A cidade como palco de interações e representações

Venho há algum tempo pensando em como a cidade em seu formato contemporâneo tem trazido consigo uma série de affordances, situações, permissões ou facilidades para a expressão de indivíduos ou coletivos. E quando pensamos em cidades contemporâneas, há de serem lembradas as conexões e linhas de fuga para palcos eletrônicos em relação àquilo que é criado nessa ou por essa cidade. Dito de outra maneira, há de ser lembrado que as produções dos citadinos caem num contexto de comunicação mútua, uma imensa rede de compartilhamento disperso que serve, afinal de contas – mas não somente – para a expressão desses seres urbanos. A cidade contemporânea, assim, é a um só tempo fonte de dados representacionais e interativos e palco para uma grande representação generalizada. Dela advêm as informações; nela caem novos saberes.

Em outro momento foi mostrado nesse mesmo blog o projeto This is Now, o qual agrupa fotos georreferenciadas de algumas cidades (como São Paulo, Rio de Janeiro, New York, Paris) e cria murais daquilo que está sendo publicado no Instagram. A cidade, por esse viés, evidencia-se como uma grande colagem de visões, acontecimentos e enquadramentos diversificados (como ela realmente é, e como quase nunca é tratada). À despeito das caras tentativas de branding (“I love NY” e similares), as cidades capturadas se mostram mais complexas e plurais do que aquilo que, com efeito, realmente sabemos delas. Num artigo rápido para o site Future Media, Bernardo Gutiérrez sintetiza: “a cidade como uma soma de olhares subjetivos”. A cidade contemporânea, pulsante de dados e experiências locais (e não globais), dessa forma fala per se.

Numa abordagem similar, a tradicional empresa de eletrônicos Philips lançou um concurso com uma pergunta: o que faz a sua cidade vivível e louvável? (em adaptação livre; no inglês, os termos utilizados são “livable and lovable”, num claro trocadilho proporcionado pela aliteração das palavras). Dessa vez, contudo, as informações são providas por imagens dispostas em boards do Pinterest marcadas com a hashtag #pinyourcity. Sem levar em consideração as formas de premiação do concurso, o que nos interessa aqui é como as pessoas estão dispondo a si e a suas cidades na internet.

Falar de cidades e das relações de seus habitantes nos leva necessariamente a pensar sobre as considerações de não-lugar. O termo, proposto pelo antropólogo Marc Augé, resume a ideia de espaços de intenso fluxo e transitoriedade, marcados por uma não-identidade e uma ausência de elo maior para com esses espaços. É, contudo, interessante perceber como o uso e a ocupação de determinados espaços de trânsito podem resultados, efetivamente, numa anulação do “não”, transformando esses espaços “vazios” ou destituídos de identificação em lugares de fato. A cidade contemporânea, assim, não é um vazio a afastar as pessoas para seus próprios lares, mas um espaço a “requerer” vida e experiência local.

Há uma série de outros projetos na postagem de Gutiérrez a tratarem das relações de representação e interação entre as cidades e seus habitantes. A princípio, parece ser evidente que o espaço urbano atual, diante da disponibilidade de conexões e da criação de “lugares virtuais” nos quais novos dados podem ser depositados, tem funcionado como uma fonte na qual os citadinos podem retirar inspirações e experiências. Há que se considerar que ambientes eletrônicos como Flickr, Instagram, Pinterest – altamente imagéticos, por sinal – se apresentam como um depósito dessas experiências (e, ao que parece, quase sempre hedonistas).

Que cidade é essa, afinal, que se constitui das/nas redes eletrônicas?

 

por Paulo Victor Sousa

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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