A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte III)

Texto por Karla Freitas e Bruna Lantyer

II – A sociedade como realidade objetiva

  1. Institucionalização

Neste capítulo, os autores irão tratar da construção da teoria da institucionalização; voltada para compreensão do processo de institucionalização da conduta humana.

a) Organismo e atividade

Ao contrário de outros mamíferos, o homem não possui um ambiente ideal a sobrevivência de sua espécie, já que não é biologicamente predeterminado a viver em um dado ambiente. Isto permite ao homem desenvolver a capacidade de se estabelecer nos mais variados ambientes e neles se empenhar numa ampla gama de atividades. Conforme os autores, “A relação do homem com seu ambiente caracteriza-se pela abertura para o mundo”. (pg.68)

A medida que o homem vai se desenvolvendo organicamente, ele também vai sendo moldado socialmente, ou seja, o homem se constrói socialmente, como os autores dizem: “a direção de seu desenvolvimento orgânico é socialmente determinada” e “uma grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua interferência socialmente determinada”. (pg.69)

O que rompe com a ideia de existência de uma “natureza humana” enquanto substrato biologicamente fixo, que determina a variabilidade das formações socioculturais. Sendo mais significativo dizer que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo.

Essa formação social constitui também a formação do “eu” no indivíduo. Apesar dos pressupostos genéticos desse “eu” serem dados no nascimento, a formação do “eu” humano deve ser compreendida em relação com o contínuo desenvolvimento orgânico e principalmente com o processo social, pois é esse processo que produz o “eu” em sua forma particular, como uma identidade subjetiva e objetivamente reconhecível. Sendo assim, o organismo e, mais intensamente, o “eu” não podem ser devidamente compreendidos fora do contexto social particular em que foram formados.

É importante ressaltar que a afirmação de que o homem se produz a si mesmo não implica uma espécie de visão prometeica do indivíduo solitário. Sendo assim, “a autoprodução do homem é sempre e necessariamente um empreendimento social” (pg.72). Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações socioculturais e psicológicas. O que leva a conclusão de que “A humanidade específica do homem e sua socialidade estão inextrincavelmente entrelaçadas”. (pg.73)

Como o organismo humano não possui os meios biológicos necessários para dar estabilidade à conduta humana, faz-se necessária a instituição de uma ordem social. Esta Ordem precede qualquer desenvolvimento individual orgânico, sendo um produto do homem gerado a partir da contínua exteriorização deste “ser humano” através de suas atividades. Assim, “A ordem social existe unicamente como produto da atividade humana” (pg.74).

Por conta dessa inerente instabilidade do organismo humano, o homem se vê obrigado a fornecer a si mesmo um ambiente estável para sua conduta; para isto o próprio homem tem de especializar e dirigir seus impulsos. Como eles fazem isso? (pg.75)

b) As origens da institucionalização

A ação humana ao ser repetida com frequência está sujeita à habituação. Ou seja, com a repetição, a ação acaba que se transforma num padrão que pode ser reproduzido no futuro da mesma maneira com economia de esforço, dando a direção e a especialização da atividade humana.

É importante destacar que as ações tornadas habituais conservam seu caráter significativo para o indivíduo, mesmo o significado em questão tendo sido incluído como rotina em seu acervo (ou repositório/estoque) geral de conhecimentos, admitido como certos por ele e sempre à mão para os projetos futuros. Esta estabilidade fornecida pelo hábito colabora para tornar as atividades humanas mais rápidas e práticas, sendo desnecessário que cada situação seja definida de novo, etapa por etapa sempre que ocorrer; assim, as atividades a serem desenvolvidas nas situações podem ser antecipadas (através das predefinições/ pressupostos que construímos sobre elas). Toda esta formação do hábito da atividade humana é coextensiva com a institucionalização dela. (pg.75-76)

“A institucionalização acontece sempre que existe uma tipificação recíproca de ações habituais por tipos de atores” (pg. 77) de uma sociedade, sendo essas tipificações construídas através da história compartilhada. Assim, a institucionalização assegura que as ações rotinizadas ocorram.

As tipificações são “acessíveis a todos os membros do grupo social particular em questão, e a própria instituição tipifica os atores individuais assim como as ações individuais” (pg. 77) – consolidando papéis.

As instituições controlam a conduta humana estabelecendo padrões previamente definidos de conduta, que a canalizam em uma direção por oposição às muitas outras direções que seriam possíveis.  Assim, dizer que um segmento da atividade humana foi institucionalizado é dizer que este segmento da atividade humana (ex. sexualidade), ao longo de sua história, foi submetido ao controle social.

Durante uma interação, estas tipificações são expressas em padrões específicos de condutas, que trazem como vantagem para ambos os indivíduos envolvidos na interação a capacidade de predizer as ações do outro.

É importante destacar que mesmo com suas ações revestidas pela trivialidade e habituação da vida cotidiana, os indivíduos estão abrindo o caminho para a formação de novos hábitos que colaboram para o processo de construção de um mundo social, que contém as raízes de uma ordem institucional que expande.

Outro aspecto importante é que essas instituições (assim como, os hábitos e tipificações) quando adquirem historicidade aperfeiçoam outra qualidade decisiva, que já existia quando os interatores começaram a tipificação recíproca de sua conduta, a objetividade – qualidade das instituições cristalizadas, como a paternidade, maternidade.

É nesta realidade ampla e dada do mundo social (que tem como qualidades a historicidade e a objetividade) que as formações sociais podem ser transmitidas a uma nova geração. (pg. 77-82)

Nas fases iniciais da socialização, a criança é completamente incapaz de distinguir entre a objetividade dos fenômenos naturais e a objetividade das formações sociais. Todas as instituições aparecem da mesma maneira como dadas, inalteráveis e evidentes. O mundo institucional transmitido, através da linguagem, pela maioria dos pais, já tem o caráter de realidade histórica e objetiva. Assim, o mundo institucional é experimentado como realidade objetiva. (pg.83)

Sendo assim, os indivíduos experimentam as instituições como se elas possuíssem uma realidade própria, e para poder entendê-las seria necessário o indivíduo “sair de si” para aprender o que elas realmente são, pois por mais sólidas que as objetividades do mundo institucional pareçam, elas são uma objetividade criada e construída pelo próprio ser humano.

Então, para um indivíduo de determinada sociedade as coisas funcionam como realmente devem ser (“É assim que estas coisas são feitas”), já que as áreas institucionalizadas são objetivadas e existem independente dele (um mundo social objetivo), e qualquer desvio da ordem institucional tem um caráter de afastamento da realidade. (pg.82)

Neste processo está envolvida a relação entre o homem (o produtor) e o mundo social (produto dele), esta é e permanece sendo uma relação dialética, isto é, o homem (evidentemente não o homem isolado, mas em coletividade) e seu mundo social atuam reciprocamente um sobre o outro. O produto reage sobre o produtor. A exteriorização e a objetivação são momentos desse processo dialético contínuo. O terceiro momento deste processo, que é a interiorização (pela qual o mundo social objetivado é reintroduzido na consciência no curso da socialização). Somente com a transmissão da realidade do mundo social a uma nova geração (isto é, a interiorização efetuada na socialização) – uma tradição, por exemplo -, a dialética social fundamental aparece em sua totalidade.

Como resultado deste processo os indivíduos devem “aprender a comportar-se” e, uma vez que tenham aprendido, precisam ser “mantidos na linha” pelo estabelecimento de sanções.

Um aspecto importante é o conhecimento primário, aquele que é a soma de tudo aquilo que “todos sabem”, a respeito do mundo social, um conjunto de máximas, princípios morais, frases proverbiais de sabedoria, valores e crenças, mitos, etc. Toda instituição tem um corpo de conhecimento transmitido como receita, isto é, conhecimento que fornece as regras de conduta institucionalmente adequadas.

Por obvio, este conhecimento situa-se no coração da dialética fundamental da sociedade. O conhecimento sobre uma sociedade é uma realização no duplo sentido da palavra, no sentido de apreender a realidade social objetivada e no sentido de produzir continuamente esta realidade.

Uma instituição não pode existir sem o particular conhecimento que foi socialmente produzido e objetivado como referência a esta atividade. Uma vez que uma instituição se cristaliza e perdura no tempo, o mesmo corpo de conhecimento serve de descrição objetiva dela. Este mesmo corpo de conhecimento é transmitido à geração seguinte. E aprendido como verdade objetiva no curso da socialização, interiorizando-se assim como realidade subjetiva. (pg.91-92).

c) Sedimentação e tradição

Somente uma parte das experiências humanas ficam registradas na consciência de um indivíduo, e as experiências que permanecem na consciência são aquelas que foram sedimentadas, ou seja, são experiências que podem ser lembradas e reconhecidas pelo indivíduo como parte de sua biografia. Existe também a sedimentação intersubjetiva, neste caso, vários indivíduos possuem um acervo de conhecimento (biografia) comum.

Através da linguagem ocorre a transmissão dessas sedimentações objetivadas na sociedade, tornando as experiências partilhadas acessíveis a todos os indivíduos, o que a torna a base e o instrumento do acervo coletivo do conhecimento. Há também uma série de procedimentos que objetivam a passagem do conhecimento para as futuras gerações.

A objetivação da experiência na linguagem (isto é, sua transformação em um objeto de conhecimento por todos aproveitável) permite então incorporá-la a um conjunto mais amplo de tradições por via da instrução moral, da arte, da religião e outras coisas mais. Essa transmissão de conhecimento nada mais é do que procedimentos de controle e legitimação.

A extensão da institucionalização pode ser ampla, onde grande parte das estruturas importantes de uma sociedade são compartilhadas pelos indivíduos, ou pode ser estreita, onde as estruturas importantes de uma sociedade são pouco compartilhadas entre os indivíduos.

Pode não parecer, mas a institucionalização pode ser reversível. Por mais que elas tenham a tendência de permanecer, graças a grande variação histórica a extensão das instituições pode vir a diminuir e dar lugar a outro modo de institucionalização.

A legitimação é o processo de objetivação dos universos simbólicos, o que produz novos significados para integrar significados já existentes e ligados a processos institucionais diferentes. Essa legitimação é basicamente um processo de explicação e justificação para que as objetivações da ordem institucional sejam passadas as futuras gerações. (pg.92-97)

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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