7 tons dos dispositivos móveis

É com o título engraçadinho acima (Seven Shades of Mobile, no original) que a pesquisa feita pela BBDO (agência de publicidade situada em NY) em parceria com a AOL (um dos pioneiros provedores de internet) mostra quais são as motivações primárias para usos de aplicativos em smartphones. Os resultados mostram interessantes categorias de apropriação: Discovery (busca por informações ou notícias), Preparation (planejamento de atividades vindouras) e Accomplishing (gerenciamento financeiro ou do tempo, por exemplo) dão a tônica “utilistarista”, digamos, de tais ferramentas. Entretanto, aquelas utilizações de cunho mais “social” – ou voltadas à sociabilidade, melhor dizendo – também estão lá, muito embora pareçam estar alocadas num mundo à parte.

Pesquisa mostra modos de uso de aplicativos móveis. Fonte: Harvard Business Review [http://hbr.org/2013/01/how-people-really-use-mobile/ar/1]

Pesquisa mostra modos de uso de aplicativos móveis.Fonte: Harvard Business Review [http://hbr.org/2013/01/how-people-really-use-mobile/ar/1]

A coleta de dados realizada para a pesquisa foi feita por meio de processos diversos, tais como aplicações de questionários e rastreamento de dados feito diretamente nos celulares dos entrevistados. A partir daí, a equipe dividiu os atributos de uso em sete categorias: auto-expressão, descobertas, preparação, metas, compras, socialização e “tempo para mim” (me time).

Há algumas questões instigantes a serem consideradas aí. É curioso perceber que os usos mais diversos podem entrar em colapso, por assim dizer, se começarmos a esmiuçá-los. Em outras palavras, as categorias construídas podem até existir para uma compreensão mais geral, mas uma visão mais detalhada das aplicações pode mostrar-nos uma certa ambivalência ou fronteiras borradas. Verificar a timeline do Twitter, por exemplo, deve ser considerado o quê? Busca por notícias ou socialização? Realizar compras pelo Facebook seria um ato de compra ou socialização? Visualizar as fotos da Revista Trip ou do Instanotícias no Instagram, o que seria? Um fotógrafo profissional postando fotos no Flickr, estaria socializando ou buscando atingir metas de reconhecimento (o que teria implicações financeiras a posteriori)?

Como se nota, as atribuições de uso são complexas, de fronteiras bem mal delineadas. Se considerarmos que cada vez mais as diferentes redes e serviços estão conectados entre si, assistir vídeos no Youtube ou jogar games diversos, por exemplo, não podem ser simplesmente (ou simploriamente) alocados numa categoria de “me time“, uma vez que há sempre práticas de compartilhamento de status (“estou assistindo a este vídeo” ou “consegui passar de fase”, algo do tipo). A ideia de “tempo para mim” também isola o sujeito e parece matar suas relações sociais. Se somos o que somos, e se nos representamos de um modo ou de outro, por exemplo, justamente porque estamos em associações com diferentes elementos (sejam humanos ou não-humanos), como considerarmos um “eu” isolado (tanto quanto a categoria está isolada), distante de seus laços? Complexificando mais, como conceber tal isolamento ao lidar especificamente com um dispositivo móvel que nos coloca em constante ligação com o mundo, independentemente das limitações geográficas? Como provoca o post do Media Bistro, talvez o único momento em que se possa pensar em um “me time” é quando seu celular está desligado…

A questão é ampla e complexa. De qualquer forma, os envolvidos com a pesquisa estão a par com tais considerações, indicando, inclusive, que as empresas erram com seus clientes justamente por entregarem conteúdos promocionais em momentos inapropriados (lembrando que é uma pesquisa realizada por empresas e possuem um cunho mercadológico, pois). Um dos problemas dos marqueteiros estaria, portanto, em perceber que momentos ideais seriam estes para o diálogo efetivo com seu público.

Ampliando a discussão, vale conferir também outra notícia sobre utilizações de tablets e smartphones também twittada pelo Gits, a qual mostra que metade do tempo gasto nesses dispositivos é com games e Facebook.

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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