20 dias com um estranho

Em postagens anteriores, falamos aqui de aplicativos que mediam encontros presenciais ou que mostram informações espaciais de acordo com as preferências ou com o histórico de dados deixados por um usuário numa rede. Tinder, Foursquare (e agora Swarm) e até Google Maps (e também suas variantes como Google Now) têm atuado nesse sentido, apresentando informações trabalhadas a partir de um ponto de vista individual. De certa forma, aplicações como essas operam segundo uma lógica de retroalimentação de um determinado universo semântico: dados, assim, passam a ser correlacionáveis entre si, e uma busca por eficiência e precisão entra em jogo como o norte a ser seguido. As experiências socioespaciais, portanto, não fogem à regra, especialmente quando visualizamos um cenário de mediações eletrônicas a permearem os lugares.

Agora, serviços baseados em localização como o Google Maps [instalados] num celular podem ser ótimos para achar um restaurante nas proximidades, mas eles operam numa escala individual de padrões de movimento. Que tal uma informação que tem o potencial para afetar maiores padrões de movimento e de atividade dentro de uma cidade? (GREENFIELD & SHEPARD, 2007, p. 13-14)

À medida em que se remetem ao indivíduo enquanto tal, o uso de ferramentas dessa natureza suscitam inúmeras questões sobre privacidade. E uma das dimensões relacionado ao conceito de “privativo”, e talvez a mais importante, se dá justamente quanto à capacidade de manter sob seu domínio aqueles dados que você deseja resguardar ou filtrar.

Curiosamente, semanas atrás foi lançada uma ferramenta que trabalha com extremos em relação a pontos como esses. Chamado de 20 Day Stranger, o aplicativo foi desenvolvido por uma empresa ligada ao MIT Media Lab e seu propósito principal é servir de mediação para o compartilhamento do dia a dia com outra pessoa qualquer, totalmente estranha, pelo período de 20 dias. E por “estranha”, entenda-se também anônima: não apenas é escolhida randomicamente como seu nome não é revelado.

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Experimento ligado ao MIT permite compartilhamento do dia a dia com estranhos.

O processo funciona simples assim: ao se formar um par, dados gerais daquelas duas pessoas são postos em domínio comum – isso significa que tanto você sabe dela quanto ela sabe de você, ou pelo menos não diretamente. A coleta se refere a dados de localizações e movimentações. Tendo por base uma dinâmica citadina, fotos do Instagram ou recortes do Google Maps vão sendo compartilhado entre os dois usuários. A princípio, nenhuma informação é referente a um perfil específico, mas está avisado no site: “você não vai saber quem é a outra pessoa ou onde ela se encontra, mas esperamos que as informações revelem o suficiente para que se possa imaginar sobre sua vida”.

A um só passo, o aplicativo conturba os processos interacionais (similarmente como já fazia o Chat Roulette) e ainda borra as compreensões em torno da privacidade justamente ao fazer compartilhamentos automáticos e não seletivos. Fotos do Instagram ou check-ins no Foursquare, por exemplo, podem ser levados aos olhos de indivíduos desconhecidos e de qualquer parte do mundo, mas sem contextualizações, as informações nesses objetos podem não fazer qualquer sentido para outros usuários – ou, pelo menos, fazer outro sentido distinto, ser reinventado. Dessa forma, segundo seus criadores, seria possível gerar empatia entre os envolvidos e até um questionamento sobre a própria rotina.

Numa passagem do livro A synchronicity, Juliam Bleecker questiona-se: “o que acontece quando a geografia não é tida como um parâmetro ‘fixo’, quando ela é inteiramente individual”. Sua preocupação se dá em torno de usos e processos que tomam o indivíduo como nó central de uma rede e que não o colocam em contato com outros indivíduos diferentes. Projetos como o 20 Day Stranger talvez auxiliem a criar redes mais heterogêneas ou, pelo menos, possam dar um primeiro passo para um contato inicial – se os laços se formarão ou não, aí é outro ponto da história. De qualquer forma, um germe de alteridade se encontra num aplicativo que busca estabelecer, ainda que temporária e anonimamente, um laço entre pessoas que podem não ter nada em comum. Nem o espaço, nem o tempo, nem os interesses.

É possível participar do projeto: basta acessar o site e preencher o formulário de requisição, mas será necessário um convite para tanto.

Referências

  • BLEECKER, Julian; NOVA, Nicolas. A synchronicity: design fictions for asynchronous urban computing. New York, New York, USA: The Architectural League of New York, 2009.
  • GREENFIELD, Adam; SHEPARD, Mark. Urban Computing and Its Discontents. New York, New York, USA: The Architectural League of New York, 2007.

Mais informações:
The Verge
Tecnoblog

 

Paulo Victor Sousa

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, onde também realiza seu doutorado. Realiza pesquisas sobre redes sociais móveis, lançando foco sobre questões identitárias vinculadas a marcações georreferenciadas.

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