A construção social da realidade: tratado da sociologia do conhecimento (parte final)

Texto por Patrícia Luz e Rodrigo Nejm

Esta resenha é parte do Capítulo III – A Sociedade como realidade subjetiva, a partir do tópico 4 e a Conclusão.

  1. ORGANISMO E IDENTIDADE

Na sequência do capítulo III, os autores salientam que o processo de construção da realidade é permeado pelas limitações decorrentes do organismo humano. Este por sua vez também é influenciado pela própria sociabilidade que desenvolve. É possível falar de uma dialética entre a natureza e a sociedade. Externamente é uma dialética entre o animal individual e o mundo social. Internamente, é uma dialética entre o substrato biológico do indivíduo e sua identidade socialmente produzida. “A coexistência permanente da animalidade do homem e de sua sociabilidade pode ser proveitosamente observada em qualquer conversa depois do jantar” (p.229).

A dialética entre a natureza e a sociedade além de ser mútua, como apontam os autores, ela começa nas primeiras fases da socialização e permeia toda a existência do indivíduo. Se os fatores biológicos podem limitar o processo de socialização, também é possível dizer que a sociedade impõe limites aos substratos biológicos que constituem o ser humano (p.230).

O texto traz como exemplo de imposição a expectativa de vida, a morte, o exercício da sexualidade e o ato de se alimentar. É a sociedade que determina o que é próprio ou impróprio condicionando os impulsos “animais” que habitam o ser humano. “A questão é que a sociedade estabelece limites para o organismo, assim como o organismo estabelece limites para a sociedade” (p.231).

Do ponto de vista interno, observa-se a resistência do organismo humano às imposições sociais. Essa dialética fica evidente no processo de socialização primária quando a criança precisa lidar com o desejo de superar as próprias exigências impostas por suas necessidades biológicas. Associada a isso está a sua introdução ao mundo social que agrega outra temporalidade às suas necessidades. Não poder comer ou dormir quando se tem vontade é um dos exemplos de frustrações biológicas. “A existência social depende da subjugação contínua da resistência, biologicamente fundada, do indivíduo, que acarreta legitimação bem como institucionalização” (p.232).

Por último, os indivíduos totalmente socializados enfrentam uma continua dialética entre a identidade e seu substrato biológico (p. 232). Há uma luta entre o “eu superior” e o “eu inferior”. O “eu superior” está ligado à identidade social e exerce o papel de afirmação sobre o “eu inferior” que está ligado à animalidade pré-social. “Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano se transforma. Nesta mesma dialética o homem produz a realidade e com isso se produz a si mesmo (p.233)”.

Conclusão – A sociologia do conhecimento e a teoria sociológica

Ao longo da conclusão do livro os autores refazem o caminho feito apontando as principais contribuições desse estudo para a sociologia e áreas afins, bem como os desafios ainda existentes. O tratado sociológico apresentado faz uma exposição geral e sistemática do papel do conhecimento na sociedade (p.235).

Com relação às contribuições no campo da sociologia o texto aponta a necessidade de que as sociologias da linguagem e da religião sejam consideradas como essenciais para as questões relacionadas à teoria social. “Esperamos ter tornado claro que a sociologia do conhecimento pressupõe uma sociologia da linguagem, e que uma sociologia do conhecimento sem uma sociologia da religião é impossível (e vice e versa)” (p.235).

A análise desenvolvida sobre o papel do conhecimento nas dialéticas entre individuo e sociedade e as diversas facetas dessa relação é apontada como contribuição essencial para todas as áreas da sociologia.

Na perspectiva da psicologia eles traçam um caminho com possibilidades para uma psicologia sociológica (conexão com Mead) que deriva suas perspectivas fundamentais da compreensão sociológica da condição humana. A análise do papel do conhecimento na dialética do indivíduo e da sociedade, da identidade pessoal e da estrutura social, fornece uma perspectiva complementar essencial para todas as áreas da sociologia.

Uma crítica à análise sociológica centrada no funcionalismo ou estruturalismo puros lança o olhar para a necessidade de um avanço no método de pesquisa e estudo no campo da sociologia. A ênfase dos estudos precisa voltar para a compreensão da construção da realidade, objetiva e subjetiva, em que esses homens levam a vida cotidiana e na qual suas crises ocorrem. Os autores concluem o livro evidenciando o papel da sociologia como disciplina humanista, portanto precisa tratar o humano como humano (239).

 

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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