A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte IV)

Texto por Mayara Carvalho e Rodrigo Nejm

Os subtópicos abaixo são continuação do Capítulo II: A sociedade como realidade objetiva | Tópico 1: Institucionalização.

d) Papéis

O tópico em questão refere-se aos papéis sociais e a forma como os mesmos vão se consolidando nas relações de interação social. No decorrer do mesmo, os autores, Luckman e Berger, irão enfatizar o quanto tais papéis estão atrelados a formas específicas de ações dos sujeitos e o quanto isso vai ocorrendo no cotidiano. Ou seja, “haverá o reconhecimento não somente de um particular ator que realiza uma ação do tipo X, mas da ação tipo X como sendo executável por qualquer ator a quem possa ser plausivelmente imputada a estrutura de conveniências em questão.” (p.98)

Os autores trazem ainda que, para haver uma tipificação das condutas objetivamente praticáveis, as formas de ação, é necessário que haja uma objetivação linguística, a qual refere-se a um vocabulário que se relacione a tais formas de ação. Argumentam ainda que, uma ação e seu sentido podem ser compreendidos à parte das ações individuais dela e dos diversificados processos subjetivos que a elas se atrelam.

No que se refere ao indivíduo e o outro, ambos podem ser apreendidos como executantes de ações objetivas, geralmente que lhes sejam familiares, as quais são recorrentes e repetíveis por qualquer ator do tipo adequado.

Acerca do que denominam de “condutas objetivamente praticáveis”, os autores trazem ainda que a tipificação das mesmas conduz a identificação da personalidade com o sentido objetivo das ações. A ação que está sendo realizada define, nesse momento, a autocompreensão do ator e isto no sentido objetivo que foi socialmente atrelado à ação.

Em suma, o ator identifica-se com as tipificações da conduta in actu socialmente objetivada, mas restabelece a distância com relação a elas quando reflete posteriormente sua conduta. Salientam que tal distância, referente ao ator e sua ação, pode ser “mantida na consciência e projetada em futuras repetições das ações.” Tanto o eu atuante quanto os outros atuantes são tomados na condição de tipos e não como indivíduos únicos.

A origem dos papéis encontra-se no mesmo processo fundamental de formação de hábitos e objetivação que dá origem às instituições. No que se refere-se aos papéis, propriamente ditos, há  a compreensão de que são esses relativos a ocorrência da tipificação, no contexto de um acervo objetivado de conhecimentos comuns a um conjunto de atores.

Toda conduta institucionalizada envolve certo quantitativo de papéis, o que faz com que os mesmos contribuam no estabelecimento do caráter controlador da institucionalização. Ou seja, os papéis representam a ordem institucional.

A medida em que os indivíduos passam a refletir acerca de tais assuntos, enfrentam o problema de agrupar as várias representações em um todo conexo e que produza sentido. No que tange a execução concreta de um papel, pode-se dizer que, ” refere-se ao sentido objetivo da instituição e assim aos outros desempenhos complementares do papel e ao sentido da instituição em totalidade.” (p.102)

Os papéis têm grande relevância estratégica numa dada sociedade, haja vista que representam não somente esta ou aquela instituição, mas a integração de todas elas, em um mundo dotado de sentidos.

Um dos pontos de destaque do texto evidencia o quão importante é o caráter dos papéis enquanto mediadores, concernente a particulares setores do acervo comum do conhecimento. Dessa forma informações e comportamentos vão, quando no percurso de partilha em convívio social, sendo engendrados e consolidados nessa lógica social de funcionamento, favorecendo assim a reprodução massiva dos mesmos.

Acerca dos papéis e tipificações, fica evidente o quanto o eu atuante e os outros são apreendidos não como indivíduos únicos, mas como tipos. Por definição, estes tipos são intercambiáveis. Podemos começar propriamente a falar de papéis quando esta espécie de tipificação ocorre no contexto de um cabedal objetivado de conhecimentos comum a uma coletividade de atores.

No que se refere ao mundo enquanto subjetividade real para o sujeito, nota-se que ao exercer os papéis, o indivíduo participa de um mundo social, compartilhável. É no percurso de interiorização de tais pa­péis que esse mundo torna-se subjetivamente real para ele.

Acerca da instituição e subjetividade, os autores defendem que, qualquer execução concreta de um papel refere-se ao sentido objetivo da instituição em sua totalidade.

No tocante à análise dos papéis, identifica-se que tem particular relevância para a sociologia do conhecimento, haja vista que evidencia as “mediações existentes entre os universos macroscópicos de significação, objetivados por uma sociedade, e os modos pelos quais estes universos são subjetivamente reais para os indivíduos.” (p.105)

Acerca da “Distribuição social do conhecimento”, defendem que há uma variedade de papéis e, portanto, necessidade de representação simbólica da ordem institucional como totalidade integrada. Tais papéis dependem da acessibilidade e interiorização do “conhecimento” sobre normas, valores e padrões de condutas para serem alcançados e são formas específicas de acesso ao acervo total do conhecimento da sociedade.

“(…) podemos dizer que, por um lado, a ordem institucional é real apenas na medida em que é realizada em papéis executados e que, por outro lado, os papéis são representativos de uma ordem institucional que define seu caráter (incluindo seus apêndices de conhecimentos) e da qual derivam o sentido objetivo que possuem.” (p.105)

e) Extensão e modos de institucionalização

A ordem institucional abrange a totalidade da vida social. Levando-se em conta que os processos referentes a institucionalização se dão no âmbito da interação social, os autores afirmam que se muitas, ou a maioria, das estruturas importantes de uma dada sociedade são geralmente compartilhadas, a esfera da institucionalização será vasta, ao passo que, consequentemente, se são poucas tais estruturas, o âmbito de tal institucionalização se dará de forma consideravelmente reduzida.

Os subuniversos são tidos como elementos de significação socialmente separados, ao passo em que são identificados pelos autores como uma das consequências da segmentação institucional. Os subuniversos de significação podem ser socialmente estruturados de acordo com diversas categorias, a título de exemplo são citadas: idade, sexo, ocupação, religião, etc.

No tocante ao processo de reificação e desreificação das instituições e dos papéis, os autores apontam que, por meio da reificação, o mundo das instituições parece mesclar-se com o mundo da natureza. Tais papéis podem ser reificados de forma igual à reificação das instituições. O que, por sua vez, implica em que o setor da autoconsciência, que foi objetivado num papel, seja também apreendido como um infortúnio irremediável, podendo o indivíduo isentar-se de qualquer responsabilidade.

Ainda no tocante à reificação, ela é identificada como sendo a apreensão dos fenômenos humanos na condição de coisas, ou seja, como se fossem fatos da natureza diferentes dos resultados da atividade humana, como traz os autores, “resultados de leis cósmicas ou manifestações da “vontade divina.” (p.118)

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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