A construção mediada da intimidade?

Texto por Maurício Moura

Considerações analíticas sobre a produção e manutenção de vínculos em comunicações mediadas

Com quem você costuma conversar com maior frequência? Tire alguns minutos para considerar. Dentre as respostas para essa pergunta, podem surgir figuras como pais, avós, amigos, pares românticos, dentre outros. As pessoas com as quais mais estamos em contato, frequentemente, são aquelas com quem temos vínculos mais próximos. São as pessoas em quem mais pensamos em ter notícias nos intervalos do trabalho (ou durante ele), as pessoas que sentimos mais saudades quando viajamos, ou com quem queremos desabafar depois de momentos estressantes. São pessoas com quem pode-se dizer que temos intimidade.

No contexto contemporâneo, vivemos condições de acessibilidade interpessoal frequente, propiciado pelo crescimento do uso de tecnologias da informação e comunicação (TICs). De acordo com dados estudados por pesquisadores do GITS/UFBA (SOBRINHO, AYRES, RIBEIRO, 2018), a atualidade conta com a existência de dispositivos e aplicativos digitais que são considerados facilitadores do contato rápido com outras pessoas. O estudo mostra que tal acessibilidade não significa necessariamente que os parceiros de interação estão abertos e disponíveis para contato a todo tempo, mas que essa é uma característica da agência dos indivíduos sobre suas próprias relações.

Com quem escolhemos estar mais disponíveis pode ser um indicativo do quanto se intenciona compartilhar nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos, dos mais rotineiros aos mais complexos e amplos. O conceito de exposição de si (self-disclosure) vem sido utilizado para compreender a medida pela qual gerenciamos a transmissão, verbal e não-verbal, de aspectos de nós mesmos (DERLEGA & CHAIKIN, 1977; NEJM, 2016). A intencionalidade para formar vínculos próximos com pessoas parece estar condicionada a alguns fatores dinâmicos e contextuais, que podem variar socialmente de acordo com a cultura, com a história individual e os tipos prévios de relação estabelecidos (PRAGER, 2013).

Num contexto social cuja dinâmica de comunicação interpessoal cotidiana gira em torno da mediação dos dispositivos como smartphones, aliado às tensões da acessibilidade e disponibilidade dos interagentes, há de se refletir sobre a variedade dos processos de formação da intimidade. Quando consideramos o nosso referencial para interação como sendo o contato presencial face a face (GOFFMAN, 2010), as mudanças históricas e sociais advindas da possibilidade de se comunicar à distância ocupam um papel importante nessa discussão.

Pesquisadores da intimidade, até a virada do século, se aprofundaram na sistematização desse conceito pautados na presença física imediata, e consideraram formas de comunicação como cartas e telefones apenas como uma extensão do processo de formação de intimidade nas relações (PRAGER, 1997). Entretanto, há diferenciações no tempo, no espaço e em outros elementos relevantes do contexto interativo (FREHSE, 2008; GOFFMAN, 2012) que fazem com que a percepção sobre a intimidade seja diferente de um contexto não-mediado por ferramentas comunicacionais para um mediado. Nesse sentido, a questão sobre como a intimidade pode ter se transformado nos últimos anos com o advento das TICs levanta debates e discursos sociais de grande interesse para pesquisadores como os presentes no GITS/UFBA.

Defende-se aqui a compreensão acerca da realidade social vigente enquanto um continuum de complexidade no que diz respeito a utilização contemporânea que é feita dos dispositivos digitais na mediação das relações. A ideia de um continuum de mediação para a construção contínua dos vínculos parece ser mais consistente com a vida cotidiana do que a simples distinção virtual/real, ou online/offline. Pelo menos no que tange as relações de intimidade, percebemos que elas podem, por exemplo, começar no Tinder, partir para o WhatsApp e Facebook Messenger, chegar ao encontro presencial físico e variar essas formas de mediação (incluindo a face a face) de modo intermitente ao longo do relacionamento.

A aplicação das TICs ao contexto dos relacionamentos humanos, no ritmo que temos visto atualmente, é algo ainda recente na história da humanidade. As nuances que podem ser exploradas nas diferentes dimensões aqui citadas são diversas, nos campos experienciais da utilização e nos mais analíticos, como em contextos de pesquisa. É importante que aumentemos a compreensão acerca dos processos interativos e das percepções que temos deles, uma vez que fazem parte da nossa vida afetiva e social contemporânea.

 

Referências

DERLEGA, Valerian J.; CHAIKIN, Alan L. Privacy and self?disclosure in social relationships. Journal of Social Issues, v. 33, n. 3, p. 102-115, 1977.

FREHSE, Fraya. Erving Goffman, sociologist of space. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, n. 68, p. 155-166, 2008.

GOFFMAN, E. 2010. Comportamento em Lugares Públicos. Notas Sobre a Organização Social dos Ajuntamentos. Petrópolis, Vozes, 263 p.

GOFFMAN, E. 2012. Ritual de interac?ão: ensaios sobre o comportamento face a face. Petrópolis, Vozes, 255 p.

NEJM, Rodrigo. Exposição de si e gerenciamento da privacidade de adolescentes nos contextos digitais. Tese de doutorado em Psicologia, UFBA. 2016.

PRAGER, Karen J. The dilemmas of intimacy: Conceptualization, assessment, and treatment. Routledge, 2013.

PRAGER, Karen J. The psychology of intimacy. Guilford Press, 1997.

SOBRINHO, L. B.; AYRES, M; RIBEIRO, J. Percepções sobre a Presença Social em interações mediadas por dispositivos de comunicação móveis. In: Revista Intexto, Porto Alegre, UFRGS. Online First. 2018. Disponível em: < http://seer.ufrgs.br/index.php/intexto/article/view/77250/47833>. Acesso em: 05 jun. 2018.

Karla Cerqueira

é mestre pelo Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, na linha de pesquisa em Cibercultura. Possui Bacharelado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atuou nos setores de criação da Agência Versa e da empresa DP&P Comunicação Visual. Tem interesse nos temas: Interações Sociais Online, Tecnologias Digitais, Performances e Imperativo da Felicidade. (Lattes)

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