A Constituição da Sociedade | Capítulo 2 | Consciência, Self e Encontros sociais

Neste segundo capitulo do livro o autor busca cumprir os seguintes objetivos:

  1. examinar problemas conceituais da conexão da Teoria da estruturação com interpretações sobre a natureza do inconsciente para então encontrar a melhor maneira de conceituar o self, especialmente o “eu” enquanto agente;

  2. Fazer descrições que pretendem representar o entrelaçamento de consciente e inconsciente com base nos escritos de Erikson, com destaque para a importância do caráter rotinizado da vida cotidiana e para a coordenação dos componentes inconscientes com a monitorarão reflexiva dos encontros. Nas discussões sobre as interações de agentes em co-presença Giddens recupera estudos de Goffman e aponta a importância do corpo como locus do self atuante.

 Reflexividade, consciência discursiva e prática
Nesta sessão inicial o ator faz uma análise sobre a diferentes definições de consciência e do “eu”, criticando as limitações dos conceitos desenvolvidos por Freud para chegar a sua definição de agência na teoria da estruturação. O conceito de ego de Freud não contempla a natureza da agência humana e seu objetivismo limita a compreensão mais ampla sobre capacidade de agencia. Giddens aponta como os escritos de Mead ajudam a esclarecer a agência do self e ainda destaca que “a constituição do “eu” só ocorre mediante o “discurso do Outro”- isto é, através da aquisição da linguagem -,mas o “eu” tem de ser relacionada ao corpo  enquanto esfera de ação”.p.49 e 50.

“O reconhecimento da importância essencial da monitoração reflexiva da conduta na continuidade da vida social não significa refutar o significado das fontes inconscientes de cognição e motivação. Mas envolve prestar alguma atenção à diferenciação que separa consciente de inconsciente”. p.50

Nesta tarefa de diferenciação Giddens aponta diferentes definições de consciência, ora associadas à capacidade sensorial de perceber o mundo, ora relacionadas aos diferentes graus de atenção (associada mais à noção de consciência prática) e ora vinculada à capacidade de pensar e descrever os próprios atos de maneira inteligível (relacionada à ideia de consciência discursiva).

Inconsciente, tempo e memória
Nesta sessão do capitulo discute-se mais profundamente a noção de inconsciente, partindo da crítica ao conceito de inconsciente de Freud, considerado como oposto da consciência discursiva. Giddens destaca a importância de compreender a memória e, mais precisamente, os diferentes mecanismos de recordação para chega a uma compreensão mais completa de inconsciente na teoria da estruturação. Analisando as diferentes temporalidades e os esquemas perceptivos que se ancoram no corpo humano, o autor ilustra o quanto a memória e os mecanismos de recordação das experiências são vitais para compreender a cognoscitividade dos agentes humanos. Neste cenário a consciência discursiva é ilustrada a partir das formas de recordação que o ator é capaz de expressar verbalmente. A consciência prática envolvendo “a recordação a que o agente tem acesso na durée da ação, sem ser capaz de expressar o que assim sabe”. p. 56 O inconsciente, por sua vez, refere-se a modos de recordação a que  o agente não tem acesso direto porque há barreiras que inibem sua incorporação não mediada na monitoração reflexiva. Estas barreiras que podem ser 1) relativas ao sistema de segurança básica e 2) ao conjunto de recalcamentos são discutidas em profundidade na próxima parte do capítulo.

Mesmo esclarecendo que há moderada relação com as proposições de Freud, Giddens não aceita a noção de que a maior parte das ações do indivíduos  contenham  motivações inconscientes. Para ele só raramente o inconsciente incide diretamente sobre a monitoração reflexiva da conduta. “O “eu” é uma característica essencial do monitoramento reflexivo da ação, mas não deve ser identificado com o agente nem com o self. Entendo por “agente” ou “ator” o sujeito humano total, localizado no tempo-espaço corpóreo do organismo vivo. (…) O self, entretanto, não é uma espécie de mini-agência dentro do agente. É a soma daquelas formas de recordação por meio das quais o agente caracteriza reflexivamente “o que” está na origem de sua ação. O self é o agente enquanto caracterizado pelo agente. Self, corpo e memória estão, portanto, intimamente relacionados”. p.58 e 59

Erikson: ansiedade e confiança
Neste subcapítulo o autor aproveita os estudos de Erikson para discutir as origens e o desenvolvimento da segurança ontológica que expressa uma autonomia do controle corporal no âmbito das rotinas previsíveis nas quais nossas interações sociais ocorrem. A previsibilidade das rotinas no cotidiano está associada ao sistema de controle da ansiedade básica que envolve também o sentimento de confiança nos outros. O desenvolvimento da personalidade na teoria de Erikson é ilustrado por três fases que envolvem um movimento progressivo na direção da autonomia e no estabelecimento da monitoração reflexiva.  A primeira fase composta pela polaridade confiança básica x desconfiança; a segunda pela polaridade autonomia x vergonha, dúvida e a terceira iniciativa x culpa. Nestas diferentes etapas Erikson identifica o caminho que permite a transformação do corpo em um instrumento da ação  no mundo. Pará Giddens as três etapas da formação de conceitos de “agência” são coincidentes com as fases de descritas por Erikson. A gradativa formação de capacidades de ação combina-se com a compreensão dos outros como agentes e de orientação generalizada para evitação da ansiedade e preservação da autoestima.

Rotinização e motivação
Neste subcapítulo o autor destaca a relação da rotina com o sistema de segurança ontológica e com o sentimento de confiança na continuidade do mundo que compõem a vida do agente. “Se. sujeito só pode ser apreendido através da constituição reflexiva de atividades diárias em praticas sociais, não podemos entender a mecânica da personalidade separada das rotinas da vida do dia-a-dia, através das quais o corpo passa e que o agente produz e reproduz. O conceito de rotinização, baseado na consciência prática, é vital para a teoria da estruturação”. p. 70

O autor faz a análise de situações de ameaça e rompimento radicais da rotina, “situações críticas” nas quais há uma disjunção radical e imprevisível que destroem as certezas de rotinas institucionalizadas. Um exemplo de situação critica explorado para ilustrar as consequências psicológicas deste rompimento parte das descrições de Bettelheim sobre a sobrevivência em campos de concentração nazista. Em situações críticas como estas os sujeitos são desprovidos da previsibilidade de sua vida cotidiana e seu sentimento de autonomia e futuro são dissolvidos de tal forma que os prisioneiros viviam em radical insegurança ontológica. Alguns sobreviventes, observou Bettelheim, reconstruíam suas personalidades baseadas na identificação com os opressores, possivelmente como tentativa de reencontrar um mínimo de segurança ontológica para preservarem um mínimo de agencia em seu cotidiano. Em contraste, a vida social cotidiana normal envolve uma segurança ontológica fundada na autonomia do controle corporal dentro de rotinas e encontros previsíveis. O caráter rotinizado da vida oferece uma previsibilidade vital para o agente manejar seus encontros.

Presença, co-presença e integração social
Uma dimensão importante na rotina da vida cotidiana é aquela dos encontros nos quais os indivíduos fisicamente co-presentes interagem durante as atividades diárias. Na sua análise sobre encontros o autor recupera as reflexões de Goffman sobre o conceito de “face” e de espacialidade do corpo em Merleau-Ponty. Este último traz a ideia de “espacialidade de situação” do corpo as quais as relações espaço-temporais de co-presença estão ajustadas, destacando que o “aqui” do corpo se refere à situação ativa do corpo orientado para suas tarefas. Com as reflexões de Goffman Giddens destaca a importância do posicionamento da face nas interações sociais e compartilha a definição de co-presença como amparada nas modalidades perceptivas e comunicativas do corpo, sendo que as condições plenas de co-presença são encontradas quando os agentes sentem estra suficientemente próximos para serem percebidos em sua ação e para serem percebidos nesse sentir ser percebido. Apesar de apontar a nova dimensão das relações mediadas, o autor não explora este ponto em profundidade. p.79

Goffman: encontros e rotinas

Giddens encontra nos escritos de Goffman importante contribuição para explorar as relações entre consciência discursiva e prática nos contextos de encontros. No entanto, Giddens busca compreender as origens das motivações dos agentes para seguirem suas rotinas nos encontros. Aproveitando-se e adaptando as tipologias de Goffman, Giddens sugere a compreensão de diferentes modalidades de encontros em co-presença e analisa os aspectos diferenciados da monitoração reflexiva em cada tipo de encontro, a saber:

a) reuniões b) ocasiões sociais c) interação não-focalizada d) interação focalizadas: encontros (face a face) e rotinas (episódios)

Os encontros são considerados como o fio condutor da interação social e Giddens destaca que eles ocorrem como rotinas. A rotinização dos encontros vincula o encontro fugaz à reprodução social e à “fixidez” aparente das instituições. A integração social é aqui definida como sistemidade em circunstâncias de co-presença. p.84

Serialidade

A forma como os encontros são formados e reformados na durée da existência diária é uma dos elementos relevantes para compreender a integração social. Sendo os encontros fenômenos sequenciados na serialidade da vida cotidiana, Giddens aponta 2 principais características das propriedades sistemáticas dos encontros: abertura e fechamento e alternância. Os encontros face a face implicam diferentes processos de fechamento e abertura para que a interação seja desenvolvida pelos agentes e exigem a monitoração reflexiva do corpo, do gesto e do posicionamento em diferentes graus de acordo com a complexidade dos encontros. Dentre as inúmeras habilidades de interação, embasadas na consciência prática, exigidas nos encontros, Giddens destaca a importância do tato, o acordo entre os agentes em interação que permite sustentar “a confiança” ou segurança ontológica durante longos períodos de tempo-espaço. p. 88 A alternância que se aplica tanto à serialidade de encontros quanto à interação entre agentes dentro de encontros pode apontar para os diferenciais de poder nas interações.

 Fala, reflexividade

A monitoração reflexiva da ação em contextos de co-presença exige uma espécie de “vigilância controlada” para “exibir presença” nas interações. Esta vigilância amparada na consciência prática está associada à capacidade de “ser visto como agente capaz”. A linguagem corporal, assim como a fala, também tem um carácter discursivo e normativo, emitindo um conjunto de informações cruciais para as interações em encontros presenciais. A fala, a conversação cotidiana, apresenta-se como aspecto vital para sustentação dos encontros em sua serialidade. A fala também possui uma contextualidade que deve ser muito seriamente analisada para se compreender os encontros e os mecanismos de monitoração reflexiva implicados. O conjunto de regras e dispositivos empregados nas conversações está relacionado às formas de organização das práticas sociais regularizadas.

Posicionamento

Todos os atores estão posicionados ou “situados” no tempo-espaço em suas práticas sociais e em sua vida, bem como possuem uma “posição social” especificada em uma “identidade” definida numa rede de relações sociais que envolve prerrogativas e obrigações. Esta gama de obrigações constituem as prescrições de papel associadas ao posicionamento social do agente no sistema social. Giddens aponta que o posicionamento dos atores é sempre relacionado aos três aspectos da temporalidade destacados na teoria da estruturação. Há o posicionamento dos agentes em circunstâncias de encontros em co-presença nos cursos espaço-temporais da vida cotidiana, bem como o posicionamento dentro do ciclo vital. O posicionamento é ainda simultaneamente no âmbito da regionalização mais ampla das totalidades sociais e dentro de sistemas intersociais. O posicionamento ao longo do curso vital está sempre relacionado à categorização das identidades sociais que o agente assume em suas práticas sociais contextualizadas. A interseção entre estas formas de posicionamento e aquelas que ocorrem na longue durée das instituições é que cria a estrutura básica global do posicionamento social.

Considerando que toda interação é situada no tempo e no espaço, a regularidade e a rotina do encontros representam características institucionalizadas dos sistemas sociais. Neste sentido, a monitoração reflexiva é fundamental para a integração social. A indagação central de Giddens está relacionada à cognoscitividade dos agentes: “em que sentido os agentes são “cognoscitivos” acerca das características dos sistemas sociais que produzem e reproduzem em sua ação?” p. 105 Giddens destaca que a consciência prática consiste no conhecimento de regras e táticas que permitem a constituição e reconstituição da vida social através do tempo e do espaço. A consciência prática contempla a cognoscitividade incorporada às atividades cotidianas.

 As habilidades sociais dos agentes são geralmente relacionadas aos milieux nos quais se movimenta e nos quais consegue conhecer as regras e táticas para desenvolver sua conduta prática, habilidades que variam de acordo com as diferenças sociais e culturais. Por fim, Giddens indaga sobre os tipos de circunstâncias que tendem a influenciar o grau e a natureza da “penetração” dos atores sociais nas condições de reprodução do sistema, destacando 4 fatores (p.108):

  1. os meios de acesso dos atores ao conhecimento, em virtude de sua localização social;

  2. os modos de articulação do conhecimento;

  3. as circunstâncias referentes à validade das afirmações de crença interpretadas como “conhecimento”;

  4. os fatores relacionados com os meios de disseminação do conhecimento disponível.

Rodrigo Nejm

É psicólogo pela Universidade Estadual Paulista UNESP/Assis-SP, doutor em psicologia social no Programa de Pós Graduação da UFBA e mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS/UFBA. Realizou intercâmbio acadêmico na graduação para estudar “Médiation Culturelle et Communication” na Université Charles de Gaulle Lille 3, França. Pós-doutorando PNPD-CAPES no PPGPSI-UFBA. Psicólogo e diretor de educação na ONG Safernet Brasil, responsável pela criação de materiais pedagógicos, pesquisas e campanhas educativas sobre Direitos Humanos e governança da Internet no Brasil. Tem interesse de pesquisa nas interfaces da psicologia com a comunicação, privacidade e sociabilidade de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

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