A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte II)

Texto por Lisi Barberino e Allana Gama

  1. A interação social na vida cotidiana

Neste tópico, BERGER e LUCKMANN abordam  a situação face a face como a mais importante experiência dos outros. Para os autores, a situação face a face se configura como caso protótipo da interação social.

“Na situação face a face o outro é apreendido por mim num vívido presente partilhado por nós dois. Sei que no mesmo vívido presente sou apreendido por ele. Meu ‘aqui e agora’ e o dele colidem continuamente um com o outro enquanto dura a situação face a face” (p.46).

Como resultado, há intercâmbio contínuo entre a expressividades dos atores envolvidos na interação.  Tais expressões serão reciprocamente orientadas na direção dos atores e simultaneamente acessíveis a ambos.  Na interação face a face a subjetividade do outro se torna expressivamente próxima. Em sua argumentação, os autores consideram todas as outras formas de relacionamento com o outro, em graus variáveis, como remotas.

Aspecto relevante se torna o caráter plenamente real que o outro adquire.  Para Berger e Luckmann, o outro na situação face a face é mais real para mim do que eu próprio.

“Sem dúvida, o outro pode ser real para mim sem que eu o tenha em contato face a face (…). Entretanto, só se torna real para mim no pleno sentido da palavra quando o encontro pessoalmente (p.46).

Enquanto o conhecimento sobre mim mesmo, sobre minha subjetividade, exige reflexão. O conhecimento sobre o outro me é imediatamente acessível na situação face a face.

As relações com os outros na interação face a face serão ainda altamente flexíveis. Nessas situações, será relativamente difícil impor padrões rígidos. Os padrões introduzidos nessa forma de interação terão de ser continuamente modificados devido ao “intercâmbio extremamente variado e sutil de significados subjetivos que têm lugar” (p.47).

Por outro lado, o outro será apreendido por meio de esquemas tipificadores. Ainda que seja relativamente impor padrões rígidos à interação face a face, desde o ínicio “esta já é padronizada se ocorre dentro da rotina da vida cotidiana” (p.48). A realidade da vida cotidiana contém esquemas tipificadores em termos dos quais os outros são apreendidos, sendo estabelecidos os modos como lidamos com os outros.

Os esquemas tipificadores da interação face a face são recíprocos. Apreendo o outro de maneira tipificada, enquanto o outro me apreende do mesmo modo.  Esses esquemas tipificadores entram em contínua negociação na situação face a face. As tipificações da interação social tornam-se progressivamente anônimas à medida que se afastam da situação face a face.

Importante aspecto da experiência dos outros na vida cotidiana é o caráter direto ou indireto dessa experiência.

“Em qualquer tempo é possível distinguir entre companheiros com os quais tive uma atuação comum  em situações face a face e outros que são meros contemporâneos (…). Nas situações face a face tenho a evidência direta de meu companheiro, de suas ações, atributos, etc. Já o mesmo não acontece no caso de contemporâneos, dos quais tenho um conhecimento mais ou menos digno de confiança” (p.50).

O anonimato irá crescer a medida que se passa dos primeiros para os últimos, porque o anonimato das tipificações por meio das quais apreendo os semelhantes nas situações face a face é constantemente preenchido pela “multiplicidade de vívidos sintomas referentes a um ser humano concreto” (p.50).

  1. A linguagem e o conhecimento na vida cotidiana

Neste tópico os autores tratam sobre a questão da linguagem e como suas diferentes aspectos e particularidades resultam na construção e acumulação do conhecimento da vida cotidiana. Eles afirmam que a  expressividade humana é capaz de objetificações, ou seja, manifestações em produtos que se encontram a dispor tanto dos produtores quanto dos outros homens enquanto elementos de um mundo comum.

“Estas objetificações servem de índices mais ou menos duradouros dos processos subjetivos de seus produtores, permitindo que se estendam além da situação face a face em que podem ser diretamente apreendidas.”(p.52)

Os autores também afirmam que a vida cotidiana só é possível por conta das mesmas, pois estas “proclamam” as intenções subjetivas dos indivíduos. E abordam sobre a produção humana de sinais enquanto sendo um caso especialmente importante de objetificação, e afirmam:

“As objetificações comuns da vida cotidiana são mantidas primordialmente pela significação linguística.  A vida cotidiana é, sobretudo, a vida com a linguagem, e por meio dela, de que participo com meus semelhantes. A compreensão da linguagem é por isso é essencial para minha compreensão da realidade da vida cotidiana.” (p.55)

Apesar de ter origem na situação face a face a linguagem pode ser destacada dela. O processo de destacamento consiste, segundo os autores, em sua capacidade de comunicar significados que não são expressões da subjetividade “aqui e agora”. Dessa forma, a linguagem torna-se um repositório de acumulações de significados e experiências, podendo transmitir esse conteúdo às próximas gerações.  O resultado da característica de transcendência é que por meio da linguagem um mundo pode ser atualizado a qualquer momento, podendo até mesmo transcender  completamente a realidade da vida cotidiana.

“A linguagem é capaz não somente de construir símbolos altamente abstraídos a experiência diária, mas também de “fazer retornar” este símbolos, apresentando-os como elementos objetivamente reais na vida cotidiana. Desta maneira, os símbolismo e a linguagem simbólica tornam-se componentes essenciais da realidade da vida cotidiana e da apreensão pelo senso comum nesta realidade” (p.59)

Ela também é responsável por construir campos semânticos ou zonas de significação linguisticamente circunscritas. Os autores afirmam que nos campos semânticos a experiência (tanto biográfica quanto histórica) é construída, conservada e acumulada. Segundo eles acumulação é seletiva, pois os campos semânticos determinam o que será retido e o que será esquecido, e a partir desta acumulação um acervo social de conhecimento é constituído e transmitido de geração em geração além de utilizado na vida cotidiana.

O acervo social do conhecimento inclui o conhecimento da situação e do limite de cada indivíduo, ou seja, cada pessoa possui conhecimentos específicos sobre uma determinada área, e possui o conhecimento básico para saber a quem ela pode recorrer para sanar situações que fogem do acervo social do conhecimento.

Já o estoque social do conhecimento além de  fornecer informações mais gerais e imprecisas sobre os setores, fornece também esquemas tipificadores exigidos para principais rotinas da vida cotidianas. E embora o ele represente o cotidiano de maneira integrada, nem sempre a realidade da vida cotidiana aparece como uma zona clara.

Os autores ainda afirmam que o conhecimento da vida cotidiana de cada indivíduo estrutura-se  em termos de conveniência, seja  a partir dos seus  interesses pragmáticos imediatos, ou por determinações tomadas por sua situação geral na sociedade. Outro elemento sobre o conhecimento da vida cotidiana que é julgado como importante pelos autores é o conhecimento das estruturas que têm importância para os outros. As estruturas que tem importância básica à vida cotidiana já são apresentadas ao indivíduo prontas pelo estoque social do próprio conhecimento.  Por fim, Berguer e Luckmann  entendem que a distribuição social do conhecimento:

“Começa assim com o simples fato de não conhecer tudo que é conhecido por meus semelhantes, e vice-versa, e culmina em sistemas de perícia extraordinariamente complexos e esotéricos. O conhecimento do modo como o estoque disponível do conhecimento é distribuído, pelo menos em linhas gerais, é um importante elemento deste próprio estoque de conhecimento. Na vida cotidiana sei, ao menos grosseiramente, o que posso esconder de cada pessoa, a quem posso recorrer para pedir informações sobre aquilo que não conheço geralmente quais os tipos de conhecimento que se supõe serem possuídas por determinados indivíduos.”(p.66)

Karla Cerqueira

é mestranda pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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