A Constituição da Sociedade – Anthony Giddens (1984/tradução 1989)

Dando continuidade às atividades, o Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia retomou a leitura do livro “A Constituição da Sociedade”. A obra do sociólogo britânico Anthony Giddens dedica-se à fornecer concepções da natureza da atividade humana e do agente humano, ou seja, explicar sobre processos concretos da vida social.

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SOBRE O AUTOR

Sociólogo britânico, considerado por muitas pessoas o mais importante filósofo social inglês contemporâneo. Do ponto de vista acadêmico, o seu interesse concentra-se em reformular a teoria social e reexaminar a compreensão da modernidade.

Entre 1997 e 2003, foi Diretor da Faculdade de Economia e Ciência Política de Londres (referenciada como uma das mais prestigiadas Instituições de Ensino Superior do mundo especializada exclusivamente em Ciências Sociais Aplicadas e considerada um dos maiores centros de debate político no mundo). Anteriormente foi professor de Sociologia em Cambridge. Trabalhou como assessor do ex-Primeiro-ministro britânico Tony Blair.

INTRODUÇÃO

Na introdução, Giddens situa as principais contribuições para o desenvolvimento do pensamento sociológico contemporâneo.

Ressalta que o pano de fundo do livro remete aos significativos acontecimentos/desenvolvimentos ocorridos nas ciências sociais nos 15 últimos anos anteriores à publicação e debruça-se, essencialmente, na teoria social, apresentando a sociologia como a mais denegrida e provocadora das ciências sociais.

Destaca que após a segunda guerra, principalmente nos países de língua inglesa, a sociologia se desenvolveu academicamente, mas conservou-se impopular em alguns meios.

Internacionalmente, aponta que o campo era dominado pela sociologia norte-americana e em relação à Teoria Social, apresenta a influência de Talcott Parsons[1] como relevante, muito embora considere exagerado o prestígio desfrutado pelas ideias do autor.

Apresenta ‘A Estrutura da Ação Social’[2] (publicada no final da década de 30 e amplamente conhecida no período pós-guerra), como uma obra fundamental para a formação da sociologia moderna baseada numa interpretação do pensamento europeu do século XIX e começo do século XX – com destaque para as obras de Weber, Pareto e Durkheim (para Giddens, Marx não desempenhava um papel tão relevante. Afirma que o marxismo aparece como uma influência bem mais importante na cultura intelectual européia).

Sensível às deficiências do consenso ortodoxo, o livro é apontado por Giddens como importante por estabelecer um enfoque da teoria social de forma bem definida, combinando uma versão refinada, segundo ele, do funcionalismo e uma concepção naturalista de sociologia. Destaca que a obra de Parsons, na tentativa de localizar de forma precisa as origens do seu pensamento, sendo uma obra escrita e trabalhada num contexto americano, serviu para reforçar a posição dominante da sociologia norte-americana. Neste sentido, Giddens aponta que a sociologia pode ter suas principais origens teóricas na Europa, mas a elaboração ulterior  da matéria foi transferida para a América. Giddens, aprecia o aporte teórico norte-americano mas parece insistir que as mais destacadas contribuições teóricas são mesmo européias.

Destaca os escritos subseqüentes de Parsons pelas idéias minuciosas que enfatizam que ‘embora a ação humana possua atributos muito especiais e distintivos, a ciência social compartilha, de modo geral, a mesma estrutura lógica da ciência natural’. E segue sua critica à Parsons trazendo elementos que apontam o marxismo como sendo um agente das principais criticas à sua obra.

Aponta que entre o final da década de 60 e começo de 70 surgem possibilidades num terreno comum/consensual – dois grupos de pensamento (de origens tanto políticas quanto intelectuais), dissolvendo todo o espaço ocupado pelo “consenso ortodoxo” desenvolvido acerca do modo como a teoria social devia ser abordada, principalmente com relação à sua natureza. E assinala que algumas correntes de pensamento tradicionais como o interacionismo simbólico,  se desenvolveram e tiveram adesão sem necessariamente amparar-se no consenso ortodoxo.

Para Giddens, a perda de espaço antes ocupado pelo o que qualifica como consenso ortodoxo deixou aparentemente a teoria social numa irremediável desordem. Mesmo diante deste cenário, aponta que é possível identificar em meio a teoria social (ainda que com interferência de vozes contrárias), temas comuns como: o caráter ativo e reflexivo da conduta humana. Destaca que o estruturalismo e o “pós-estruturalismo” atribuem um papel fortemente importante à linguagem (fixada nas atividades concretas do cotidiano) e as faculdades atribuídas à cognição (interpretação de significado).

Comenta que ao elaborar os conceitos da teoria da estruturação, não pretendia apresentar uma nova ortodoxia equivalente a anterior, mas é sensível às deficiências do consenso ortodoxo.

Ainda nos apontamentos inicias, Giddens expõe que não há como distinguir claramente os conceitos “teoria social” e “teoria sociológica”, mas que a “teoria sociológica” pode ser considerada genericamente como um ramo da “teoria social”, sem manter uma identidade totalmente diferente.

Como uma introdução à sua teoria da estruturação, esclarece que o livro se propõe a ser, essencialmente, uma formulação das tarefas da teoria social e que o seu foco é sobre a compreensão do conceito de “agência” humana e das instituições sociais.

Sugere ainda, que ao invés de confrontos epistemológicos, que os teóricos que trabalham com teoria social se dediquem – prioritariamente – na reelaboração de reflexões sobre SER humano, do FAZER humano, REPRODUÇÕES  SOCIAIS e TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS.

Aponta que por mais significativas que as questões espistemológicas possam parecer, são os interesses ontológicos da teoria social que interessa à teoria da estruturação. Ou seja, na reelaboração de concepções de ser humano e de fazer humano, reprodução social e transformação social.

Comenta ainda, que o livro introduz outros temas, em especial o que envolve a relação de tempo e espaço. Para este tema, reforça que as propriedades estruturais dos sistemas sociais só existem na medida em que formas de conduta social são reproduzidas através do tempo e do espaço, ou seja, as práticas sociais, ao penetrarem no tempo e no espaço, estão enraizadas na constituição do sujeito e do objeto social.

É importante destacar também a critica substancial às opiniões apresentadas por Goffman. Giddens refere-se a vulnerabilidade das idéias de Goffman afirmando que ele se absteve de extrair de forma plenamente sistemática as implicações do seu ponto de vista. Em tempo, reconhece e valoriza as observações sobre face work, gestos e controle reflexo do movimento corporal como essenciais na continuidade da vida social.

E segue apresentando (em teoria social) um conjunto de outros conceitos como rotinização, coerção, história, estrutura, materialismo histórico, episódio, tempo mundial… Ressaltando que “os pontos de ligação entre a teoria da estruturação com a pesquisa empírica dizem respeito à elaboração das implicações lógicas de um campo, do qual o próprio pesquisador já é uma parte e a elucidação de conotações substantivas das noções essenciais de ação e estrutura.”

Sobre à organização do livro:

1o cap – Esboço dos principais conceitos envolvidos na teoria da estruturação;

2o cap –  Discute sobre consciência, inconsciente e a constituição da vida cotidiana (segundo ele a parte mais substantiva do livro);

3o cap –  Tempo, espaço e regionalização;

4o cap – Estrutura, sistema, reprodução social;

5o cap –  Mudança, evolução e poder

6o cap – A teoria da estruturação, pesquisa empírica e critica social

Para os neologismos utilizados na obra, apresenta um glossário bastante interessante ao final.


[1] Foi por muitos anos um dos Sociólogos mais conhecidos nos Estados Unidos e no mundo. Seu trabalho teve grande influência nas décadas de 1950 e 1960, particularmente na America. serviu à Universidade de Harvard entre 1927 e 1973. Inicialmente, foi uma figura central no Departamento de Sociologia de Harvard, e posteriormente no Departamento de Relações Sociais, criado por ele para refletir sua visão de uma ciência social integrada.

[2] O livro reviu a produção especialmente de Max Weber, Vilfredo Pareto e Émile Durkheim, buscando a partir deles uma simplificada “teoria da ação baseada na suposição de que a ação humana é voluntária, intencional e simbólica.”

 

Ana Terse Soares

Ana Terse Soares é graduada em Comunicação Social e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (2013) na linha de Cibercultura. Atualmente integra os Grupos de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) e o Analítica: Crítica de Mídia, Estética e Produtos Midiáticos, ambos na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre Performances Musicais através de Hologramas e seus interesses debruçam-se, principalmente, sobre os seguintes temas: Comunicação e Tecnologias Digitais, Cultura Digital, Redes Sociais, Produção de Presença e Materialidades da Comunicação, Arte e Tecnologia, Música e Virtualidade, Experiência Estética e Holografia, Performances Musicais e Tecnologias Digitais, Digital Bodies, Performers Virtuais.

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