias explicitas pelas quais um setor institucional é legitimado em termos de um corpo diferenciado de conhecimentos […] Devido à sua complexidade e diferenciação, são frequentemente confiadas a pessoal especializado que as transmitem por meio de procedimentos de iniciação formalizados. (p. 125).

Esse nível de legitimação, com teorias legitimadoras especializadas e legitimadores aplicados a transmiti-las, vai além da aplicação prática e torna-se “teoria pura”. Desta maneira “[…] a esfera das legitimações começa a atingir um grau de autonomia em relação às instituições legitimadas e finalmente podem gerar seus próprios procedimentos institucionais.” (p. 126)

  1. Universo simbólico

É nesse nível que diferentes esferas da realidade são integradas pela incorporação ao mesmo universo de significação e então a integração reflexiva de processos institucionais distintos alcança sua plena realização. “O universo simbólico é concebido como a matriz e todos os significados socialmente objetivados e subjetivamente reais. A sociedade histórica inteira e toda a biografia do indivíduo são vistas como acontecimentos que se passam dentro deste universo.” (p. 127). Desta forma, cada coisa é posta no lugar certo, a ordem institucional como um todo, assim como para setores particulares dela, são legitimadas e “[…] o indivíduo pode viver em sociedade com certa segurança de que realmente é o que considera ser, enquanto desempenha seus papéis sociais rotineiros à luz do dia e sob o olhar dos outros significativos.” (p.133)

O universo simbólico também ordena a história. Localiza todos os acontecimentos coletivos numa unidade coerente, que inclui o passado, o presente e o futuro. […] “Todos os membros de uma sociedade podem agora conceber-se como pertencendo a um universo que possui um sentido, que existia antes de terem nascido e continuará a existir depois que morrerem”. (p. 135)

b) Os mecanismos conceituais da manutenção do universo

“Todas as legitimações, das mais simples legitimações pré-teóricas de significados institucionalizados distintos até o estabelecimento cósmico de universos simbólicos podem, por sua vez, ser consideradas como mecanismos de manutenção do universo.” (p. 138). Desta forma, chama-se atenção para o grau em que um universo simbólico é admitido como certo. “Alguns indivíduos habitam o universo transmitido de maneira mais definida do que outros.” (p.139) e os “grupos heréticos constituem não somente uma ameaça teórica para o universo simbólico, mas uma ameaça prática para a ordem institucional legitimada pelo universo simbólico”. Diante disso, há vários níveis de legitimação do universo simbólico por meio de mecanismos conceituais específicos, destinados a manter o universo “oficial”.

Outra ameaça à manutenção do universo, mais aguda que a heresia, é fruto da confrontação entre universos simbólicos distintos. Quando uma sociedade se defronta com outra que tem uma história muito diferente, um universo simbólico alternativo passa a ser conhecido. Reconhecer a simples existência de um outro universo simbólico, demonstra que o nosso próprio não é inevitável. Para este caso, cada sociedade desenvolverá mecanismos conceituais destinados a manter seus respectivos universos, mas “Qual das duas ganhará, contudo, é coisa que dependerá mais do poder do que da engenhosidade teórica dos respectivos legitimadores.” (p.142). “Quem tem a vara mais comprida tem maior probabilidade de impor suas definições da realidade.” (p. 143)

Seria evidentemente absurdo tentar fazer aqui um exame detalhado dos diferentes mecanismos conceituais de conservação dos universos, dos quais historicamente temos conhecimento. Mas algumas poucas observações sobre certos notáveis tipos de mecanismos conceituais seguem uma ordem […] (p. 143).

A mitologia “ [..] está mais próxima do nível ingênuo do universo simbólico, nível no qual há o mínimo de necessidade de conservação teórica do universo.” (p.144). Seu conhecimento não se diferencia muito do que é geralmente conhecido. A iniciação a esse conhecimento pode ser difícil em seus modos extrínsecos, porém é raramente difícil de ser adquirido em termos das qualidades intrínsecas do próprio corpo de conhecimento. Se comparada aos sistemas mitológicos, a teologia tem maior grau de sistematização teórica. Nos sistemas teológicos a vida cotidiana é menos penetrada por forças sagradas e, por tanto, o corpo de conhecimento é mais afastado do acervo geral do conhecimento da sociedade, tornando-se mais difícil de adquirir. A filosofia e a ciência aumentam ainda mais essa distância. O conhecimento passa a ser propriedade de elites de especialistas.

Também vale a pena explorar duas aplicações dos mecanismos conceituais de conservação dos universos: a terapêutica e a aniquilação.

  1. Terapêutica

“[…] acarreta a aplicação do mecanismo conceitual a fim de assegurar que os discordantes atuais ou potenciais se conservem dentro das definições institucionalizadas da realidade […]” (p. 147). É aplicada em “casos” individuais, enfrentando o perigo de dissidência individual, e consiste em dispositivos institucionais como exorcismo, psicanálise, assistência pastoral e programas de aconselhamento pessoal. Esses dispositivos criam mecanismos conceituais que explicam os desvios das definições “oficiais” da realidade dando origem a uma teoria da dissidência, a um aparelho de diagnóstico e um sistema conceitual curativo. O objetivo é ressocializar o transviado, reintroduzindo-o na realidade objetivo do universo simbólico da sociedade.

  1. Aniquilação

Diferente da terapêutica, que usa um mecanismo conceitual para manter todos dentro do universo, a aniquilação visa liquidar conceitualmente tudo que está fora desse universo. Isso pode ser feito de duas maneiras: a partir de um status ontológico negativo dado aos fenômenos de desvio, oferecendo-lhes um status cognoscitivo que não deve ser levado a sério, ou a partir da tentativa de explicar as definições dissidentes em termos de conceitos pertencentes ao nosso próprio universo. Nesse caso, “as concepções transviadas não recebem simplesmente um status negativo, são atacadas teoricamente em detalhes. O objetivo final desse procedimento é incorporar as concepções dissidentes ao nosso próprio universo, e com isso em última análise liquidá-las.” (p. 150)

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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