A Constituição da Sociedade | Capítulo 3 | Tempo, espaço e regionalização

Tempo-geografia

Anthony Giddens, no capítulo 3 de A Constituição da Sociedade – Tempo, Espaço e Regionalização – demonstra que é necessário considerar como a teoria social deve enfrentar, de um modo filosófico mais concreto que abstrato, a situabilidade na interação no tempo e no espaço.

Recentemente, houve uma notável convergência entre a geografia e outras ciências sociais, que contribuíram para o pensamento social. Uma dessas contribuições é a teoria tempo-espaço formulada por Hägerstrand, que adota como ponto de partida o fenômeno muito enfatizado por Giddens: o caráter rotinizado da vida cotidiana. Hägerstrand baseia-se principalmente na identificação das fontes de cerceamento da atividade humana produzidas pela natureza do corpo e pelos contextos físicos em que a atividade ocorre. A ênfase da teoria tempo-geografia recai sobre os seguintes fatores, presentes nos contextos de associações em condições de co-presença:

1. A indivisibilidade do corpo humano

2. A finitude da duração da vida do ser humano como um “ser para a morte”.

3. A capacidade limitada dos seres humanos de participar em mais de uma tarefa simultaneamente.

4. O movimento no espaço é também no tempo.

5. A limitada “capacidade de acondicionamento” do tempo-espaço.

Os agentes movimentam-se em contextos físicos cujas propriedades interagem com suas capacidades, ao mesmo tempo em que interagem uns com os outros. Interações de indivíduos movendo-se no tempo-espaço compõem “feixes” que se reúnem em “estações” ou localizações espaço-temporais definidas, dentro de regiões circunscritas.

O volume de tempo-espaço disponível para um indivíduo diariamente é um prisma delimitando a prossecução de projetos. Os prismas de conduta diária não são apenas fronteiras gepgráficas ou físicas, mas tem paredes espaço-temporais por todos os lados. Para os que vivem na maioria das sociedades, a mobilidade tem lugar dentro de prismas de tempo-espaço relativamente restritos.

A conduta da vida cotidiana de um indivíduo acarreta que ele se associe com conjuntos de entidades procedentes de cenários de interação. Essas entidades são: outros agentes, objetos indivisíveis, materiais divisíveis e domínios. Domínios referem-se à regionalização do tempo-espaço: o movimento de trajetórias de vida através dos cenários de interação que tem várias formas de demarcação espacial.

Comentários críticos

Tempo-geografia diz respeito às restrições que dão forma às rotinas da vida cotidiana e compartilha com a teoria da estruturação uma ênfase sobre a importância do caráter prático das atividades diárias, em circunstâncias de co-presença, para a constituição da conduta social.

Nesta seção Giddens apresenta algumas reservas acerca do tempo-geografia:

1.  Agentes são considerados seres intencionais, no sentido de que suas atividades são guiadas pelos projetos que se esforçam por realizar, mas a natureza e origens dos projetos não são explicadas.

2.  Hägerstrand recapitula o dualismo da ação e da estrutura, tendo como originalidade a preocupação com o tempo e o espaço. É dada pouca ênfase ao caráter transformador de toda ação humana.

3. Há uma concentração exclusiva nas propriedades restritivas do corpo, em seu movimento através do tempo-espaço. Giddens aponta aqui uma possível ligação com a versão do materialismo histórico.

4. O tempo-espaço apresenta apenas uma teoria do poder debilmente desenvolvida. Hägerstrand traz o conceito de “limitações de autoridade”, que associa às de capacidade de combinação, porém formuladas de forma vaga e invocando uma concepção de soma-zero de poder como fonte de limitação à ação.

Outra crítica que Giddens faz em relação a teoria de Hägerstrand diz respeito à noção de “lugar”; Hägerstrand se ocupa muito mais com a integração da temporalidade na teoria social e não submete as noções de lugar ou localização a um rigoroso exame conceitual e usa esses termos de modo superficial. O termo “lugar” não pode ser usado na teoria social somente para desginar um ponto no espaço ou uma sucessão de ágoras, o conceito de mutualidade de presença e ausência deve ser explicado em termos tanto de espacialidade quanto de temporalidade.

A teoria da estruturação aborda essa questão com duas noções: local e acessibilidade da presença, envolvidas em relações de integração. Locais referem-se ao uso de espaço a fim de fornecer os cenários de interação, fundamentais para especificar sua contextualidade. Comumente se designa locais em função de suas propriedades físicas, seja como características do mundo material ou como combinações destas com artefatos humanos. Locais são regionalizados em seu interior, e as regiões são de importância crucial na constituição de contextos de interação.

As características dos cenários são também usadas, rotineiramente, para constituir o conteúdo significativo da interação: a demonstração das múltiplas maneiras como isso ocorre situa-se entre as contribuições de Garfinkel e Goffman: o contexto liga os componentes mais íntimos e detalhados da interação a propriedades muito mais amplas da institucionalização da vida social. 

Modos de regionalização 

Regionalização deve ser entendida não meramente como localização no espaço, mas como referente ao zoneamento do tempo-espaço em relação às práticas sociais rotinizadas. Giddens traz vários exemplos, como a divisão entre cômodos da casa (os vários cômodos da casa estão zoneados de modo diferente no tempo e espaço), a divisão entre dia e noite (intensidade da vida social e sua demarcação); a divisão entre dia e noite costumava ser uma fronteira de atividade social tão demarcada quanto qualquer fronteira espacial

A regionalização pode incorporar zonas de grande variação em extensão e escala. As regiões de grande extensão dilatam-se amplamente no espaço e profundamente no tempo. A interseção de “extensões” pode variar, mas regiões de considerável extensão tendem necessariamente a depender de um alto grau de institucionalização (modo como esse local é seguida por regras “de cima”). O caráter de regionalização é apresentado pelo autor como o modo em que a organização tempo-espaço de locais é ordenada dentro de sistemas sociais abrangentes.

Regiões de frente, regiões de trás

Um aspecto do caráter de regionalização é o nível de disponibilidade de presença associada a formas específicas do local. Comunidades de elevada disponibilidade de presença em todas as culturas eram agrupamentos de indivíduos em estreita proximidade física. Os sinais eletrônicos nos meios de comunicação e a mecanização dos meios de transporte promoveram uma separação radical na história moderna, levando a espetaculares convergências de tempo-espaço. Até então, os meios de comunicação eram sempre idênticos aos meios de transporte.

Os diferentes aspectos de regionalização de locais configuram de várias maneiras a natureza da disponibilidade de presença. A vida em estreita proximidade dentro de casa pode significar elevada disponibilidade de presença. Já prisões e manicômios são a continuidade forçada de co-presença; o poder disciplinar das prisões, manicômios e outros tipos de “instituição total” baseia-se no rompimento da engrenagem de disponibilidade de presença nas rotinas de trajetórias diárias “de fora”.

A importância da regionalização para a estruturação de sistemas sociais pode ser ainda mais salientada observando como o zoneamento é realizado em diferentes cenários. “Face” e “frente” estão relacionadas com o posicionamento do corpo em encontros. A regionalização do corpo tem uma contrapartida espacial na regionalização dos contextos de interação: permite as regiões de frente e de fundo. O termo “fachada” ajuda a designar as conexões entre essas duas regiões, mas sugere que os aspectos frontais da regionalização são inerentemente inautênticos e tudo o que é real ou substancial está escondido atrás da fachada. Isto seria uma limitação do modelo dramatúrgico de Goffman, ao verificar-se a falta de uma interpretação geral das motivações das rotinas das vidas cotidianas. Se os agentes fossem apenas “atores” num palco, o mundo social estaria, na visão de Giddens, vazio de substância em grande parte; se assim fosse, as pessoas não se dariam ao trabalho de se dedicar tanto às suas performances.

É por existir um envolvimento afetivo nas rotinas diárias que os atores (agentes) não se sentem ordinariamente atores (artistas), apesar da semelhança entre esses termos. Assim, a diferenciação entre regiões de frente e de fundo não coincide, em absoluto, com a divisão entre o fechamento de aspectos do self e sua abertura.

Abertura e self

Regiões de trás em ocasiões sociais ritualizadas se assemelhem com freqüência aos bastidores de um teatro ou atividades off-camera. Esses tipos de ocasiões envolvem desempenhos para públicos. O nível de fechamento entre regiões de frente e de trás é muito mais elevado, já que implica, muitas vezes, que quanto mais ritualizada for a ocasião, mais deverá ser apresentada como um conjunto autônomo de eventos, no qual os bastidores são mantidos totalmente fora das vistas do público. As ocasiões rituais são situações que frequentemente são impostas sanções aos atores cujo compromisso com aquelas normas é marginal ou inexistente.

A distinção entre atividades “privadas” e “públicas” envolve muito mais do que se poderá desprender da natureza das categorias, que se excluem umas às outras. As atitudes derrogatórias para com os indivíduos investidos de autoridade são extremamente comuns nas situações de exercício de poder. O zoneamento regional das atividades em muitos contextos desse gênero relaciona-se estreitamente com a serialidade dos encontros no tempo-espaço. As diferenciações entre as duas regiões podem distinguir-se daquelas em que as convenções situacionais da interação estão enfraquecidas ou se permite que degenerem. Dessa forma, o zoneamento do corpo está associado nas sociedades ao de atividades no tempo-espaço nas trajetórias do dia dentro de determinados locais.

Interseções entre regionalização e as expressões de cuidado corporal estão vinculadas intricadamente à manutenção do sistema de segurança básica. Esses tipos de comportamento podem ajudar a reforçar a segurança básica na presença dos indivíduos. 

Regionalização Genérica 

Nessa seção, Giddens parte para definição da regionalização em estruturas. Na maioria das sociedades, o zoneamento da cidade em bairros com características sociais diferentes é influenciado pela operação dos mercados imobiliários. Os bairros podem não ser tão simetricamente zoneados, mas suas distribuições tem a conseqüência de criar vários tipos de contrastes frente/trás. Áreas industriais já foram orgulhosamente exibidas, mas a tendência tem sido encarar essas áreas como desagradáveis a vista. É possível também tornar invisível as áreas de gueto, com baixa transferência de propriedade e de mobilidade diária para dentro e fora.

A regionalização através de grandes extensões de tempo-espaço tem sido analisada por vários autores em termos familiares como desenvolvimento desigual e centro e periferia. Se as cidades têm seus centros, isso também ocorre com as trajetórias diárias de atores individuais: o lar e o local de trabalho formam dois principais centros em que atividades diárias se concentram.  Os locais também tendem a estar regionalmente centrados – aqueles que ocupam centros tem controle sobre recursos que lhes permitem manter diferenciações entre eles próprios e os das regiões periféricas.  Os estabelecidos podem empregar várias formas de fechamento social para manter a distância de outros que são efetivamente tratados como inferiores ou estranhos. O fator de prioridade no tempo também influenciou até agora a preeminência no espaço.

Tempo, espaço, contexto 

Até então o capítulo focalizou a contextualidade da vida social e das instituições sociais. Toda a vida social ocorre em interseções de presença e ausência no “escoamento” do tempo e na “transformação gradual” do espaço.  Ao propor idéias de local e regionalização, Giddens quer formular um esquema de conceitos que ajudem a classificar a contextualidade como inerentemente envolvida na conexão de integração social e de sistema. As limitações de tempo-geografia na teoria de Hägerstrand devem ser levadas em conta.

O tempo marcado não deve ser aceito simplesmente como uma dimensão indiscutível de construção de modos topográficos, mas ser ele próprio considerado uma influência socialmente condicionada sobre a natureza das trajetórias de tempo-espaço percorridas por atores em sociedades modernas. Não são apenas diferentes meios de calcular e medir o tempo, mas formas divergentes das atividades diárias.

Giddens propõe uma ênfase no tempo reversível. Hagerstrand retrata habitualmente as trajetórias tempo-espaço como tendo um movimento “linear” ao longo do dia. Mas uma representação mais apurada do caráter repetitivo da vida social cotidiana será fornecida se considerar que a maioria dos trajetos de espaço-tempo diários envolvem um “retorno”.

Os tipos de atividades mais rotinizados podem ser representados como um perfil de trajetos tempo-espaço inseridos em tempo reversível. Giddens traz como exemplo as escolas. Nos termos de Hagerstrand uma escola é uma estação, mas um local é mais do que um mero ponto de parada.

Vejamos algumas considerações de Hagerstrand acerca das escolas:

  • Organizações disciplinares, com traços burocráticos que influenciam e são influenciados pelas regiões que ela contém.
  • Funciona dentro de fronteiras fechadas.
  • Recipiente que gera poder disciplinar. Estrita coordenação dos encontros seriais que os escolares estão envolvidos.
  • Segmento de tempo: espacial e temporalmente fechado e os encontros exteriores são inoportunos.
  • Internamente compartimentadas.
  • Distribuição espacial disciplinar: separação das salas e intervalos regulares.
  • Horário escolar: mobilização de espaço como trajetos espaço-temporais coordenados.
  • Especificação do posicionamento do corpo, movimentos e gestos organizados com precisão.
  • Sala de aula é um recipiente de poder. A disciplina através da vigilância constitui um veículo importante para gerar poder.
  • Contexto disciplinar não é contexto, está mobilizado dentro da dialética de controle.
  • Região de trás: forte definição espaço-temporal.
  • Intensidade de vigilância inibe o controle direto do exterior.
  • Controle do professor imediato. Supervisão das atividades dos professores é indireta.

Contra o “micro” e o “macro”: integração social e de sistema 

Giddens não emprega os termos mais familiares: estudo “microssociológico” e “macrossociológico” por duas razões:

1. Porque esses gêneros de estudo são com freqüência mutuamente contrapostos, com a implicação que se deve escolher entre um, de modo que este seria mais fundamental que o outro.

2. Mesmo quando não existe conflito entre essas duas perspectivas, uma divisão de trabalhos tende a produzir-se entre elas – microssociologia interessada nas atividades do “agente livre”, e a macrossociologia na análise das restrições estruturais que fixam limites à livre atividade.

Giddens sugere que o esforço para reconstituir a macrossociologia sobre microfundações radicalmente empíricas é o passo crucial na direção de uma ciência  sociológica mais bem sucedida e traz algumas análises oferecidas por Collins. Para Collins, o caminho adequado é através de um programa de macrotradução de fenômenos estruturais. Aos olhos de Collins, há apenas três macrovariáveis puras: tempo, espaço e número. As variáveis estruturais são a simples quantidade de pessoas em vários tipos de micro-situações. Realidade social é micro-experiência: agregações temporais e especiais numéricas dessa experiência que constituem o nível macrossociológico da análise.

Giddens aponta os motivos da deficiência do ponto de vista de Collins:

1. Tratar o tempo e o espaço como variáveis é repetir o erro da maior parte da ciência social ortodoxa.

2. Por que pressupor que estrutura é relevante apenas para questões macrossociológicas? A atividade em microcontextos tem propriedades estruturais fortemente definidas.

3. O tempo só é relevante para preocupações macrossociológicas? A temporalidade é inseparável de um pequeno segmento da interação até da mais longa das longues durées.

4. Por que propor que as variáveis estruturais consistem apenas em três dimensões?

5. Maior confusão de Collins está no pressuposto de que macroprocessos são o resultados das interações em microssituações. Isso nos leva apenas a guerra simulada. As instituições sociais não são explicáveis como agregados de microssituações.

Acerca da microsituação, Giddens argumenta que nenhum fenômeno pode ser entendido de forma independente. A maioria dos aspectos de interação está sedimentada no tempo e só se lhes pode atribuir um sentido se considerarmos seu caráter rotinizado e repetitivo. A diferenciação de micro e macro torna-se imprecisa pois a formação de encontros ocorre necessariamente em extensões espaciais mais vastas do que as envolvidas em contexto imediatos da interação face a face. Dessa forma, a teoria da estruturação considera como referentes as relações entre integração social e integração de sistema.

Como as sociedades diferem em seus modos de articulação institucional, também deve-se esperar que variem os modos de interseção de presença e ausência que intervêm em sua constituição. Virtualmente todas as sociedades, não importa quão pequenas ou aparentemente isoladas, existem em conexão pelo menos frouxa com “sistemas intersociais” mais vastos. Todos os contatos entre membros de diferentes comunidades ou sociedades, não importa sua extensão, envolvem contextos de co-presença.

O que tornou possível a maior “extensão” espaço-temporal envolvida nas sociedades divididas em classes foi o desenvolvimento das cidades, sendo esta o principal locus de poder institucional. Estas estabelecem uma centralização de recursos que propicia maior distanciamento tempo-espaço do que era o caso típico nas ordens tribais. A compra e venda de tempo é certamente uma das características mais distintivas do capitalismo moderno.

Essas novas formas de ordem institucional alteram as condições da integração social sistêmica e mudam, portanto, a natureza das conexões entre o próximo e o remoto no tempo e no espaço.

Notas críticas: Foucault sobre a distribuição de tempo e de espaço.

Nesta seção Giddens apresenta discussões feitas por Foucault sobre as origens do poder disciplinar: preocupação com a distribuição temporal e espacial. A disciplina só pode avançar através da manipulação do tempo e do espaço. O “confinamento” é muito abordado por Foucault.

Fechamento é uma base generalizada de poder disciplinar, mas por si só insuficiente para permitir a administração detalhada dos movimentos e atividades do corpo. Isso só pode ser realizado através da compartimentação interna, que evita grandes grupos e propicia manipulação direta das atividades do corpo. É um espaço analítico, no qual indivíduos podem observados e analisados.

A prática de etiquetar mercadorias foi mais tarde aplicada a pacientes. Assim, o espaço terapêutico foi desenvolvido a partir da distribuição do espaço administrativo e político. A compartimentação do espaço ocorreu em circunstâncias diferentes nas fábricas do final do século XVIII. A distribuição dos corpos no espaço devia corresponder às exigências técnicas da produção.

O caráter do espaço disciplinar deriva do arranjo espacial, o que importa é a forma relacional global. A disciplina depende da divisão cautelosa do tempo, assim como do espaço. O exército nos fornece uma ilustração adequada. Foi em relação aos movimentos do exército holandês (século XVI) que o termo disciplina sofreu uma mudança de significado. Antes se referia ao processo de aprendizagem, depois passou a ser aplicado como é hoje. A cronometragem é condição básica da coordenação do corpo e do gesto.

A Escola de Gobelinos foi nomeada por Foucault como uma nova técnica para encarregar-se do tempo das atividades individuais da seguinte forma:

1. Divisão das vidas cronologicamente.

2. Fases separadas de treinamento e carreira podem ser organizadas de acordo com um plano global.

3. Cada um dos segmentos temporais deve ser concluído com um exame.

4. Também podem ser designados diferentes níveis de treinamento para realização de ofícios hierarquizados.

A seriação de atividades sucessivas torna possível todo um investimento de duração pelo poder. O poder é diretamente articulado com o tempo, assegura o seu controle e garante seu uso.

A disciplina é apresentada aqui como “celular” em termos de distribuição espacial, “genética” em relação às fases seriais e “combinatória” unindo atividades humanas como os trajetos de uma máquina social.

A semelhança entre visão de Foucault (poder disciplinar) e Max Weber (burocracia moderna) é a de que há uma forte ênfase sobre o surgimento de novos tipos de poder administrativo, gerados pela organização concentrada de atividades humanas através de sua especificação e coordenação precisas.

O poder disciplinar só pode ser sistematicamente gerado pela aglomeração de seres humanos em cenários específicos e fisicamente demarcados. Weber tem razão quando diz que a disciplina administrativa funciona melhor quando outros aspectos da vida do individuo são separados dela.

Giddens aponta ainda a importância leitura de Goffman, visto que os corpos de Foucault não são agentes. O ingresso em prisões ou manicômios é diferente de se movimentar entre outros cenários em que o individuo pode passar partes do dia. As instituições totais envolvem o que Goffman chama de morte civil.

Nesse contexto, há uma incompatibilidade entre instituições totais e estrutura básica de pagamento pelo trabalho. Nas instituições totais, os métodos de interrogatório transgridem “Reserva de informação”, há um dissolução de fronteiras entre fechamento e abertura, há relações forçadas e contínuas com outros e há uma seriação temporal de atividades a curto e longo prazo que é especificada e controlada.

Giddens finaliza o capítulo colocando que tanto Foucault quanto Goffman exploraram as questões sobre a natureza da loucura. Goffman questiona Foucault no que diz respeito às relações entre insanidade e razão. Foucault coloca que a loucura é o lado sombrio da razão enquanto Goffman apresenta a loucura como incapacidade social.

Claudia Galante

É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa Ideologia, Comunicação e Representações Sociais. Especialista em Marketing pela FAE (PR) e graduada em Comunicação Social pela PUC-PR. Atualmente atua no departamento de comunicação social do Instituto Federal da Bahia (IFBA) Campus Camaçari. Tem experiência na área de Comunicação e interesse nos seguintes temas: mídia, democracia, cibercultura e interações.

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